Physical se despede com vitória solitária, mas importante na luta da saúde mental

Para quem acompanhou os três anos de Physical, pode ter estranhado como ela mudou em sua conclusão. Sheila (Rose Byrne) é uma anti-heroína complexa porque não apenas tentou suprimir a infelicidade de um casamento fracassado, como também escondia o trauma de abuso sexual e uma bulimia. Nós acompanhamos seu sofrimento e testemunhamos a dureza de seu raciocínio destrutivo, a conduzindo para vários esperais maníacos e até ocasionalmente criminosos. No entanto a jornada foi vitoriosa: Sheila termina seus dias saudável, ajudando os outros, milionária, mas sozinha. Agridoce, mas apressado.

Voltemos um pouco na terceira temporada. Quando deixamos Sheila na conclusão da segunda, ela pede a seu ex-amante, John Bree (Paul Sparks) que a ajude a “aniquilar” sua nova rival, Kelly Kilmartin (Zooey Deschanel). Porém, quando voltamos, ela está obcecada por Kelly, que agora é a voz negativa na sua cabeça, mas genuinamente tentando ser uma pessoa melhor e saudável. O salto foi plantando quando finalmente Sheila aceita o que Danny (Rory Scovel) praticamente impôs, que ela buscasse ajuda profissional para vencer seus distúrbios alimentares e psicológicos, o que a levou a um grupo de suporte que efetivamente plantou a semente da mudança em sua alma.

Ao longo da temporada final, o tema passou a ser a batalha para vencer os desafios da saúde mental e como é uma luta solitária, diária e desafiadora. Foi uma curva de 180º necessária porque inicialmente não parecia ter esperança para Sheila e era difícil se conectar com ela. Sheila era cruel, manipuladora e tão perdida que parecia ser impossível salvá-la. Como romântica, embora fosse extraconjugal, torcia pelo casal John e Sheila, mas a opção de deixar essas almas gêmeas separadas foi interessante e inteligente. Como religioso, John jamais se perdoaria se deixasse a família por Sheila, embora tenha se feito disponível até o limite. E Sheila, no caminho da cura, jamais criaria novos embaraços para o único homem que a entendeu e não a julgou. Infelizes mas encaixados na sociedade e no que é esperado deles, Physical reescreveu o “felizes para sempre” com tintas da cultura moderna.

A passagem e a conclusão de Kelly Killmartin nessa virada final me pareceu um tanto apressada. Fantasia e realidade nunca ficaram claras e ela entrou e saiu sem fazer diferença. Sheila não era a única narcisista da história, a obsessão de Greta (Diedre Friel) de não apebas ser a sócia e melhor amiga, mas sempre se opor a todos os homens na vida da protagonista ficou igualmente inconclusivo. Em vários momentos ela sinalizou sua paixão por Sheila e nem sempre essa relação era saudável, mas igualmente é realista que algum aspecto tóxico permaneça na vida dela. Greta ter aprendido seu valor e ter conquistado sucesso profissional, mantendo seu casamento, é uma boa mensagem também. Pena que para Sheila as opções tenham sido reduzidas.

Apesar do triângulo amoroso de Sheila, Dany e John se estender em três temporadas, e Sheila até ter encontrado brevemente outro namorado, ela precisou ‘abrir mão’ de sua vida amorosa para encontrar amor-próprio. Dany, o namorado de adolescência, imaturo, perdido e apaixonado por ela, não era o companheiro ideal nessa jornada. Sheila sempre foi o cérebro do casal, se colocou como sustentadora dos sonhos dele, mas, mesmo com seu apoio para crescer, tinham diferentes caminhos a seguir. Aqui está minha tristeza. Há casamentos que acabam, Dany amava Sheila, mas não era seu parceiro ideal. Ele reencontra o amor e uma nova esposa, mas era John que sempre foi perfeito para ela e ele escolheu manter seu casamento sofrido. No final das contas, a mensagem de que para ser feliz não precisa de ninguém é uma, mas Physical colocou Sheila sofrendo, em sua eterna esquizofrenia e agora imaginando o que poderia ter sido se John tivesse ficado ao seu lado. Em outras palavras, reforça que as mulheres não podem ter tudo.

Com uma trilha sonora perfeita com sucessos dos anos 1980s, escolher a última cena ao som de Xanadu reflete a trajetória de cinco anos na qual Sheila levou para chegar ao paraíso, mas, terminar os créditos ao som de Dreams, dos Cranberries, nos dá outro recado. Como diz a canção, a vida muda todos os dias e os sonhos, nunca são os mesmos. E isso sim, nos dá esperança. Boa sorte, Sheila!


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