Os erros de The Buccaneers

É raro usar o espaço de MiscelAna para falar mal de um conteúdo e sempre encontro motivos para destacar qualidade, mas com The Buccaneers, desisti. A produção da Apple TV Plus é um derrape da plataforma, um conteúdo caro e pretensioso, vazio e simplesmente ruim.

A série descaradamente embarca nos sucessos de The Great e principalmente Bridgerton para garantir seu espaço em produções de época voltadas para o público mais jovem. Pretensiosamente elegeu o livro de uma grande autora americana, Edith Wharton, para atingir o público teen e até possa te alcançado a métrica, mas o conteúdo é quase risível. The Buccaneers está longe de ser uma das obras mais interessantes da autora, que a deixou inacabada, mas pareceu irresistível para quem escreveu de olho no algoritmo pois tinha ali todos os elementos do drama atual de Meghan Markle e a Família Real, outra forçação da história que derrapa e não chega a lugar nenhum. A culpa disso é acreditar que anacronismo resolve tudo. Só piorou.

A heroína da história, Nan Saint George, nos diz na primeira cena que “nunca quis ser protagonista”, o que é justamente o contrário do que vemos. Literalmente se Nan está em cena está sempre desgrenhada, com roupas e corte de cabelo modernizados, chorando ou sofrendo por alguma coisa. Tem sempre uma opinião, uma resposta na ponta da língua. Não leva desaforo para casa e em qualquer festa – seja casamento ou até sua própria celebração de noivado – está trancada em quartos deixando os convidados sozinhos, entrando e saindo de ambientes batendo a porta e interrompendo jantares para falar sobre ela mesma.

O drama de Nan só faz o mesmo dramático do original se The Buccaneers não tivesse transformado a história com personagens modernas, feministas, autênticas. Isso porque na sociedade da The Gilded Age, as mulheres eram reprimidas e precisavam se casar para ter sustento e aceitação na sociedade. Com “tanta oferta”, elas precisavam ser puras, quietas e sem dramas. Como Nan descobriu pela irmã mesquinha que na verdade ela era ilegítima, o segredo a arruinaria. Era realmente um perigo para todos se a verdade viesse à tona, em especial porque ela estava casada com um Duque.

A Nan da série fica apavorada quando sabe, mas, em vez de ficar quieta age como descrevi antes: à beira de um constante ataque de nervos. Deu tanta bandeira que quando a verdade veio à tona ninguém nem se alterou. A cena foi ridícula assim mesmo. E não pára aí.

Eis que o homem que ela amava primeiro, Guy, saiu correndo dela quando descobriu sua origem e o segundo homem que ela ama, Theo, seu noivo, não apenas não se importou como enfrentou a família e a sociedade para se manter ao lado dela. Ainda assim, Nan e as roteiristas decidiram transformar Theo no antagonista, com Nan o acusando de mentiroso (porque ele sabia da verdade e não a avisou, a “fazendo passar por sofrimento ao esconder dele”), destruindo uma relação que elas mesmos fizeram perfeita até então. Inadmissível em qualquer roteiro adulto, mas aparentemente Nan é o que a geração millenial aprecia ser: narcisista, inconsequente e perdida.

Sei que soa rabugento, mas The Buccaneers, que já tinha uma base rasa com dramas que não ecoam mais com as mulheres de hoje ficou completamente bamba quando transformou a personalidade de sua protagonista em algo que ela não é. Não há como ter empatia por Nan ou torcer por ela e Guy diante do que vemos. Porque não há nada – nem as convenções – que os impeça de ficarem juntos. As atitudes de Theo, colocadas como manipuladoras, não são: de fato ele está tentando ganhar a garota, ser um bom amigo e discreto ainda assim. Ele será sacrificado ou se sacrificará pela chata da Nan, para que ela possa “ser feliz” com o cara que a enganou e a rejeitou, mas que é o mocinho da trama. Fará bem porque Nan não merece Theo.

Nem me dei ao trabalho de encarar as outras tramas. Jinny e Lizzy seguem exatamente onde começaram, com Jinny agora grávida e sem saber como se livrar do marido sociopata. E Conchita e Richard lidam com ele sendo um sobrevivente de abuso sexual. Sim, o “romance” que ele teve com a Sra. Testvalley quando ainda era menor de idade é estupro, ela fez bem de sair correndo. Mas ninguém se importa com ele e Conchita, ou com ninguém de verdade. Falta pouco para acabar, na minha lista, nem voltaria para uma segunda chance. Que sofrimento!


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