Amor nas pontas dos dedos?

A metáfora de Nas Pontas dos Dedos (Fingernails) é bem direta: em tempos digitais nos quais teclamos em vez de escrever, nos quais a ciência lidera a emoção (um paradoxo, eu sei), como descobrir o amor? Já sabemos que a resposta será que o coração não é ditado por algoritmos porque Inteligência Artificial ou tecnologia, em histórias de ficção, são nossas antagonistas, mesmos que silenciosas. Portanto em essa pequena produção romântica produzida por Cate Blanchett e seu marido, voltamos a questionar como identificar o amor verdadeiro.

Em um futuro distópico não muito distante, Amor pode ser identificado com 100% de assertividade através de testes de DNA. Arrancando uma unha (outra metátora pela dor do processo), após vários testes de compatibilidade, um casal pode ter a segurança que está com a “pessoa certa”. O tema não é novo, Black Mirror e outras séries e filmes fizeram o mesmo cenário (com resultados distintos). Na versão do diretor Christos Nikou conhecemos Anna (Jessie Buckley) e Ryan (Jeremy White Allen), um jovem casal que fez o teste e vive feliz em uma vida sem sustos, sem expectativas ou até mesmo, paixão.

Embora o procedimento seja disponibilizado sem grandes problemas no Instituto do Amor, nem todos tem coragem de fazer o teste, seja por medo da resposta ou porque confiam mais em sensações do que ciência. Anna acredita em ambos e na proposta de que é possível sentir e confiar, desenvolvendo algumas atividades de intimidade e provocações tecnológicas. Por exemplo, algumas atividades são dolorosas como levar eletrochoque para sentir a dor da ausência do parceiro, quase se afogar para ter a sensação de quase morte sem a outra pessoa ao mesmo tempo que banhos íntimos criam a conexão sexual e sensitiva que uma relação deva ter. Soa estranho, não? Pois é.

Quando Anna começa a trabalhar no Instituto essas certezas serão colocadas à prova. Lá ela é pareada com o instrutor Amir (Rhiz Ahmed) e a química entre eles é imediata. Pouco a pouco ela vai confrontando suas crenças sobre amor verdadeiro, diante das comparações entre Amir e Ryan, até mesmo seu chefe, Duncan (Luke Wilson) cujo casamento aparentemente feliz acabou depois que ele testou e viu que ele e sua esposa não eram 100% compatíveis, mesmo que à olhos nus, fossem perfeitos um para o outro.

Já dei spoiler, mas poupei o desenvolvimento para que possam questionar, como o diretor faz, o uso da ciência exata para uma relação humana. Testar a compatibilidade genética já é uma triste realidade para algumas pessoas que pagam para isso, para ter conhecimento matemático de possibilidades. Seria possível incluir romance nessa conta? O cinema e os românticos tradicionais dizem que não, mas aqui está a pequena sutileza de qualidade de Nas Pontas dos Dedos (Fingernails), não é a relação entre Amir e Anna que traz a resposta, mas a dela com Ryan.

Há amor entre eles, mas também há uma falha de comunicação. Eles são 100% compatíveis, mas o que vemos é uma conexão nula. Não gostam das mesmas coisas. Não querem as mesmas coisas. Como podem serem feitos um para o outro? Querer a mesma coisa (amor verdadeiro, certeza de uma relação estável) poderia alterar o resultado? A rotina seria impossível de medir como perigosa?

Com boas e sensíveis atuações do trio principal ajuda. E o uso da canção Only You, do Yazoo, parece ser mais uma vez a base da história. A canção que aparece em 13 Reasons Why e The Great, dá o tom do filme também. Para românticos e céticos, e, em especial, os crentes do amor romântico, aquele que nenhum algoritmo pode calcular.


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