Depois de três anos em obras e uma renovação estimada em de 35,5 milhões de libras esterlinas, a National Portrait Gallery volta a abrir suas portas no dia 22 de junho e uma das exposições mais esperadas e de maior destaque é justamente a de Madame Yevonde, o nome artístico de Yevonde Middleton, uma das fotógrafas pioneiras no uso de cores em retratos. Yevonde: Life and Colour vai trazer alguns dos registros mais famosos das lentes da artista.
A contribuição da artista britânica para a Arte fotográfica é inegável. Ela tinha como lema de vida um princípio básico de “Seja original ou morra, assim como amava intensidade. “Se vamos ter fotografias coloridas, pelo amor de Deus, vamos fazer uma profusão de cores, nenhum de seus efeitos coloridos à mão insossos ‘, disse em um discurso para a Royal Photographic Society, em 1932. Suas fotos são mesmo um festival de cores, sendo que o acervo de mais de 2 mil imagens que compõem o acervo do museu NPG (adquiridos em 2021) é uma grande oportunidade de acessar um trabalho pioneiro, iniciado nos anos 1920s. O que é mais incrível, além das fotos marcantes, é que com a conservação, a pesquisa e a digitalização dos negativos foi possível redescobrir o processo criativo de Yevonde, com imagens na maior parte ainda inéditas e que estarão na exposição. A mostra faz parte do Reframing Narratives: Women in Portraiture, que tem como objetivo crescer a presença da contribuição feminina na coleção da National Portrait Gallery.

Quem lê MiscelAna sabe que tenho uma paixão especial por fotografias, e não disperdiço a oportunidade de conversar com os profissionais (nesse caso, impossível pois Yevonde morreu em 1975) e ajudar a divulgar desses artistas como posso.
Yevonde Philone (Clumbers) Middleton, nascida há 130 anos, passou a infância em um universo privilegiado e com acesso constante a uma movimentada agenda social. De natureza inquieta típica das pessoas que mudam o mundo, aos 16 anos descobriu o Movimento Sufragista, que mudou sua vida. Se dedicou a ele, porque já sabia que ‘ser independente era a melhor coisa na vida’, ficando determinada a ter independência financeira e profissional, algo impensável para qualquer mulher no início do século 20. Foi com essa meta que, com apenas 17 anos, Yevonde encontrou um trabalho como assistente em um dos principais estúdios fotográficos de Londres. Não que quisesse apenas ajudar, queria ser fotógrafa, mas precisava começar em algum lugar. E, como ficaria claro, passaria a trabalhar para e com mulheres durante toda a sua carreira.
Bem nascida e engajada, assim que conseguiu uma chance, fez uma escolha no início de sua carreira que poderia sugerir que sua paixão pelo voto feminino era passageiro porque optou por abrir mão de trabalhar com a veterana sufragista Lena Connell para aprender fotografia com Lallie Charles, que fazia registros de pessoas importantes na sociedade. Como alguns biógrafos ressaltam, mesmo apoiando a sororidade, Yevonde tinha pouca paciência com suas clientes mulheres, em especial as que se sentiam pouco atraentes e pediam que seus retratos as tornassem bonitas. Foi com Lallie que Yevonde conviveu com clientes aristocráticos e sofisticados, em um universo de glamour, onde depois de três anos – percebendo que Lallie e sua visão eduardiana feminina submissa estava ultrapassada – passou a trabalhar sozinha. Aos 21 anos, com a oportunidade clara de um mercado de retratos demandando um olhar mais contemporâneo e com maior variedade de poses e planos de fundo, abriu o próprio negócio, claro, com apoio financeiro de sua família. Nascia ‘Madame Yevonde – fotógrafa de retratos’.


No início, as pessoas famosas que posavam não pagavam, mas logo Madame Yevonde começou a fazer seu nome, com fotos criativas e informais, publicadas em revistas como Tatler e The Sketch. Sua assinatura era fácil de identificar: olhares distantes e evitando a câmera, e adereços criativos aparecendo nas fotos claramente satíricas, brincando com as técnicas tradicionais de retratos e a representação das mulheres como passivas e elegantes. Além disso, seu trabalho claramente era abertamente longe da realidade, mas emocionante. Em menos de um ano já era conhecida o suficiente para mudar para um estúdio maior e trabalhar com encomendas de publicidade, se mantendo em demanda pelas principais personalidades da época.
Foi apenas no início dos anos 1930 que começou a experimentar com fotografia colorida que, na época, ainda estava muito longe da popularidade futura e era, em grande parte, rejeitada por artistas, público e críticos. Claro que o desafio só deixou a fotógrafa mais empolgada e já em 1932 tinha material suficiente para uma exposição de retratos na Albany Gallery, mesclando trabalhos em preto e branco e coloridos, sendo bem aceita pela iniciativa.
Sua câmera favorita era uma Vivex One-Shot e Yevonde passou a ser associada à pioneirismo, ousadia e glamour, com seus retratados criando imagens vibrantes, elegantes e sedutoras. Dos vários trabalhos icônicos da artista, alguns são lendários, como a série Goddesses, feita em 1935, com convidados vestidos como deuses e deusas romanos e gregos, que é considerada o ápice da criatividade de Yevonde. As séries baseadas nos signos do zodíaco e nos meses do ano, influencia por Man Ray, também são famosos.


Talvez as perdas pessoais tenham contribuído ao retorno ao preto e branco, em 1939, em especial quando ficou viúva do dramaturgo e jornalista, Edgar Middleton. O amor de Yevonde por ele era tanto que, apesar de prezar por sua autonomia, alguns biógrafos alegam que ela chegou a oferecer desistir de sua carreira por ele, mas ficou aliviada quando Edgar recusou a proposta. Ainda assim, ficou decepcionada quando apenas depois de casada ficou ciente que ele não queria filhos, a única razão pela qual ela via alguma utilidade na união. A morte prematura de Edgar e a Segunda Guerra Mundial representaram obstáculos reais para o espírito inovador da artista, que teve dificuldade de conseguir materiais suficientes para continuar trabalhando em cores e até demanda de retratos mais tradicionais alinhados com o ambiente pós-guerra.
Por quase 60 anos, ela jamais parou de trabalhar, ativa até duas semanas antes de sua morte, aos 83 anos, mesmo com menor demanda. Seu acervo foi deixando para seu assistente, com mais de 3.000 conjuntos de chapas de separação tricolor VIVEX originais de 1930 e mais do que o dobro de imagens em preto e branco em chapa e filme. Parte do qual agora está na National Portrait e os sortudos por Londres poderão conferir de perto!
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