A doença da fama representada pelo Bling Ring

Talvez seja porque quando lia as notícias dos assaltos às celebridades feitos por uma gangue de adolescentes tenha sido algo que lembro razoavelmente, seja porque amei o artigo da Vanity Fair que depois foi a base do filme de Sofia Coppola, sempre fico estupefada com os crimes da gangue que ficou conhecida como Bling Ring. Há literalmente um ano (poucas semanas há mais), fiz uma análise na minha coluna de CLAUDIA sobre a série documental da Netflix sobre o grupo, com depoimentos em primeira pessoa por eles e que me indignou profundamente, Bling Ring – A História por Trás dos Roubos. A única deles que não tinha se manifestado publicamente, a acusada por eles como a líder, Rachel Lee. Pois é, agora ela tem um documentário para chamar de seu, exibido na HBO, chamado de The Ringleader: The Case of the Bling Ring.

Sem surpresa, Rachel se isenta do papel de liderança, mesmo que, ao contrário dos outros, pelo menos mantenha no discurso de responsabilidade pelo que fez. Ainda assim, ela tenta contextualizar as ações dela e dos companheiros sempre ressaltando onde a narrativa é mais interessante para ela e invertendo a contextualização dos crimes relatados por eles. Ela demora mais que os outros, mas sim, também toma posse da verdade e argumenta que “a verdade dela” precisava ser feita pública. Casualmente, obviamente estou sendo sarcástica, falar a coloca em evidência justamente quando a relevância do que fizeram está sendo esquecido. A doença das redes sociais e reality shows não é simbolizada pelas Kim Kardashians da vida, é por esses adolescentes perdidos, vazios e perigosos. E, paradoxalmente, importante para avaliarmos.

A narrativa de Rachel, efetivamente a única do Bling Ring que não era de uma família “rica”, é bem construída porque ela tem um dom de comunicação clara e efetiva que é raro. Não é à toa que ela fala mais de uma vez que é manipuladora e que mente com frequência. Se ela sabe e nos avisa, como acreditar no que diz? Não importa, estamos falando ‘dela’, estamos colocando Rachel Lee onde ela sempre quis estar: perto da fama.

Nesse documentário, que é a resposta direta ao da Netflix, há outros depoimentos assustadores como o do amigo que foi o primeiro a ter a casa roubada pelos Bling Ringers e que, em sintonia com Rachel, acusa Nicholas Frank Prugo de ser o principal em todos crimes, não o coadjuvante. Sabe o que assusta? Hoje com um canal de Youtube, o rapaz consegue dizer que “não perdoa Nick” pelo assalto e dor que causou à sua família, mas que poderia encontrá-lo “para comer sushi”. Percebem o problema?

Todos se queixam justamente do que os fizeram conhecidos. O artigo da Vanity Fair e o filme de 2013, dirigido por Sofia Coppola, que os retratam como superficiais e irresponsáveis, exatamente como são. Com os documentários, onde falam sem filtro editorial eles falam de “suas verdades” e de “narrativas” como ficam melhores se tentarmos levá-los a sério. Esses Bling Ringers são exemplos claro da doença da fama, de como estão longe da cura e como é nocivo dar voz à quem não quer ajuda. Cada vez que os ouço, tenho reações físicas de preocupação e irritação, com uma fábrica de monstros que se auto alimenta.

Os documentários da Netflix e da HBO trazem audiência para as plataformas mais do que alguma proposta de estudar os crimes ou os comportamentos nocivos desses criminosos. Não há uma análise de profissionais contestando o básico entre certo e errado, praticamente ouvimos o que querem dizer sem nenhuma contextualização crítica. Os crimes que aconteceram há 20 anos já foram “judicialmente pagos” e o que fica claro é que nenhum deles demonstra sequer uma remota mudança. Eles alegam que são vitimas da sociedade que alimenta consumo e busca por fama imediata, que é exatamente o que ainda estão perseguindo. Eles são os melhores símbolos de tudo que está errado na sociedade atual. Um vazio, que nenhum ouro ou sucesso poderá preencher. Uma doença assustadora, aparentemente, incurável.


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