É natural que com o avanço do tempo algumas obras percam força, sentido ou que passem a ser inclusive ‘erradas’, mas é lamentável que – sem contexto – sejam julgadas, apagadas ou re-escritas. Conteúdos com mulheres submissas e homens “macho”, dominantes e até agressivos, hoje são incômodos e inaceitáveis, mas mais do que isso, são irrelevantes. Eles naturalmente perdem apelo, não engajam com um público que não aceita mais comportamentos tóxicos. O que se “perde” com isso é o ponto que esbarra com a geração que vivia naquele momento, e é um questionamento delicado.
Há muito comento que parte das mudanças em Game of Thrones ficaram desafinadas por conta de ser uma história passada em tempos e sociedade patriarcal – ressaltando os maltratos e abusos femininos – mas que aos poucos, talvez para “falar com a nova geração” ou “medo do #metoo – inverteu o protagonismo de algumas personagens, interferindo no final polêmico. Até o universo Marvel passou um pouco por isso, faz parte desses anos de transição. Mas então temos o universo de Carrie Bradshaw em Sex and the City, uma série pioneira em mudar como as mulheres queriam ser vistas, mas que 25 anos depois, se vê ainda presa à julgamentos de uma cultura alterada. Todas as mudanças ficaram mais claras quando mudou o nome para And Just Like That, trazendo as personagens agora beirando os 60 anos e “perdidas” em um universo mais difícil do que o dos homens. Elas, que foram modernas e ousadas, hoje são conservadoras e ultrapassadas. Como assim?
Assim mesmo. Carrie e cia questionaram muitas das amarras sobre o julgamento feminino, mas se adaptavam a eles como podiam. Se na época Samantha Jones já era a mais ousada delas, frequentemente usada para o ‘alívio cômico’, hoje mais do que nunca percebe-se que ela era a modernidade e o oxigênio da franquia, jamais se submetendo ao que os homens ou mulheres esperavam dela. Sem Samantha, Miranda, Charlotte e Carrie ficaram mais expostas do que nunca.

Charlotte é meio que uma presa fácil. Ela era conservadora em tempos conservadores: queria casar e ter filhos, ser bonita, rica e… feliz. Bateu com a cabeça em vários relacionamentos, um casamento inclusive, mas achou o homem perfeito em Harry. Já sabíamos que entre quatro paredes ela era saudável e foi com certa surpresa que a vi uma mãe compreensível, dedicada mas maleável o suficiente para navegar com certa tranquilidade no universo dos millenials. Seus conflitos na série sempre pareceram superficiais, mas sua sinceridade a faz ser autêntica.
Miranda é um problema. Hipocrisia sempre foi sua principal característica, escondida em uma armadura fake de cinismo. Ela não avança no tempo, a humanidade que deram a ela quando se ‘apaixona’ por Steve e a vida doméstica de filho e Brooklyn era do tempo pré-milênio, mas um arco que a humanizava. Deixar tudo por uma mulher não é o problema – que os showrunners acharam ser – mas o fato de que ela resetou e voltou a ser a irritante hipócrita de sempre, tirando a esperança mesmo na ficção de que qualquer um pode evoluir. Para piorar, ela tem uma obsessão estranha com a felicidade de Carrie. Ela SEMPRE é contra qualquer relacionamento da amiga. Foi com Big, foi com Aidan, foi ok com Berger mas radicalmente contra Petrovsky, ao ponto de resgatar Big em vez de enconrajar a amiga a seguir a vida com outra pessoa. Atrapalhou o casamento de Carrie e Big, mas se ofendeu quando Carrie deu razão a Steve. Miranda é a chata de plantão, sempre foi e infelizmente, sempre será.
Carrie é chamada de narcisista tóxica por muitos anos e nós sempre gostamos dela mesmo assim porque era – ao nosso ver – o processo de amadurecimento que precisava passar. E quando achávamos que estavam reencontrando a narrativa, um questionamento a fez voltar para o início do tabuleiro. “Será que Big foi um grande erro?”, ela pergunta. Não. E sim.

Big sempre foi ‘um erro’, mas ele representa o ideal romântico errado que toda mulher comprou por milênios, o de que um homem tóxico e narcisista teria recuperação e se tornaria monogâmico e perfeito quando descobrisse que amava apenas você e ninguém mais. TODAS pensavam assim e acreditavam que poderiam mudar um homem. Aquele complexo de Cinderella, quando no desenho o príncipe cruza o salão de baile atrás dela e define que apenas quem couber no sapato de cristal será a sua eleita, no fundo invertendo a impossibilidade que ele vendia como se estivesse descartando todas em nome de Cinderella.
Samantha sempre avisou que esse mito era errado, mas como não querer conseguir ser aquela pessoa especial que consegue ser a eleita daquele que não ficava com ninguém? Carrie sofreu seis longas temporadas por Big, mas o conseguiu. Ele foi à Paris atrás dela (a pedido de Miranda) e ele efetivamente mudou de personalidade por ela. Tudo bem, ainda deu uma derrapada no primeiro filme – quando a deixou no altar – mas depois do arrependimento final (via e-mail), virou outro homem e morreu nos braços dela, 15 anos depois, redimido e até irreconhecível. Como dizer que ela ‘errou’ se conseguiu o que queria? A pergunta seria, “Miranda, sei que Big e eu fomos felizes, mas o modelo que sonhamos era mesmo o certo no dia de hoje?”. Tem menos efeito, né? Não dá para chamar Big de Grande Erro…
A motivação de apagar Big da narrativa parece ter eco nas acusações contra o ator Chris Noth na vida real, o que deixa a série ainda em piores lençóis. Chris Noth não é Big, parte disso está no coração dos processos por assédio sexual, inclusive. O ator não tem a ver com a personagem e agora, 25 anos depois, colocar 100% do problema nos ombros dele é errado. And Just Like That já tinha solucionado o problema com Big, não precisava enterrá-lo sem dignidade. Carrie agora dizer que nem o sexo com ele, que a vimos repetidamente dizer que era inigualável – foi como que faz hoje com Aidan, é baixaria. Dê a Big o que foi de Big. O problema de Carrie com Aidan é outro.

Carrie é o Mr. Big de Aidan. Em vez dela reconhecer isso e evoluir como pessoa, se isenta da questão, jogando no morto toda culpa de uma cultura tóxica. Não é saudável que 25 anos depois, tendo sido traído e humilhado duas vezes, Aidan ainda trate Carrie como o amor de sua vida. Não há nada que eles tenham vivido que sustente essa ideia, mesmo com ela ‘amadurecendo’. Quando assistia Sex and The City não via a dependência de Aidan, achava ele o cara mais bacana que tinha passado pela vida da personagem, mas lembro que fiquei muito irritada com ela quando, depois de jogá-lo fora, passa a querê-lo de volta do nada, insistindo e o atordoando incessantemente. O grito “you broke my heart” era um chamado de responsabilidade do qual Carrie, literalmente, sai correndo. Ela faz de tudo até conseguir reconquistá-lo, apenas para novamente jogá-lo fora quando ele compra o apartamento ao lado do dela para viverem juntos. Ela não deixou ele quebrar uma parede.
É fato de que Big não voltou imediatamente para vida de Carrie após Aidan ser descartado, mas imagina-se a reação dele quando leu que eles se casaram. Carrie e Big eram de fato perfeitos um para o outro, o erro está em quem quer reescrevê-los.
Aidan também é o Steve de Carrie. Falamos tanto da vitimização manipuladora de Steve na vida de Miranda, especialmente agora em And Just Like That. Steve determinou que Miranda é seu grande amor, e é, mesmo que tortuosamente. Quem confunde amor com dor, e muitos de nós o fazemos, cai nessa armadilha. Aidan seguiu com a vida, casou, teve três filhos, mas bastou um único e-mail para voltar no tempo e embarcar de cabeça um relacionamento com Carrie. Não sabemos quantas passaram no caminho, não é que reencontros sejam ruins ou impossíveis, mas ao questionar Big, não, ao afirmar que Big foi um grande erro, Carrie mais uma vez se isenta de responsabilidade e desrespeita um cara que mudou por ela, que morreu em seus braços e que ela chamou de amor. de sua vida por um quarto de século. Não, Carrie, não…


Dito tudo isso, claro que há espaço para Carrie se reinventar, rever sua aversão à família e à vida no interior, as duas coisas que a repeliram de Aidan há mais de 20 anos. Hoje ela é milionária, já viveu de tudo em Nova York e pode apreciar uma vida ‘mais lenta’. Claro que me identifico com isso! Ela fez desse desejo uma crise matrimonial com o próprio Big, mas juro, com mais de 30 anos em Manhattan, faz sentido ela querer estar com alguém que a conhece bem e viver outro cenário.
Carrie, o erro não está em você, no Big ou no Aidan. Todos erram, faz parte da evolução. O erro de And Just Like That está em querer agradar e responder a todos. Sim, queríamos cancelar Big e achamos que tudo que Carrie viveu em Sex and The City é inadmissível, mas é porque a vimos passar por isso que podemos ter essa conclusão e mudar.
Carrie não tem pelo que se desculpar, ela fez parte de um tempo e dentro daquele contexto, foi tão pioneira quanto possível. Ao alimentar a convicção de Aidan de que ele estava certo e ela errada, é tão manipulador como ela sempre foi com ele. Está convenientemente dizendo a ele o que ele precisa ouvir para jogar todas as fichas nela de novo. Teria sido mais bacana se tivesse sido mais maduro e respeitoso. Há 25 anos Carrie jamais teria sido feliz com Aidan. Desculpem, mas é mais uma vez uma mulher se desculpando ao patriarcado. Aidan não precisa de desculpas, ele queria uma Carrie que não fumasse, que não quisesse curtir Nova York… ele a queria mesmo ou queria domar a mulher impossível?
O reencontro de Carrie e Aidan é bonito, é nostálgico e trouxe And Just Like That pra mais perto do que s fãs queriam. Parem de se desculpar, se preocupar com algoritmos ou conquistar millenials. Carrie é importante para outra geração que está evoluindo e não, não quer mudá-la em nada. Apenas vê-la feliz.
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