A verdade sobre a obra desaparecida de Manet em Lupin

Assane Diop (Omar Sy) é um grande assaltante, mas uma das parte divertidas de Lupin, para entendedores de arte, foi colocá-lo frente a frente com uma das obras mais famosas de todos os tempos e desaparecida há 33 anos: Chez Tortoni, de Édouard Manet.

Pintado por volta de 1875, a tela mede 26 por 34 centímetros, o quadro retrata um homem não identificado sentado a uma mesa no Café Tortoni de Paris enquanto desenha em um bloco de desenho e tem um copo de cerveja meio vazio na mesa. Seu valor aumentou quando estava entre as obras roubadas em um dos maiores assaltos a museus já realizados, a do Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, nos Estados Unidos. Há uma recompensa de 10 milhões de dólares por qualquer dos itens roubados, mas até hoje a polícia não localizou culpados ou as peças.

Pela série da Netflix, o Manet desaparecido se encontra escondido em Paris, mas o assalto bem que poderia ter sido de Assane. O roubo de Isabella Stewart Gardner é ainda considerado o maior roubo de propriedade do mundo e não levou mais do que uma hora e vinte para acontecer.

Na início da madrugada do dia 18 de março de 1990, um veículo parou próximo à entrada lateral do Museu e dois homens uniformizados de policiais tocaram a campainha para entrar avisando que estavam respondendo a um chamado do estabelecimento. Atordoado, o vigia acabou deixando os dois entrarem e se afastou de sua mesa, sendo rendido e algemado com outro funcionário no porão.

Porque havia detectores de movimento, toda ação foi registrada enquanto os ladrões tiravam nada menos do que 13 peças, sendo que as obras de arte mais conhecidas foram retiradas da Sala Holandesa e incluiam Vermeer, van Rijn, Flinck e Rembrandt. O quadro de Manet estava na Sala Azul e os bandidos também roubaram cinco desenhos de Degas. Eram tantas obras, que precisaram fazer duas viagens separadas até o carro antes de fugir. A polícia verdadeira só chegou ao local de manhã, perto das 8h. Os dois guardas ainda estavam algemados no porão.

Embora o FBI tenha liderado as investigações, 33 anos depois ainda não foram recuperadas. O Museu mantém até hoje as molduras vazias penduradas, como espaço reservado para o dia em que forem recuperadas. A essa altura…

As 13 obras roubadas foram originalmente adquiridas pela colecionadora de arte Isabella Stewart Gardner, e estavam em exibição permanente com outras ainda mais valiosas. A seleção intriga aos especialistas justamente por isso. As investigações do FBI apontam para a facção da Máfia que age em Boston, que estava no meio de uma guerra interna de gangues naqueles anos.

O museu, inaugurado em 1903, mantinha a impressionante coleção de Isabella Stewart Gardner, que organizou o acervo até sua morte, em 1924. Sem muitos fundos desde os anos 1980s, estava em más condições e sem um sistema de controle climático ou apólice de seguro, nem mesmo manutenção básica do prédio. Já tinha sido alvo de criminosos antes, em 1982 o FBI conseguiu impedir um roubo e com isso foram instalados 60 detectores infravermelhos de movimento e um sistema de circuito fechado de televisão com quatro câmeras ao redor do edifício, mas nenhuma câmera dentro do museu. A razão é que teria sido mais caro fazer essa instalação e era melhor contratar seguranças. A única maneira pela qual os guardas podiam chamar a polícia ao museu era pressionando um botão no balcão de segurança. Ainda assim, as operações de segurança foram consideradas adequadas.

Diante desse cenário, o assalto foi fácil. Havia dois guardas de plantão, jovens e inexperientes. Enquanto um fazia a ronda com uma lanterna e um walkie-talkie, o outro se sentava no balcão de segurança. Os alarmes de incêndio soaram em várias salas, mas eles não conseguiram localizar nenhum fogo ou fumaça, presumindo então mau funcionamento do sistema, desativaram o painel. Talvez por essa razão, não tenham desconfiado quando perto de uma da manhã dois “policiais” tocaram a campainha alegando estarem respondendo a um chamado. Os uniformes pareciam verdadeiros pelas imagens, eles foram admitidos.

Os ladrões, ainda sem revelar a identidade, reuniram os dois seguranças no mesmo ambiente e conseguiram afastá-los da mesa onde estava o único botão de pânico do museu para alertar a polícia. Assim os renderam, algemaram, enrolaram fita adesiva nas cabeças e nos olhos dos guardas, os levando para o porão. Ameaçando suas vidas caso falassem qualquer coisa sobre suas aparências. Tudo não levou mais do que 15 minutos.

Em apenas outros 13 minutos, foram até o segundo andar, na “Sala Holandesa”, quebrando os sensores que soariam os alarmes. Tudo de forma ágil e “profissional”, eles chegaram a remover uma grande pintura a óleo de um autorretrato de Rembrandt da parede, mas a deixaram encostada em um armário e os investigadores suspeitam que mudaram de idéia depois de reavaliar o tamanho para transportar. Em vez desse, levaram o autorretrato do mesmo pintor que é do tamanho de um selo postal e que estava em exibição abaixo do retrato maior. Também desistiram de levar uma bandeira napoleônica, cuja moldura começou a ser desmontada e foi abandonada. A última obra a ser roubada foi justamente o quadro Chez Tortoni, que ficava na Sala Azul no primeiro andar.

Antes de sairem, pouco mais de uma hora depois, os ladrões verificaram se os guardas estavam bem e levaram as cassetes de vídeo com as imagens das câmaras do circuito fechado e as impressões de dados do equipamento de detecção de movimento. Apenas o os dados do disco rígido ficaram para trás. eforam usados pelo FBI. A moldura do Chez Tortoni foi deixada na mesa do diretor de segurança.

Na época, o FBI estimou o valor do roubo em 200 milhões de dólares, mas em 2000, sem ter ainda localizado nenhuma das peças, foi atualizada para 500 milhões de dólares, sendo que hoje está calculado em 600 milhões de dólares e ainda é considerado o roubo de museu de maior valor da história. Apenas o quadro O Concerto, de Vermeer vale metade do valor total do roubo, considerado o objeto roubado mais valioso do mundo.

A seleção específica das obras levadas intrigou os especialistas porque havia outras ainda mais valiosas como as de Rafael, Botticelli e Michelangelo, mas ficaram intactas. Portanto acreditam que a gangue não era especializada em Arte.

Curiosamente, Isabella Stewart Gardner deixou claramente ditado em seu testamento que “nada em sua coleção deveria ser movido”, também por isso até hoje a administração deixou as molduras vazias onde estavam as obras roubadas. A recompensa atual para localizá-las está em 10 milhões de dólares. E melhor, como o prazo de prescrição expirou em 1995, os ladrões e qualquer outra pessoa que tenha participado do roubo não podem ser processados.

Seria um assalto perfeito para Assande, como falamos. E a ação é mesmo a cara de Lupin, mas merecia um filme!


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