Minha admiração por algumas das bailarinas que eram estrelas máximas quando ainda dançava é natural. Dentre elas tive o privilégio de ver duas vezes no palco a grande Natalia Bessmertnova, eternizada por filmes que fizeram jus ao significado de seu sobrenome: Imortal. Natalia foi a musa de seu marido e coreógrafo, Yuri Grigorovich, por isso estrelou algumas de suas maiores obras, incluindo Spartacus e Ivan, o Terrível. A vi dançando ambos ao vivo, no Rio e em Paris, tenho o privilégio. E no ano em que completam 15 anos de sua morte, faço uma breve homenagem.
Natalia Igorievna Bessmertnova nasceu em Moscou, em 19 de julho de 1941, no início da Segunda Guerra Mundial, portanto em tempos particularmente difíceis, marcando sua infância e trazendo desde cedo determinação e uma compaixão e empatia que marcaram sua personalidade. Filha de um médico, tinha uma condição social razoável dentro possível, começou seu treinamento de dança ainda muito criança, no Palácio dos Jovens Pioneiros de Moscou, antes de entrar para a escola Bolshoi em 1952.


Se formou com 20 anos, mas há relatos contraditórios sobre sua formação. Há a versão de que seu período de formação estavam longe de sugerir que um dia seria uma das maiores estrelas da companhia, com histórico de uma saúde era frágil, adoecendo e se machucando com frequência, além de ser identificada como lenta para assimilar os estudos. E há o fato de que em apenas nove anos se graduou como a primeira aluna a obter a nota mais alta possível: A-+.
Se juntar as duas, reforça a lenda de que a pequena Natasha só revelou o que estava escondido nela um ano antes da formatura, nas apresentações conhecidas como “concertos de formatura”, quando roubou o show tecnicamente e deixou os outros formandos ‘apagados’ em comparação. Uma vez ‘revelada’, a asensão foi meteórica. Em 1963, apenas dois anos depois de ingressar no corpo-de-baile do Bolshoi estreou no papel que seria sua assinatura, Giselle. Daí pra frente foi só sucesso.
Nos primeiros anos, treinada pessoalmente pela lendária Marina Semyonova, Natalia se concentrou no repertório clássico tradicional, brilhando como Odette/Odile em O Lago dos Cisnes, Raymonda, Aurora em A Bela Adormecida e Kitri em Dom Quixote. Dançava com frequência com Mikhail Lavrovsky e Yuri Vladimirov e conquistou o oeste quando o Bolshoi viajou para Europa e Estados Unidos.
A leveza de sua dança e a docilidade de sua pessoa ficavam claras em todos seus papéis, assim como seus longos braços, pernas e grande olhos pretos. Era um íma quando estava em cena. Mas também tinha uma elasticidade, uma elevação e uma força ímpares que sempre surpreendiam, transmitindo um amplo espectro de emoções, como atriz também.


Foi no Bolshoi que conheceu seu marido, Yuri Grigorovich, que já era um coreógrafo de destaque e viria a ser o diretor artístico da companhia. Não foi amor à primeira vista, pelo que parece. Dizem que quando o viu pela primeira vez, ela não o reconheceu, só achou que ele parecia estranho e engraçado. Foi sua melhor amiga, Nina Sorokina, quem explicou quem ele realmente era. Uma vez apaixonados, naturalmente, como sua musa, Natalia passou a estrelar as maiores produções pelas quais ficou associada eternamente. Grigorovich sabia destacar o que havia de melhor nela e criou os papés de Shirin em Legend of Love e Phrygia em Spartacus para ela.
Não deve ter sido fácil lidar com o ciúme nos bastidores ainda mais que foi ela que herdou os papéis de repertório da maior estrela da Rússia, Galina Ulanova, quando ela se aposentou. Nada enos do que Maria em Fonte de Bakhchisarai e Julieta em Romeu e Julieta, de Leonid Lavrovsky. Reza a lenda que a própria Natalia contava a história de como, pouco depois de se casar com Grigorovich, Maya Plisetskaya entrou em seu camarim e disse: “Não vai dar certo. Ele vai te deixar em um ano”. Os 40 anos de casamento povaram que era amor verdadeiro. Apenas a morte os separou. Seus amigos também a defendem das referências de estar à sombra da genialidade do marido quando a chamam apenas de musa. Na verdade, testemunhas dizem que ela o ajudou diretamente na criação dos passos, por isso é tão visível mesmo quando outras dançam que sua alma está no balé.
O sucesso de Natalia estava também em se manter nos papéis tradicionais, mantendo sua Giselle como um das maiores referências, sendo comparada fisicamente à duas lendas, Anna Pavlova e Olga Spessivtseva. Antes de deixar a União Sovética, Mikhail Baryshnikov, que era o Kirov, dançou como Albretch ao lado dela. Foi sua última apresentação com o Kirov (Mariinsky), em 30 de abril de 1974.


Para mim o melhor papel de Natalia, assim como balé de Grigorovich, é Ivan, o Terrível, de 1975, onde ela criou o papel da czarina Anastasia. A última colaboração de um balé original dos dois foi em 1982, onde interpretou Rita em The Golden Age. Ao seu lado estava o jovem Irek Mukhamedov, com quem a vi dançar Spartacus na primeira turnê do Bolshoi pela América do Sul nos anos 1980s.
Natalia se aposentou dos palcos em 1995 (quatro anos depois que a vi em Paris). Foi um período no qual muitos bailarinos ressentiam a (longa) gestão de Grigorovich e uma época onde os conflitos de bastidores ganharam os palcos da mídia. Natalia permaneceu em apoio ao marido, o acompanhando em outras companhias e se dedicando a treinar novos talentos. Ela faleceu em Moscou, em 19 de fevereiro de 2008, depois batalhar contra “uma longa doença” não revelada. Tinha 66 anos. Deixou um legado de interpretações icônicas e um exemplo de profissionalismo e companheirismo. Aqui, minha eterna admiração por ela.
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