As mulheres que defendem criminosos sexuais

Quando Harvey Weinstein foi preso como um dos maiores predadores sexuais de Hollywood, quem o defendeu na Justiça foi uma mulher. Donna Rotunno já tinha a experiência de defender homens acusados de abusos sexuais e representou mais de 40 casos relacionados a crimes sexuais. De todos, incluindo Weinstein, perdeu apenas dois.

Agressiva, Donna se diz ser feminista, mas que se opõe ao movimento do #metoo. No caso de seu cliente mais recente, ela argumentou quem nem todas as acusadoras eram vítimas. Pior, sustentou a tese de que elas se aproximaram do produtor não apenas cientes do que aconteceria entre eles, mas também querendo tirar vantagem pessoal da ligação.

Polêmica, Donna levou muitas das acusadoras às lágrimas durante os interrogatórios. “Não me orgulho de ter que colocar as pessoas em circunstâncias difíceis”, ela comentou depois. “Mas não faz parte do meu trabalho. Meu trabalho é o de fazer as perguntas, sempre há mais de um lado das histórias”, acrescentou. Para Donna, o #metoo proporcionou uma brecha perigosa para o feminismo. “Nós criamos uma sociedade de famosas por vitimização, onde as mulheres não admitem a responsabilidade sobre suas ações”, defende ela.

Jeffrey Epstein foi outro empresário cujos “hábitos” conhecidos e aceitos pela sociedade, viu sua vida ruir quando o #metoo mudou o jogo. Ele já tinha driblado a Justiça americana por vários anos, inclusive classificando as vítimas de seus abusos como “prostitutas”, jamais oficializando que todas eram menores de idade. Ao classificá-las como coniventes, ele conseguiu por muitos anos, assim como Weinstein, manter a base do argumento de que o que fazia era consensual. Ao perceber que o cenário seria outro, Epstein oficialmente tirou sua própria vida dentro da prisão para escapar da certa derrota.

Harvey Weinstein, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell em uma festa, nos anos 2000s

Após a morte de Epstein, a pressão para que sua “melhor amiga”, apontada pelas sobreviventes como a principal articuladora do esquema de tráfico e abuso sexual de menores, Ghislaine Maxwell, fosse localizada e julgada também. A questão não era apenas sobre os homens abusadores, mas todas as pessoas envolvidas no esquema.

Ghislaine ficou desaparecida por quase um ano depois que Epstein foi preso (e encontrado morto). Uma operação do FBI a localizou em uma mansão isolada, em um estado perto de Nova York. A socialite argumenta total inocência de todo esquema, porém os testemunhos de mais de 10 sobreviventes a colocam em uma posição de difícil defesa.

Entra então a super advogada Bobbi Sternheim, anunciada essa semana como a chefe da defesa de Ghislaine. Bobbi ressalta em sua biografia, que tem “top secret/ SCI clearance“, o que a permite defender pessoas passíveis de extradição internacional. Ela também lista que esteve envolvida com processos de “crime organizado”, “conspirações de extorsão”, “terrorismo internacional”, “fraude”, “assassinato” e “mídia pornográfica”, entre outros crimes. Uma lista impressionante que ela faz questão de incluir ter conseguido reverter penas de morte em casos federais.

Entre os clientes de Bobbi estiveram Imelda Marcos e mais de um terrorista ligado a Al-Qaeda. Entre eles, Minh Quang Pham, que participou de um atentado no Aeroporto de Londres e o principal articulador de Osama Bin Laden, Khalid al-Fawwaz, que matou 224 pessoas em um atentado an África, em 1998.

O fato de defender Ghislaine reforça o quanto a socialite está investindo em tentar recuperar sua liberdade. A acusação contra Ghislaine tem alterado o inicial argumento de conivente para principal articuladora da rede criminosa, incluindo abusos sexuais contra menores feitos pela própria Ghislaine. Uma sobrevivente alega que foi violentada pela empresária antes que Epstein se juntasse a elas e seguisse com os abusos. “Foi a experiência mais traumática da minha vida e eu sei que ela era o monstro, ela estava por trás de tudo aquilo”, relatou a sobrevivente. “Quando eles acabaram, quando finalmente terminou, eu saí daquele quarto uma pessoa diferente do que quando entrei, estava em choque”, lembrou ela.

O julgamento de Ghislaine Maxwell está marcado para julho de 2021.

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