A polêmica de um clássico

Depois de ter alcançado um retumbante sucesso com A Bela Adormecida, o compositor Piotr Illytch Tchaikovsky não ficou satisfeito com o próprio trabalho com O Quebra-Nozes. O ballet, mais uma vez encomendado pelo coreógrafo Marius Petipa, era uma produção natalina que amenizou os tons mais obscuros do conto original de e E.T.A. Hoffmann (de 1816), O Quebra-Nozes e o Rei dos Ratos.

No entanto, ao apresentar trechos da música em um concerto (a versão suite) o público e os críticos aprovaram, dando maior confiança ao exigente músico. O Quebra-Nozes traz algumas das melodias mais famosas de Tchaikovsky, e é desde os anos 1960s, quando retomou popularidade, uma das trilhas obrigatórias de Natal.

A versão de 1892

Mas a polêmica mesmo não é em torno da música, mas sim de quem efetivamente assinou a coreografia do ballet, que estreou no dia 18 de dezembro de 1892. Marius Petipa ou seu assistente e sucessor, Lev Inavov? Os dois levam crédito, mas reza a lenda que Petipa contribuiu pouco ou mesmo nada com a obra.

Assim como fez em A Bela Adormecida, Petipa encomendou a música para Tchaikosvky apenas sem a melodia. Sua orientação era tão detalhada que definia para cada peça o tempo e compasso que queria. Porém, assim que começou a trabalhar, em agosto de 1892, Petipa ficou doente e precisou se afastar. Ivanov, seu assistente há sete anos, tomou a frente da criação.

Pelo visto os bastidores foram confusos porque a primeira versão do ballet não foi unânime como os trabalhos anteriores. A primeira apresentação ficou longe do sucesso. Alguns críticos elogiaram detalhes, outros, detestaram. A inovação de colocar crianças dançando no papel de crianças (uma tradição mantida desde então) não ganhou apoio. A cena da batalha foi considerada confusa e amadora, o roteiro que omitiu partes da história original foi também alvo de reclamações, assim como a transição do mundo real para o mágico foi descrita como “abrupta”. Para piorar, a principal bailarina – que faz a Fada – não dança até praticamente o final do ballet. Nem a música, em geral aprovada, despertou muitos elogios.

Não é surpresa então que O Quebra-Nozes tenha ficado “esquecido” até Alexander Gorsky fazer uma primeira revisão, em 1919. Nela, o pas-de-deux da Fada foi “dado” para Clara e o Quebra-Nozes, tirando as crianças da montagem. Essa alteração foi copiada em várias produções até o dia de hoje.

Em 1934, O Quebra-Nozes foi montado pela primeira vez na Inglaterra, se inspirando na coreografia de Petipa e Ivanov. Dez anos depois chegava aos Estados Unidos e logo se tornou uma produção “obrigatória” natalina.

Para muitos no ocidente, a versão “definitiva” é a de Georges Balanchine, montada pela primeira vez em 1954. Maria Tallchief era a fada e Tanaquil LeClercq ganhou um solo espetacular na Valsa das Flores. A versão de Balanchine já foi filmada (mais de uma vez) e reflete a visão do coreógrafo dos natais de sua infância. É emocionante.

As montagens de O Quebra-Nozes representam pelo menos 40% do arrecadamento anual de todas as companhias, assim como o ganha-pão de muitos bailarinos que dançam como convidados em escolas e outros grupos de dança. A pandemia em 2020 impactou duramente esse cenário, mas há produções que podem ser conferidas online. E, pelo menos, a versão de 1993 do New York City Ballet também está na Netflix. A tradição e a corrente não serão quebradas.

Um trecho da produção de Balanchine para relembrar.

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