Harry & Meghan: V de verdades? Não, de vingança

Depois de três anos como “setorista” de Família Real para CLAUDIA, não consigo me afastar da história de Meghan Markle e Príncipe Harry. Ela é, de fato, o tema mais relevante, portanto, para fazer os artigos, sempre interajo com o “Sussex Squad”, um grupo de ferrenha defesa online do casal, assim como acompanho matérias pró e contra eles. A meta é encontrar onde está a Verdade, aquela com o V maiúsculo e que não tem dono. Em tempos de “controle de narrativas”, “minhas verdades” e pura propaganda, é uma missão exaustiva. Você anda, anda e anda e não sai do mesmo lugar.

O documentário Harry e Meghan, da Netflix, se propõe a ser o definitivo porque é o material que o casal compartilhou dos anos de convivência com a Instituição. Ter acesso a esse material é fascinante. Mais ainda, é efetivo. Eles ganham simpatia e passam a mensagem que interessa e é um pouco sobre isso que quero refletir, mais do que apontar detalhe a detalhe do disse-me-disse que virou o reality show/novela e click bait dos dias atuais.

Harry e Meghan é um LINDO documentário, feito para emocionar e encantar os românticos. Há a inocência dos primeiros dias de relacionamento, as lágrimas da pressão da vida monárquica e uma vida de privilégio material inegável. Há sim também a questão do racismo e machismo, ambos estruturais e complexos de reverter. É inegável que Meghan foi vilanizada e exposta a opiniões das mais cruéis do planeta. Porém há também uma inquestionável verdade incômoda: o casal é mesmo narcisista e vitimista. É sobre eles, apenas eles.

A luta contra o racismo estrutural é gigantesca e complexa. Ainda mais quando demanda lidar com pessoas cuja visão é arraigada em um preconceito milenar. Ao passar a mão na cabeça dos avós, que criaram e mantiveram o sistema que estava sufocando os dois, Harry dificultou ainda mais sua batalha. Ele reconhece que seu pai e irmão defendem é a Instituição, mas desde que ela fique dentro das regras estabelecidas por Elizabeth II. Nela, calar e seguir em frente é a única alternativa aplicável, justamente o que estava destruindo Meghan. Portanto, como ele também reconhece, não haverá pedido de desculpas ou mudanças de comportamento. E ao ressaltar a toxicidade disso tudo, cria uma sinuca.

Para Meghan, recuperar sua credibilidade passou a ser ainda mais importante. Difícil discordar quando o grau de agressividade contra ela chegou ao que vemos hoje. Mas nada é perfeito.

Embora por questões judiciais tenham sido cuidadosos de evitar citar exemplos nomeando as pessoas, Meghan e Harry deixam claro que na narrativa deles há três oponentes: Rei Charles, que vazou deliberadamente informações confidenciais, Kate Middleton, que teve inveja, foi fria e não teve sororidade com Meghan e Príncipe William, que perdeu a paciência e traiu Harry escolhendo acreditar em terceiros e não no irmão. Em outras palavras, são vilões de novela das 21h. A partir daí, o documentário tem tudo, menos isenção. Documentário sem dois lados se chama release.

Fora as acusações/insinuações contra Kate, que não fala e jamais falará sobre o assunto, não é que não possamos acreditar no casal, afinal mostram fatos, mas a motivação é que não é convincente. Igualmente não ajuda que Meghan tenha sido usada para abafar o escândalo do padrinho e tio de Harry, Príncipe Andrew, mas essa questão jamais é endereçada. Jamais. O mundo ficou chocado com o envolvimento do príncipe com um pedófilo condenado pela justiça e nenhuma menção ao fato é feita. Para quem não gosta de Meghan e Harry é uma prova do narcisismo dos dois, ou, talvez, o comprometimento dele de não ofender suas primas queridas. Cada um escolhe em quem quer bater entre os Windsors. Ou eles acreditam em Andrew ou não acham que exploração e abuso sexual de menores tenha relevância na narrativa deles.

Não, em seis episódios os problemas são sobre Kate, Kate, Kate, Charles, William, Kate, Charles e William. Aliás, apesar de pegarem bem pesado com o futuro Rei do Reino Unido – mais do que as palavras, as imagens negativas cuidadosamente selecionadas para realçar que ele e a esposa são os antagonistas – chega a ser infantil. É 100% manipulador e até mesquinho, mesmo excluindo da narrativa as fofocas sobre puladas de cerca inclusive.

A acusação de assédio moral, liderada pelo Secretário de Imprensa de Kate e William, é o coração do conflito dos casais e simplesmente tratada como “mentira”, sem aprofundar. Obviamente há mais sobre o assunto do que isso. Jason Knauf foi brevemente o assessor dos quatro. Se Meghan e Harry legalmente não podem falar de William, por isso questionam seu papel em tudo, tampouco explicam como a relação dos dois com o assessor americano azedou. Ele é o articulador assumido contra Meghan dentro da instituição, obviamente sua opinião pesou para Kate e William (e vice-versa), mas, em seis episódios, não entendemos a relação.

Senti falta de entender o que houve, como tantos funcionários pediram demissão e isso não é explicado. Embora pareça que fique em casa invejando a popularidade do irmão caçula, William, diferentemente de Harry, tem um papel de extrema importância na monarquia britânica, mesmo que seja conveniente e possível delegar o trabalho sujo a alguém, não parece plausível que seja o que ele faça o tempo todo. O que resta a concluir é que Kate não cruzou com Meghan desde o primeiro encontro e que William, parte integral do sistema que terá que liderar em alguns anos, escolheu fazer como a avó fez antes dele: priorizar a Coroa. Aplaudimos Elizabeth II por isso, como condenar seus herdeiros por seguir o exemplo? Incongruente esperar outra coisa.

Onde eu acho que Meghan e Harry derrapam em sua versão dos fatos? Na forçada de mão de trazer Diana para cada vírgula de uma história que ela não gostaria de ter testemunhado ou nem mesmo provocado (a separação de seus filhos) e o fato de que eles são sempre vítimas passivas.

Harry e Meghan tentaram muito se encontrar, mas não se encaixar. Isso é uma linda história, mas ela não é contada assim. O documentário é uma versão da verdade, mas, acima de tudo, é uma vingança. Alcançada e anunciada. Interessante será vê-los seguindo a vida sem voltar a falar no assunto. Não parece provável.

2 comentários Adicione o seu

  1. Andressa Flores disse:

    Meghan morre de inveja da Kate. Quer destruí_lá de qualquer maneira, a acha inferior e não suporta estar atrás da mesma. Narcisista demais.

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