“Finding Freedom” o livro da discórdia na luta pela privacidade

O mundo hoje, mais do que nunca, parece ser baseado em julgamentos binários. Não aceitar o meio-termo ou nem mesmo reconhecer essa possibilidade, dificulta o diálogo e só aumenta a discussão acalorada. Que o digam Meghan Markle e príncipe Harry em sua quixotesca luta contra a negatividade e jornalismo sensacionalista britânico. 

A novela da Família Real, que alcançou seu ápice no início de 2020, ocupou boa parte de 2019 com fofocas, mal-entendidos, análises detalhadas de cada foto, cada frase, cada vírgula. Culminou com o lançamento do best-seller “Finding Freedom”, em março de 2020, escrito para dar a versão simpática ao casal para os fatos que eles julgam serem importantes para serem esclarecidos. Dedos são apontados para todos os lados e a vitimização é inevitável.  

É mais do que admirável que Meghan e Harry se oponham à atitude da realeza britânica de deixar o assunto morrer ao não alimentar oficialmente os fatos. É fácil achar que é uma boa alternativa quando se tem o sangue mais frio, e isso não é um defeito. Porém, em tempos de redes sociais, em que elas  funcionam como uma lente de aumento e uma antena que gera ondas para todo mundo, é muito mais desafiador ser coerente em seu discurso do que qualquer outro momento da história. Igualmente, o efeito negativo de um fato não explicado contribui para a depreciação de uma marca, de um nome. O tempo não conserta as coisas. Em dias em que seis meses parecem dois anos, um fato passa a ser esquecido, não explicado. É importante tentar deixar tudo transparente.

Nesse cenário, a briga contra a imagem manchada de Meghan, tratada universalmente como oportunista, ambiciosa, belicosa e sabe-se mais o que, é quase inglória, mas ela não aceita derrota. Ela não nasceu na Realeza, ela sabe o quanto lutou para criar valor ao seu nome (sim, uma pessoa é uma marca em tempos atuais) portanto ela não tem que automaticamente aceitar as regras apenas porque se casou com um príncipe. De acordo com o que ela tenta passar em “Finding Freedom”, Meghan tentou o melhor de si para se ajustar, mas o preço da anulação total como pessoa é inconcebível. Ela tem razão. Sim, ela não era nem metade do que é hoje em termos de fama e relevância antes de ser a namorada, depois esposa, de Harry. Ninguém nega isso. O que ela não pode ser é massacrada por ter visto que o valor mercadológico da união (monetariamente e politicamente). Harry nunca será Rei, é normal que busque um papel independente e de liderança, à parte da sombra do irmão e da avó. É assustador pensar que ele é condenado à coadjuvante, sem autonomia do que dizer, onde ir, como ir e ainda ser feliz de ser príncipe. Que William esteja condenado a um papel restrito é triste, mas faz parte do jogo. Considerar o afastamento do irmão como “traição”, é loucura.

Meghan e Harry seguiram inicialmente o exemplo trilhado pela princesa Diana, que, ao não gostar mais do jogo e jogadores, quis mudar as regras para vencer. Repetindo o engano de Diana, Harry e Meghan propuseram primeiro um meio-termo para manter títulos e vantagens em troca de autonomia para fazer o que quisessem com eles. Claro que não funcionaria. A recusa da Rainha para a proposta deles pode ter sido aparentemente dura, mas foi uma benção que já devem estar festejando. Em menos de seis meses não apenas são efetivamente financeiramente independentes, como estão fisicamente longe e fazendo o que querem. Bravo!

Infelizmente, o ego tem uma voz que se nega a calar. Em tempos em que reality shows são a oportunidade de transformar qualquer um em celebridade, com o apoio interativo e direto das redes sociais, “controlar a narrativa” é como oxigênio, mesmo que seja bizarro tratar a sua vida “real” como uma ficção a ser narrada. Porque “controle da narrativa” pode parecer ser de transparência, mas não é bem assim. É frequentemente, no universo binário, apontar o dedo para o outro. E mais uma vez a fonte nasceu em Diana.

Se ouvir a narração da princesa, recuperada depois que admitiu ter sido a fonte de sua biografia, escrita por Andrew Norton, é possível ver que Diana sempre via o copo mais vazio. Nenhuma lembrança é feliz o suficiente para superar uma interpretação de que não foi levada a sério ou escutada. Ela é, em sua narrativa, incompreendida 100% das vezes. Sou fã de Diana, mas é uma choradeira sem fim. Ela nunca cometeu nenhum erro, ela sempre foi injustiçada. Pena que, quando estava chegando perto da virada, aos 37 anos, sua vida foi interrompida. Ainda assim, é possível comparar as duas biografias, “Diana, sua história” e “Finding Freedom” e ver erros repetidos.  

Diana queria um mundo feliz onde ela e Charles se amariam, criariam os filhos e chegariam a liderar o Reino britânico. Não aceitava, como não deveria, nada menos do que isso. O problema é que apenas ela queria o sonho, o de Charles era outro e o da Família Real era ainda um terceiro. Ao “controlar a narrativa” e contar sua versão, Diana humanizou a monarquia e revelou suas fraquezas. Se ela tivesse feito isso hoje, teria sido ainda mais bombástico. Quando Andrew Morton lançou o livro, ele negava a autorização da princesa, dizia que tinha falado com amigos e funcionários próximos a ela. O exato mesmo discurso usado pelos autores de “Finding Freedom”, portanto ninguém mais acredita nele. É muito óbvio que Meghan e Harry falaram com os dois. Li o livro, há páginas e páginas escritas no mesmo jeito que Meghan e Harry falam, “ticar caixas” é uma expressão favorita deles e dos autores. A alternativa de lavar a roupa suja assim foi a única que sobrou para Meghan, que foi recusada de poder falar diretamente, como queria.

“Finding Freedom” é duro com a Família Real, mas menos do que a biografia de Diana. Na versão dela, todos eram culpados deliberadamente por sua infelicidade. Meghan e Harry amenizam um pouco. Charles e a Rainha não têm um papel negativo “na narrativa” e, quando muito, são “vítimas” do sistema. William não é pintado em um bom cenário, mas, em aparente respeito à sua futura função de Rei, tem linhas que buscam amenizar sua limitação de superar preconceitos e esnobismo, também culpando ao sistema.  Kate Middleton, no entanto, é destruída. Insensível, distante, desconfiada, egoísta e decepcionante são algumas das conclusões claras que o livro promove. A verdade, ao meu ver, está no meio do caminho.

“Finding Freedom” foi catártico e importante para que ouvíssemos como Harry e Meghan queriam se apresentar, mas agora pode gerar uma dor-de-cabeça maior. É que, paralelamente ao livro, o casal abriu um processo sem precedentes contra a imprensa britânica por invasão de privacidade. Os jornais, que não negaram a briga, agora querem provar todas as incoerências da narrativa do dois, inclusive usando a aparente “mentira” de que não colaboraram ou autorizaram o livro. Meghan e Harry podem ter iniciado um combate sem ter trabalhado na estratégia como deveriam e a marca dos dois, de alguma forma, não vai superar a mancha da qual tanto se ressentem. Uma mancha, que preciso dizer aqui, que é menos do que uma gota diante do que eles fazem e conseguiram até o momento. Mas é algo que os magoa, por isso não deixaram passar. É uma forma de se posicionarem e o resultado dessa briga pode determinar como as celebridades se adaptarão e comportarão daqui para a frente. 

Privacidade, em tempos atuais, é praticamente apenas aquilo que pensamos e escolhemos não dividir. Por isso, “controlar a narrativa” faz parte, aparentemente, do “controle de privacidade”. Mas há um potencial cinzento e complicado em ligar os dois conceitos. Em tese, o que é pessoal e privado não teria uma narrativa pública, mesmo que relativa, como posts no Instagram ou Facebook, por exemplo. Por outro lado, o que dividimos com amigos, faz parte da nossa escolha, com nossas palavras, nossas fotos, nossa versão. A questão é que podemos sempre errar ou sermos mal-interpretados. No caso de pessoas públicas, como Meghan, o que é postado como público jamais poderá ser defendido como privado. Uma entrevista de uma amiga a uma revista, mesmo que para ajudar, pode colaborar para atrapalhar o campo cinzento. Um livro? Mais ainda.  Por isso agora que a Justiça inglesa permitiu que os autores do livro façam parte do processo, eles terão que responder em juramento (o que anula qualquer contrato de privacidade), a verdade se Meghan e Harry de fato colaboraram “com a narrativa”. Lembrando que os dois disseram que não fizeram, assim como Diana, que depois admitiu o contrário.

O processo de Meghan Markle contra os tabloides britânicos ainda vai render, paradoxalmente, para alimentar justamente o que ela e Harry buscam terminar. O que não faz da iniciativa algo errado. Ao contrário, pode determinar novas políticas e estratégias daqui para a frente. Por conta da briga com a Família Real pelo uso da marca Royal Sussex, Meghan e Harry foram forçados a deixar o cenário cibernético em um momento delicado. Certamente sentiram a falta do controle do microfone, mas eles foram abençoados por uma presença selecionada, em eventos que estão alinhados com o que querem discutir, não mais sendo fonte direta de informação pessoal. 

A liberdade que conseguiram encontrar, com dores e incertezas, provam que Meghan e Harry têm foco claro de alcançar uma posição relevante em um mundo cheio de vozes. Mais um capítulo para uma biografia que começou em 2020.  

*Publicado originalmente em 1/10/20

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