Os pontos essenciais da discussão da greve em Hollywood

Dia 14 de julho de 2023. Atores e Roteiristas em Greve em Hollywood. O que significa?

Claro, nenhum projeto em andamento ou para começar, segue em frente, mas e o que já estava pronto?

Vai ao ar ou entra em cartaz, mas não terá entrevistas, tapetes vermelhos, posts em redes sociais, participação em premiações ou festivais de cinema. Zip. Nada. Blackout social enquanto a greve estiver em vigor.

Para Fran Drescher (nossa eterna The Nanny), presidente do Sindicato dos Atores, é o basta à ganância. E sim, aponta como antagonistas a dupla streaming e a inteligência artificial, que tornaram (para escritores e atores), o tradicional e secular modelo de negócio, irrelevante. Afinal, os contratos não foram atualizados para refletir os avanços tecnológicos.

“Se não nos levantarmos agora, todos estaremos em perigo. Não dá para mudar o modelo de negócio tanto quanto mudou e não esperar que o contrato mude também”, disse ela.

Do outro lado da mesa, representando os executivos e estúdios, a Alliance of Motion Picture and Television Producers argumenta que estão oferecendo termos históricos e aumentos significativos em uma proposta “inovadora” para proteger (os atores) do uso de Inteligência Artificial. “Lamentavelmente, o Sindicato escolheu um caminho que levará a dificuldades financeiras para incontáveis milhares de pessoas que dependem da indústria”, retrucam.

O histórico é irônico. Há pouco mais de 60 anos, as duas categorias se uniram para revisar termos e condições diante da “ameaça da televisão”. Naquele momento definiram as regras de divisão de resíduos para reprises e exibições de filmes, entre outros ganhos que estão presentes até hoje. A briga pode até parecer ser a mesma, mas é mais complexa do que ir contra duas frentes tecnológicas. O questionamento é sobre transparência (streaming se recusa a compartilhar dados de visualização para que seja a métrica para definir a divisão de royalties por bom desempenho, por exemplo), revisar os valores previstos em contrato com janelas que deixaram de existir ou são impactadas pelas plataformas digitais, e, acima de tudo, a possibilidade da IA substituir todos: atores, roteiristas, técnicos e quem sabe mais quem.

Portanto, quem como eu já está sentindo ‘ausência’ de novidades, deve se preparar para mais uma temporada de seca. Apenas algumas produções que conseguiram se manter funcionando porque tinham roteiros fechados estavam rodando e mesmo assim, apenas as que estão fora dos Estados Unidos seguem gravando, como House of the Dragon. O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder conseguiu fechar sua segunda temporada antes da greve, pode ser que seja lançada ainda no tempo previsto. Mas as gravações de Gladiador 2, mesmo em Marrocos, foram interrompidas por ter atores americanos sindicalizados no elenco.

Se do nosso lado estará vazio, os bolsos dos estúdios também sentirão reflexo da paralisação, afetando os resultados na segunda metade do ano. As demandas do grupo incluem: aumentos percentuais nos níveis de salário mínimo em 35 anos, “aumentos substanciais” nos limites de contribuição para pensões e planos de saúde e um aumento de 76% nos resíduos estrangeiros pagos por programas de streaming de grande orçamento, entre outros benefícios, assim como regras para limitar o uso de IA. Lembram do episódio Joan é Terrível de Black Mirror? No mundo real atores temem que suas imagens digitais sejam usadas sem sua permissão ou compensação adequada, como vimos na série da Netflix. Mas o que os estúdios alegam é que nesse momento pós-pandemia, onde ainda não tiveram lucro depois dos bilhões de dólares investidos, é muito cedo para falar em redistribuição. Disney, a NBCUniversal, Paramount Global e outros perderam centenas de milhões de dólares em streaming no último trimestre, demitindo milhares de funcionários, até porque mesmo que o consumo online tenha aumentado, esse movimento corroeu a receita de anúncios de televisão, que sustenta o negócio. Sem esquecer que as vendas de ingressos foram rebaixadas a zero na pandemia e estão sofrendo para subir, mesmo com a abertura dos cinemas.

Entre as principais demandas estão:

  • Reajuste dos salários para refletir o aumento da inflação,
  • Reajuste dos resíduos para equilibrar o novo cenário de redistribuição
  • O uso de “mini salas”, é a prática usar um pequeno núcleo de escritores fixos e contratar temporariamente outros para entregar o roteiro
  • Proteção e compensação para escritores, afetados pelo novo modelo de contratos de temporadas mais curtas,
  • Estabelecer taxas mínimas a serem aplicadas para roteiristas de programas de variedades de comédia feitos para novas mídias
  • Restringir o uso de trechos que não pagam aos escritores.
  • Atualizar termos de contrato dos atores também afetados pela redução de temporadas ee hiatos mais longos
  • Compensar de forma justa os atores pelo uso de suas semelhanças criadas pela IA
  • Garantir que a IA não possa ser usada para criar conteúdo não remunerado a partir do trabalho original de um escritor.
  • Impedir que os estúdios possam treinar a IA para criar novas performances a partir do trabalho existente de um ator.
  • Mudar o processo de testes autogravados. Durante a pandemia, em vez de participarem de uma entrevista pessoal, atores passaram a gravar trechos eles mesmos em casa e alguns investem em iluminação, cenário e figurino, por isso Sindicato teme que esteja surgindo um novo padrão que faça a categoria assumir os custos que de são responsabilidade dos estúdios

A última greve dos roteiristas, em 2007, durou 100 dias. Os atores pararam por três meses em 1980. O impasse que especialistas chamam de existencialista, é muito mais complexo. A história sendo escrita enquanto lemos e escrevemos. Viva a revolução!


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