Em 1952, Daphne du Marier já era uma escritora mundialmente famosa por causa do estupendo sucesso de Rebecca, adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock uns 10 anos antes. Nessa época ela lançou um livro de contos – The Apple Tree – onde desenvolveu uma imagem que a impressionou muito (a de um fazendeiro sendo atacado por um bando de gaivotas enquanto arava um campo) em uma história de terror. Os Pássaros se no condado onde ela nasceu, na Cornualha, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial onde o medo do ataque (aéreo, sem controle) era real. Em sua história, um lavrador, sua família e comunidade estão sob ataque letal de bandos de pássaros sem uma explicação aparente.
Do outro lado do oceano, em Hollywood, Hitchcock leu o livro e apostou em repetir a fórmula de Rebecca, adaptando a história para o cinema em um filme que usou o conto dos pássaros como base, partindo para outra história completamente. Assim nascia um dos maiores clássicos do terror e do diretor, lançado há 60 anos, em 1963.

Hoje o filme Os Pássaros é mais um pano de fundo para outra história apavorante, a do relacionamento abusivo e criminoso do diretor com sua estrela, a atriz Tippi Hedren, mas mesmo sem sabermos dos horrores das gravações, é um filme tenso, claustrofóbico, apavorante e imitado desde então. A trama se concentra em uma série de ataques violentos repentinos e inexplicáveis de pássaros ao povo de Bodega Bay, Califórnia, ao longo de alguns dias. A socialite Melanie Daniels (Tippi Hedren) é pega no meio do ataque porque estava na cidade atrás do advogado Mitch Brenner (Rod Taylor), com quem acaba se envolvendo. Quando a cidade fica isolada, Mitch e Melanie tentam salvar a família dele e outros inocentes, até que ela mesma é alvo de um ataque dos pássaros.

A atuação ‘visceral’ de Tippi em sua estreia foi contextualizada anos depois, quando acusou o diretor de a ter atacado com pássaros verdadeiros, a assediado sexualmente e usar de puro sadismo para realizar a obra. O clássico ataque no sótão durou uma semana inteira de rodagem, com a atriz ferida e traumatizada (mas ainda assim fariam Marnie, anos depois).
Com nomes como Jessica Tandy, Suzanne Pleshette e Veronica Cartwright no elenco, Os Pássaros foi indicado ao Oscar por Melhores Efeitos Especiais. A narrativa inovadora do filme é tida como uma das mais inteligentes do cinema, com Alfred Hitchcock prolongando o suspense ao máximo ao não mostrar “nada” por mais da metade do filme. O medo fica cada vez maior com a expectativa do que vai acontecer, alternando comédia e romance enquanto constrói um ambiente claustrofóbico. Quando finalmente acontece o ataque, é apavorante, ainda mais porque, como ressaltam, não há monstros ou assassinos, é simplesmente a inversão do “normal” em “anormal” com uma revolta da natureza sem um fato específico para justificá-la. Filmado em cor, há sequências até hoje traumáticas (crianças sendo atacadas e feridas!) e como vemos os pássaros se juntando ao fundo da cena, na cara das vítimas desavisadas.
Os Pássaros estreou em 28 de março de 1963, em Nova York e exibido no Festival de Cinema de Cannes de 1963, com Hitchcock e Tippi na plateia. Nem todos gostaram, nem mesmo Daphne DuMarier. Mas, pelo nem ou pelo mal, é apontado como um dos mais significativos da longa e rica filmografia do diretor. Certamente nunca mais olhamos para qualquer passarinho da mesma maneira que antes. Não é?

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