Os 170 anos de La Traviata

Em 1983, Franco Zeffirelli lançou um longa um tanto ousado: a gravação completa de uma das obras mais famosas de Giuseppe Verdi: La Traviata. Uma produção luxuosa e inesquecível mesmo 40 anos depois.

A ópera, que completou 170 anos em maio de 2023 é uma das minhas prediletas e é uma versão da obra A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, que foi lançada em livro em 1848, mas adaptada para o teatro um ano antes da produção cantada. Verdi, que viu a peça em Paris (acompanhado por Giuseppina Strepponi), ficou tão encantado que compôs a música imediatamente, antes mesmo de ser contratado pora lgum teatro.

Em italiano se refere à “mulher caída”, a cortesã e principal da história, Violetta Valéry que é o alvo da paixão do jovem Alfredo Germont. A história dos dois é trágica e intensa, bem ao gosto da época. Sua estreia, em 6 de março de 1853, foi na ópera La Fenice, em Veneza e tem algumas curiosidades de bastidores.

O libreto de Francesco Maria Piave divide a história em três atos. Assim como ele, Verdi queria trazer a história de Dumas para um cenário contemporâneo, os anos 1800s. Porém a direção do teatro temia um escândalo, por isso ficou nos anos 1700s, o que não atrapalhou em nada o sucesso da ópera. O título final substituiu os dois anteriores – Amor e Morte e Violetta – até chegar a La Traviata.

A história de Violetta é triste: ela está com tuberculose e com os dias contados, por isso mesmo vivendo intensamente uma vida de vícios. O jovem rico Alfredo se apaixona por ela e se declara, o que ela a princípio rejeita, mas acaba aceitando para ter alguns dias de felicidade. Meses depois, eles vivem apaixonados no campo, onde ela está melhor. No entanto, secretamente, o pai de Alfredo a procura e pede para que ela rompa com o filho dele pois a ligação dos dois está ameaçando a reputação da família e impedindo a irmã de Alfredo de se casar. Ela concede e mantém o sigilo do pedido. Alfredo, magoado por ter sido abandonado, acredita que ela o trocou por outro homem e a humilha quando a reencontra, jogando dinheiro em sua cara. Um tempo depois, Violetta, sozinha e sem dinheiro, está a poucas horas da morte. Alfredo, agora sabendo do sacrifício que ela fez vem pedir perdão. O casal ainda tem alguns último momentos antes que ela morra em seus braços.

Toda a censura e a proibição de atualizar a história não foram nada perto do soprano escalado para a primeira noite: Fanny Salvini-Donatelli tinha 38 anos e com sobrepeso, dificultando a imagem de uma Violetta de saúde frágil à beira da morte. Dito e feito: as gargalhadas na plateia quanto isso entraram para a história. Verdi ficou revoltado e desabafou em uma carta: “La Traviata ontem à noite foi um fracasso. A culpa foi minha ou dos cantores? O tempo dirá.” A resposta veio rápido. No ano seguinte, com alguns ajustes, Violetta foi intepretada por Maria Spezia-Aldighieri e a ópera virou o que é até hoje: um dos maiores sucessos do compositor.

É hilário pensar que ter uma cortesã no papel central da história tenha sido escandaloso, mas foi o fato por muitos anos, fazendo de La Traviata algo imoral e ousado para se montar e assistir. Para quem acompanha The Gilded Age, vale comentar que a primeira montagem americana da ópera foi na Academia de Música, em 1856.

A versão de Zeffirelli para o cinema é considerada uma das gravações definitivas da obra. Ele que já tinha feito montagens lendárias no teatro, tendo dirigido inclusive Maria Callas no papel, decidiu eternizar o soprano Teresa Stratas e o tenor Plácido Domingo nos papéis centrais. A trilha sonora, conduzida por James Levine ganhou o Grammy de Melhor Gravação de Ópera naquele ano. Críticos apreciam que no filme, sua narrativa com flashbacks funcionou melhor nas telas do que nos palcos. É ainda hoje considerado um dos melhores registros operísticos já realizados. Eu adoro a rápida participação de Vladimir Vasiliev e Ekaterina Maximova em uma cena, claro.

La Traviata de Zefirelli foi indicado a dois Oscars: produção e figurino, tendo levado o BAFTAs em ambas categorias. Um clássico e uma grande pedida sempre.


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