A incrível história de Artemisia Gentileschi em nova biografia

Assim como a escritora Elizabeth Fremantle, aprecio profundamente a história de pessoas – em especial mulheres – fortes e que conseguiram se destacar em tempos ainda mais áridos que os atuais enfrentando o patriarcado. Dessa forma, sou leitura assídua de seus livros como a trilogia incrível sobre as mulheres Tudor. No entanto, aguardo com ansiedade seu olhar sobre a incrível história da pintora italiana Artemisia Gentileschi, perfeitamente entitulado como Desobediente e que será lançado no final de julho de 2023. Você conhece a trajetória e a importância dessa artista ímpar?

Artemisia é uma das principais pintoras do século 17, contemporânea de Caravaggio, Rubens e El Greco, embora por muitos anos tenha sido detalhes de sua vida pessoal que tenham ganhado destaque em sua narrativa. Chegaremos lá.

Sem exagero podemos afirmar que a pintura estava no DNA de Artemisia, como a primogênita do pintor Orazio Gentileschi, ela nasceu em Roma há 430 anos, em 8 de julho de 1593. Perdeu sua mãe quando tinha apenas 12 anos e por isso passou a cuidar de seus três irmãos e seu pai, ensaiando os primeiros passos na pintura ainda adolescente e sob orientação paterna. Foi através dele que teria conhecido um grande amigo dele, Caravaggio e a quem seus quadros por vezes é comparado.

Foi quando completou 18 anos que veio o grande trauma de sua vida quando seu tutor, Agostino Tassi, que trabalhava com com Orazio, a violentou. Imaginem se hoje estupro ainda é uma violência comum contra as mulheres que encontra barreiras machistas ainda intransponíveis, como era visto no século 17? Era tudo como uma “ofensa” à família da moça. Apavorada e traumatizada, Artemisia, demorou quase um ano para ter coragem de revelar o estupro, e há versões também de que primeiro ele sugeriu um casamento como alternativa de reparação, mas, como jamais cumpriu sua palavra, a jovem o denunciou. O que ficou “contra ela” foi justamente o tempo entre o fato e a denúncia, levando aos homens questionarem a versão dela. Ainda assim, Tassi foi levado a um longo julgamento que durou cerca de sete meses. 

Não fosse suficiente a agressão e a vergonha que sentia, Artemisia precisou contar sua história detalhadamente mais de uma vez e, quando encontrou ceticismo do lado da Justiça, foi submetida a sessões de tortura para que “falasse a verdade”. Foi chamada de prostituta e outras difamações, mas se manteve firme. Agostino Tassi foi condenado e teve duas opções: uma pena de cinco anos de prisão ou exílio perpétuo de Roma. Historiadores dizem que ele escolheu o exílio, claro, mas outros afirmam que a sentença jamais foi executada e ele nem saiu da capital nem foi para atrás das grades. Quem deixou Roma foi Artemisia, que ficou “mal falada” e precisou se mudar para Florença, ao se casar com o pintor Pierantonio Stiattesi para “aliviar” as fofocas. A união durou 10 anos.

Uma vez na capital mais rica da Arte daquele tempo, a artista rapidamente foi introduzida à corte dos Medici, grandes incentivadores e colecionadores da pintura italiana. Apenas lá, com quase 20 anos, foi alfabetizada e fez história ao tornar-se a primeira mulher a entrar para a Academia de Belas Artes de Florença, em 1616. Prestigiada e requisitada, seus quadros seguiam o estilo Barroco e ela ficou famosa. Havia um diferencial claro em seus quadros que era em parte reflexo de seu trauma pessoal: as mulheres em geral eram o centro da pintura, heroínas e protagonistas (que em alguns casos ela inseria seu próprio rosto), registrando cenas de abuso e violência. Em quadros as mulheres têm voz e em alguns casos, expressão de prazer e vingança quando se defendem dos homens,como o famoso Judite e Holofernes.

Embora tenha pintado até os 61 anos, a arte de Artemisia Gentileschi acabou perdendo destaque ao longo dos séculos e sua obra passou a ser considerada uma exceção em um ambiente predominado por homens. Tudo mudou no século 20, quando foi abraçada pelo movimento feminista e críticos e estudiosos reconheceram seu valor. Sua história já foi contada em documentários, filmes e livros e atualmente está sendo trabalhada como uma minissérie pela showrunner Vanessa Alexander, que assina roteiros em séries como Vikings: Valhalla e The Great. A base da série é a biografia escrita por Mary Garrard e promete dar um ar contemporâneo à história. Junto com o livro de Elizabeth Fremantle, finalmente a dor e a história de Artemisia Gentileschi serão escutadas como deviam, mais de quatro séculos depois.


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