A projeção da história de Larry Russell (Harry Richardson) e Susan Blane (Laura Benanti), em The Gilded Age, tem cada dia mais parecido se espelhar na ópera La Traviata una das mais clássicas de todos os tempos e criada por Giuseppe Verdi há 170 anos. Considerando que estamos a semanas do centenário de uma das maiores intérpretes da obra – Maria Callas – vale relembrar mais detalhes de uma das peças mais bonitas e emocionantes da ópera.
A transviada – uma tradução mais apurada do italiano, foi escrita em 1853 usando como base o romance de 1848, A Dama das Camélias, de Alexander Dumas Filho. Claro que falaremos à parte pois é inspirada em uma história real, mas foi a ficção que encantou o mundo e gerações com o drama da cortesã Violetta Valéry e sua paixão pelo jovem Alfredo Germond, um romance sem esperança que tem a oposição de sua família, em especial, seu pai, Giorgio Germont.

Dividida em três atos e com libreto de Francesco Maria Piave, a. ópera chegou a ser batizada como Violetta, antes de estrear na ópera La Fenice, em Veneza. A idéia original era até de modernizar o livro (cuja ação se passa em cerca de 1700), mas a direção do teatro insistiu em manter o período original. La Traviata foi tanto sucesso que hoje, 170 anos, ainda é uma das mais executadas no mundo e foi a escolha do compositor depois de uma montagem teatral da história, um anos antes, em Paris. Impactado com o que viu, já conhecendo o livro, passou imediatamente a trabalhar na música.
Houve muitos problemas com a obra desde o início: Violetta – aos 38 anos – era uma mulher “mais velha” e o edarismo já era uma realidade, tanto que até Verdi considerou a colocá-la mais jovem. O pior problema mesmo era outro. Em geral (até Maria Callas) os sopranos não mulheres corpulentas, acima do peso e como Violetta morre de tuberculose, era de se imaginar que fosse magra. O público sempre tem problemas em lidar com o fato, desde a primeira a interpretar o papel, Fanny Salvini-Donatelli, o que gerou alguns risos iniciais na platéia, que aplaudiu no final. “La Traviata ontem à noite foi um fracasso. A culpa foi minha ou dos cantores? O tempo dirá”, Verdi escreveu na época.
E disse: é perfeita.

Atualmente em cartaz no Teatro Municipal do Rio é uma história de amor, morte, desespero e dignidade. Encontramos Violetta escondendo de todos que sua saúde está de mal a pior, assim como suas finanças, mas acaba cedendo à paixão do jovem Alfredo, que se declara à ela. Tendo vivido apenas relacionamentos onde era paga, ela decide tentar um por prazer e amor. O problema é que, mesmo longe de todos, o romance deles é um escândalo e por isso o pai dele, Giorgio, pede que ele termine. A essa altura, é Violetta que sustenta Alfredo, apaixonada e feliz. Quando descobre isso, Alfredo vai em busca de uma fonte financeira e quando a cortesã está sozinha, é visitada por Giorgio. Primeiro ele exige que termine tudo com Alfredo, para salvar sua reputação do rapaz e não prejudicar o casamento da irmã dele, prestes a se casar. Mesmo percebendo que Violetta não é uma golpista e que realmente ama seu filho, Giorgio precisa que ela se afaste. Ela concede e rompe com Alfredo, que, sem saber do combinado, considera ter sido trocado por outro por pura frivolidade de Violetta, a humilhando em público, quando a reencontra. Meses depois, Violetta, à beira da morte, chora pelo amante que descobre o sacrifício dela e vem pedir perdão. Os dois se reconciliam, mas ela morre em seus braços.
Colocar uma cortesã como protagonista era um escândalo naquela época, mesmo que viesse de um sucesso da literatura. Alguns historiadores aludem um papalelo pessoal de Verdi com o tema. Ele viveu por 10 anos com a cantora Giuseppina Strepponi, antes de se casar, e la traviata era como muitos se referiam à ela. “Não tenho nada a esconder. Na minha casa mora uma mulher livre e independente, que, como eu, adora a vida solitária e tem uma fortuna que a protege das necessidades. Nem ela nem eu devemos qualquer conta a ninguém pelas nossas ações”, ele disse na época. Como uma resposta à hipocrisia da sociedade, Verdi usou A Dama das Camélias para criticar a convenção social, mas ceder a deixa a história nos anos 1700 ajudava a “afastar” do que, na época, era atual.

A música de La Traviata é simples, melódica e de fácil memorização, mas o papel de Violetta exige uma intérprete com amplitude técnica complexa, limitando o número de boas intérpretes. Entre as mais famosas estão Christina Nilsson – que já apareceu em The Gilded Age – e, claro, Maria Callas. Há 30 anos, Franco Zefirelli fez um filme com Placido Domingo e Teresa Stratas, com uma rápida aparição de Ekaterina Maximova e Vladimir Vasiliev. Nesse paralelo de óperas, a intevenção de Bertha Russell (Carrie Coon) no romance entre Susan e Larry a coloca como o “Giorgio” da série, sendo que ainda não tentou por um segundo ser empática com a viúva. Ao contrário, o tempo todo é a primeira a lembrar Susan da diferença de idade entre ela e o arquiteto. Será que devemos nos preocupar?
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