Love and Death: uma versão anestesiada de um crime violento

Quando foi anunciado que haveria duas versões para a história de Candy Montgomery, que já havia sido contada no passado, nós todos ficamos sem entender bem a razão. Não havia uma nova revelação, não era “data redonda” do caso e a única coisa que trazia “novidade” seria comparar as atuações entre Elizabeth Olsen (HBO) e Jessica Biel (Hulu/Starplus). Agora que já vimos as duas versões, continuamos sem entender.

Candy, com Jessica Biel, saiu na frente. A reconstituição de época foi apurada, com atores assustadoramente parecidos com as pessoas reais. A versão da Starplus segue o ceticismo das pessoas que suspeitam que não houve nada impulsivo no assassinato de Betty Gore. A dona-de-casa foi morta com 41 machadadas por Candy, mas o argumento da defesa foi de que foi um ato de auto-defesa, depois que Betty teria ameaçado Candy primeiro. O gatilho para a violência assustadora do crime teria sido um “shh” que despertou um trauma reprimido de infância, levando Candy a atacar quando conseguiu tirar a arma de Betty. Sua reação, de tomar um banho na casa antes de sair para limpar o sangue e seguir o dia sem chamar a polícia ou confessar o embate para ninguém, oficialmente por medo, foi sugerido como uma possibilidade de premeditação. Jessica teve uma ótima atuação.

Love and Death já estava em produção quando Candy foi lançada e só chegou à plataforma da HBO quase um ano depois. O elenco todo não tem similaridade física com as atuais pessoas da história e o que pesadamente marcava o período dos anos 1970s e 1980s, quando a história aconteceu, era a trilha sonora. Com a história “presa” ao que aconteceu, a ‘novidade’ foi dar à narrativa uma versão simpática de Candy, algo fácil para Elizabeth Olsen.

Na vida real, Betty era de fato tida como antipática e Candy era a pessoa popular, daí a grande surpresa do crime tão brutal. A série da HBO relata isso melhor do que Candy, que julgou a personagem sempre a colocando como dúbia. Em Love and Death, Candy era prática porque era treinada para ser a perfeita, a aplicada e foi justamente a frustração desse vazio que a impeliu à um caso extraconjugal e, eventualmente, ao assassinato de Betty, a esposa de Alan, amante de Candy.

A armadilha de inovar essa narrativa, seguindo a versão que convenceu ao Júri em 1980, a série pareceu anestesiada como Candy no julgamento. A justificativa oferecida por Candy por ter tido um surto violento quando se viu ameaçada não explica suas ações após o crime, muito menos sua visão de que “não matou Betty”. O brilhantismo estava mesmo na forma que sua Defesa conseguiu emplacar uma narrativa tão improvável. Mas nada disso está na série da HBO. Ficou parecendo uma falta de energia, de inspiração e de querer apenas chegar logo ao fim de uma produção que ressentiu ter sido furada pela concorrência.

Uma pena. O resultado foi deixar clara a intenção de surfar na onda de true crimes. O elenco e a plataforma sabem entregar melhor. Entretem, só não nos impressiona.


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