A impossiblidade das missões de espionagem: da TV para o cinema

Se hoje Tom Cruise tem nas mãos uma das franquias mais lucrativas de todos os tempos no cinema, partindo para a sétima edição, muitos lembram que ele pegou carona em uma marca já popular e até icônica, a série de TV, Missão: Impossível. A série que ficou no ar de 1966 a 1973, voltando brevemente ao at em uma rápida tentativa de revival no final dos anos 1980s, com duas temporadas entre 1988 e 1989. Precisou um astro do calibre Cruise para transformá-la em lendária.

O período pós-guerra, onde a idelogia separada o planeta entre “comunistas” e “capitalistas”, a ameaça de uma Guerra Nuclear impactava todas as histórias e com isso, o gênero de espionagem ganhou fôlego. Na Inglaterra, James Bond foi direto para o cinema, virando febre cultural, mas na maior parte, a TV linear era a plataforma preferida. Nesse cenário, Bruce Geller levou para CBS sua proposta de acompanhar a aventura de espiões tão incríveis que eram de uma agência ainda mais secreta que a CIA, a FMI, ou a Força de Missões Impossíveis. Nela a equipe tinha a opção de recusar a proposta, sempre ultra arriscada e, se fosse pega, estariam sozinhos. Nunca recusaram um único desafio.

Em Missão: Impossível a pequena equipe e agentes secretos do governo usava de métodos sofisticados para enganar, manipular e alcançar seu objetivo, frequentemente sendo algo ligado a impedir governos hostis da Cortina de Ferro, ditadores ou bandidos de dominarem o mundo. Aos poucos os fãs se identificavam e adoravam cada um dos membros da FMI.

Na primeira temporada, Dan Briggs (Steven Hill) liderava a equipe, mas, já na segunda fase, entra o chefe mais famoso de todos, Jim Phelps (Peter Graves), que assume o comando pelas seis temporadas restantes e vira a grande estrela da série. Para cada missão eles podem contratar agentes independentes, que seriam mais adequados para o trabalho, mas tanto Briggs como Phelps geralmente chamam os mesmos especialistas, formando um time excepcional. Quase todos tinham alguma carreiras e fama fora da espionagem e o elenco contou astros como Martin Landau, que entrou para uma participação especial e acabou entrando para elenco fixo na segunda temporada.

Landau interpretava Rollin Hand, que mais tarde seria a semente para Tom Cruise transformar em Ethan Hunt: ele era o ator da equipe, especialista em disfarces e mais conhecido como “homem de um milhão de rostos”. Barney Collier, interpretado por Greg Morris, é a origem de Luther Stickwell (Ving Rhames), o gênio da eletrônica. Além deles também tinha Willy Armitage (Peter Lupus), um levantador de peso recordista mundial e a modelo e atriz Cinnamon Carter, interpretada por Barbara Bain (na época casada com Martin Landau) que rendeu à atriz nada menos do que três Emmys pelo papel.

Como muitos conteúdos dos anos 1970s, alimentando o mistério em geral, a identidade da agência que supervisiona a Impossible Missions Force (FMI) nunca é revelada, apenas sugerida como uma agência independente do governo americano, reforçado na clássica deixa de todo briefing que repete “Como sempre, se você ou qualquer membro de sua força de IM for capturado ou morto, o secretário negará qualquer conhecimento de seu ações“, algo que no filme Nação Secreta (Rogue Nation), o agente William Brandt (Jeremy Renner) também usa.

Algumas das ‘inovações’ da narrativa de Missão: Impossível fizeram da série algo extremamente moderno para sua época. No conceito de Bruce Geller, não era preciso e até mais interessante não acompanharmos as vidas pessoais de cada um, só precisávamos vê-los em atividade. Dessa forma, acreditaríamos mais nos trabalhos de espionagem. O tempo sempre era um elemento de suspense, criando a ansiedade pela impossibilidade aparente do que precisavam fazer. Além disso, para cada episódio poderiam formar equipes diferentes, justamente pela necessidade de compor diferentes habilidades, mesmo que na prática Dan Briggs e depois Jim Phelps, os únicos que trabalhavam em tempo integral para a agência, acabavam recorrendo ao mesmo grupo principal de três ou quatro agentes para cada missão. Dessa forma, quando o elenco foi sendo alterado, não havia grandes necessidades de explicações, além disso, estrelas convidadas faziam participações especiais como agentes específicos e o ‘uso das máscaras’ permitia o ‘desaparecimento’ dos principais por episódios completos sem grande explicação. Ao contrário, o momento em que se revelava que era Rollin Hand tirando a máscara de outro homem sempre o mais esperado pelos fãs.

O elenco ficou em boa parte do tempo o mesmo, sendo a saída de Briggs a mais surpreendente porque jamais foi explicada na série. Nos bastidores a substituição foi necessária pelos conflitos com o ator. Ele se recusava a fazer cenas de grande demanda física e prejudicava o cronograma das gravações porque como judeu ortodoxo, tinha que sair às sextas-feiras às 16h e estar em casa antes do pôr do sol, sem poder voltar a ficar disponível até depois do anoitecer do dia seguinte. Dessa forma, Dan Briggs foi aparecendo cada vez menos na primeira temporada e na segunda Força Especial já estava sob o comando de Jim Phelps.



Quando Martin Landau e Barbara Bain saíram depois da terceira temporada, foram substituídos por Leonard Nimoy e Lee Meriwether, depois por uma jovem Lesley Ann Warren. Pelo visto, o problema de machismo no universo de espionagem é de raiz. Mesmo com Barbara sendo a única a vencer os Emmys por três anos consecutivos, o elenco feminino nunca ganhou protagonismo. Nas duas últimas temporadas, Lynda Day George foi a representante feminina no time de espiões (substituída quando saiu de licença-maternidade Barbara Anderson) e Sam Elliott entrou como Dr. Doug Robert. Do elenco originalíssimo, apenas Greg Morris e Peter Lupus chegaram ao final. No final dos anos 1980s houve a tentativa de reviver a série, mas durou apenas duas temporadas.

Quando o cinema ‘recuperou’ a marca 30 anos depois da estreia na TV, em 1996, tanto Brian DePalma como Tom Cruise queriam se distanciar dos ‘problemas’ que séries de espionagem sofriam na época, com o fim da Guerra Fria parecia ter esgotado suas funções (James Bond passou pelo mesmo desafio) e os fãs tradicionalistas ficaram ofendidos de não reencontrar nenhum dos agentes clássicos do original, mas, ainda mais ofensivo foi o tratamento dado à Jim Phelps, transformado em vilão corrupto. O argumento de ter sido calculado para marcar que Missão: Impossível começada nova fase só piorou a reação, mas 27 anos depois, a popularidade de Ethan Hunt sombreia a de qualquer um da TV. Uma curiosidade, no primeiro filme temos uma rápida participação de Emilio Estevez e é curioso lembrar que seu pai, Martin Sheen, já tinha estrelado um dos episódios nos anos 1970s.

Espertamente Tom Cruise manteve alguns dos elementos mais famosos da série, a começar pelo tema de abertura composto por Lalo Schrifrin. O compasso incomum escolhido pelo compositor é lendário e, segundo explicou, se inspirou no código Morse para criar o ritmos, pelo qual merecidamente ganhou dois Grammy Awards: o de Melhor Tema Instrumental e de Melhor Trilha Sonora Original para um Filme ou Programa de TV. Outros elementos do original são o estilo de abertura de créditos, com o fósforo e o pavio acendendo um fusível mesclados com imagens do episódio que está para começar e – claro – como a missão é oferecida à equipe, por meios inusitados. de gravações que se “auto-destroem”. As frases que sempre estão em qualquer gravação “Bom dia/tarde/noite, Sr. Briggs/Phelps/Hunt” , seguida por “sua missão Dan/Jim/Ethan, caso decida aceitá-la” e a breve explicação do objetivo da missão, encerrando com “Como sempre, se você ou qualquer membro da sua Força IM for capturado ou morto, o Secretário negará qualquer conhecimento de suas ações”, sem esquecer do aviso que “Esta gravação se auto destruirá em cinco segundos. Boa sorte, Dan/Jim/Ethan.”

Uma nostalgia alimentada pelo sucesso do cinema, que em 2023 volta às telas com mais aventuras do nosso espião favorito, Ethan Hunt (Tom Cruise).


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