O podcast de Meghan Markle

Quem acompanha o drama da Família Real e a briga dos príncipes sobre suas visões de vida e relacionamento, sabe que qualquer suspiro do lado de Meghan Markle ou Príncipe Harry tem uma repercussão astronômica. Embora se queixem, eles usam os algoritmos que geram a seu favor. Estão surfando na onda como poucos.

O parágrafo anterior tem várias leituras. Se quiser ver como crítica, sim, há. Mas também há um elogio. O brilhantismo com que planejam e executam suas vidas e projetos, mesmo diante de tantas adversidades, é digno de estudo e aplauso. Há uma grande torcida do contra e alguns acham que uma excessiva patota a favor, mas não importa os lados, são vencedores.

Pela tranquilidade e profissionalismo em que toda e qualquer aparição de Meghan e Harry, soa estranho que muito de seus discursos ainda sejam reclamações de como foram tratados nos poucos anos que estavam trabalhando como realeza. Toda hora justificando o que deveria ser simples: as regras da Família Real eram restritivas para o que queriam alcançar e saíram para serem felizes. Essas mesmas regras seguem criando conflitos pessoais para o casal poder voltar a visitar o Reino Unido em segurança, mas estão sendo endereçadas. A questão é: são criticados quando falam ou quando não falam, com um mundo de pseudo detetives tentando ler nas entrelinhas. De novo, deveria ser mais simples.

O acordo do casal com a Spotify gerou um único programa em 2020 muito fraco, cheio de famosos, mas nada essencialmente relevante para atrair audiência. Como profissional que é, Meghan levou um tempo, mas desenvolveu um projeto interessante, solo, que estreou essa semana: Archetypes (Arquétipos). Agora sim, tem um conteúdo que se porpõe a gerar reflexão e notícia. Sim, ninguém produz um programa para não atrair ouvintes!

Com um editorial voltado para a causa feminista, Meghan Markle terá 12 episódios para discutir temas variados. Serena Williams foi a primeira, falando de ambição e preconceitos e Mariah Carey será a segunda. As alfinetadas veladas ou diretas que a Duquesa de Sussex proferiu no episódio, (sim, há várias) não chegam a ser novidades, mas, sim, como ela mesma diz, são ditas pela primeira vez sem censura e diretamente na sua voz. Meghan foi cuidadosa, mas deu seu recado.

E qual é o recado? Justamente o de que não concorda com a política interna da instituição da monarquia e que precisou sair. Basicamente essa é a questào. Ela tentou se ajustar, tentou adaptar, mas foi repelida com insensibilidade e preconceito. Não se submeteu. Foi embora e provou que o que queria fazer estava alinado com a atualidade, problema é de quem não percebeu.

Sim, o quase incêndio do quarto onde seu filho ia ficar era um fato que preocuparia qualquer um. Seguir com a agenda de compromissos que não puderam ser cancelados foi duro, mas não é distante da realidade de todas mulheres e homens todos os dias. Aqui está o problema do julgamento – e isso não é apenas de Harry e Meghan – onde traçar o equilíbrio de responsabilidade e saúde mental?

A bandeira de mudar a postura de engolir e seguir em frente é positiva. Cada um sente a pressão de forma diferente e a robotização do profissionalismo onde as angústias pessoais ficavam de fora é opressora. No entanto, ainda há discrepâncias entre sentimentos e praticidade. Responsabilidade é ainda o palavrão que segue como o enigma de todas as questões. No podcast Archetypes, Meghan se propõe a levantar os temas que demandam reflexão, mas não apresenta alternativas. O exemplo do quase incêndio reforça sua frustração naquela posição, uma que ela abandonou para recomeçar do zero em outras condições. Quantos de nós podem fazer a mesma coisa? Meghan e harry acham que todos, mas o buraco é mais embaixo.

Archetypes e o programa de Harry na Apple TV Plus, The Me You Don’t See, caem na mesma armadilha de vários outros. Ressaltam os problemas e sentimentos, que merecem validação, mas não encontram modelos plausíveis para solucionar o drama moderno. O que resulta? A impressão de que estão entre os famosos desconectados com a realidade de mais da metade do planeta. A Revolução Francesa tem o mito de que Maria Antonieta teria feito uma sugestão de dar brioches para os famintos. Os pobres ouviram como desdém dela pela dor deles, mas possivelmente ela só sabia essa sugestão dentro da bolha em que vivia.

Os sentimentos dos ricos e famosos são os mesmos, não negamos, mas têm alternativas completamente diferentes. Ainda falam de um lugar de privilégio que é difícil não reagir. Voltando ao Archetypes, de onde estamos, parecia que Meghan já estava com problemas com a Família Real de qualquer forma e que simplesmente poderia ter batido o pé para ficar com o filho. Não haveria “demissão”. Bronca? Gente falando mal? Claro, mas nem sendo comprometida conseguiu evitar isso. A diferença para nós é que se você tem um salário e horário a cumprir em uma empresa, efetivamente não há alternativas de faltar, embora um quase incêndio em casa claramente configure em uma falta justificada.

Juro que estou querendo evitar falar mal do casal, não são os únicos com a postura condescendente que elogia iniciativas, mas pouco contribui para mudança. A intenção do casal está no lugar certo de tentar gerar e mostrar compaixão, mas não é dentro um cenário milionário que vai alterar a realidade. É tentado falar com pessoas “normais”. Senão Archetypes vai perder seu objetivo e o que as pessoas vão querer ouvir é a fofoca, não a mensagem.

Dito tudo isso, a produção é impecável, o ritmo é gostoso e a dicção de Meghan perfeita. Se não quiser levar em consideração que é mais um podcast sobre como nos sentimos, é uma delícia.

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