O desafio de Manon Lescaut

No mundo do ballet você sonha com a trinca ‘ballerina”: Odette/Odile- Giselle – Aurora, para provar habilidade técnica, interpretação e carisma. Porém, tive o privilégio ter ter entrevistado algumas grandes bailarinas, brasileira e internacionais. Nove entre dez respondem sem pestanejar qual o papel que mais anseiam dançar como “Manon”. E faz sentido.

Manon, claro, é referente ao ballet Manon Lescaut, uma obra que vai completar 50 anos em 1974 e que é o supra sumo do que a dança clássica poderia ter sido, mas que não avançou. Um ballet ‘completo’, onde há uma história densa que demanda interpretação e uma coreografia complexa, que demanda domínio físico, é uma obra criada por Kenneth McMillan para o Royal Ballet, depois de Romeu e Julieta e antes de Mayerling, e é, pra quem já viu ao vivo, sublime.

Há uma maturidade técnica em Manon que faz do ballet um dos mais desafiadores do ballet no século 20, uma obra divina em todos os sentidos e com a rara oportunidade de desafiar homens e mulheres, principais e solistas em mesma medida. Embora Romeu e Julieta seja ainda mais popular, considero Manon a obra-prima de MacMillan.

A história de Manon Lescaut saiu do livro de Antoine-François Prévost, escrito em 1731, e já tinha inspirado uma ópera, com música de Giacomo Puccini, mas McMillan usou outras partituras do compositor Jules Massenet,. Com Antoinette Sibley e Anthony Dowell nos papéis principais, estreou em Londres em 1974. Desde então, tem feito parte do repertório de várias companhias ao redor do mundo.

O desejo de transportar a trágica história de Manon Lescaut para o Royal Ballet começou um ano antes e era um sonho antigo de Kenneth MacMillan. Afinal, já era o diretor artístico há três anos e queria muito queria criar uma obra grandiosa com papéis emocionantes para todo elenco. Ele presenteou Antoinette Sibley com uma cópia do livro, recomendando a leitura para o ano seguinte. Porém, como a cópia de Manon Lescaut estava em volume duplo com a novela Carmen, de Prosper Mérimée, a bailarina ficou confusa de qual das duas histórias o coreógrafo estaria falando e pediu a Anthony Dowell, seu partner, que a ajudasse a descobrir. Os ensaios começaram antes de terminar 1973, deixando espaço para que Antoinette a interpretasse de um jeito, mas que outra bailarina também tivesse a liberdade de encontrar “sua Manon”. A única coisa que via em comum era o desejo da personagem de escapar de sua origem pobre.

O romance escrito pelo abade Prévost faz parte de seu livro de memórias e foi considerado escandaloso, apreendido e condenado à queima, forçando ao autor publicar uma nova versão em 1753. A obra fez sucesso imediato.

Antoine-François Prévost tinha 34 anos e morava em Amsterdã, quando publicou o texto. Tinha casos com várias mulheres, apesar de ser sacerdote, incluindo a cortesã Hélène Eckhardt, o que faz muitos acreditarem que havia um lado autobiográfico. A cortesã seria uma junção de histórias de “mulheres de má vida ” e, em especial a de Marie-Anne Lescau, apelidada de Manon, que foi deportada para Île Dauphin, que no livro e no ballet passa para New Orleans.

Repetindo a dobradinha de Romeu e Julieta, McMillan trabalhou com os figurinos de Nicholas Georgiadi e criou uma série de pas de deux atléticos para a dupla principal, nessa história da cortesã que cai em desgraça. Fiel ao enredo do romance do século XVIII, o coreógrafo manteve a sensualidade da história, assim como as contradições da personagem, justamente que ainda faz de Manon um dos papéis mais cobiçados do repertório clássico. E um dos favoritos também.


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