Há os órfãos imediatos de um dos conteúdos de maior impacto da Netflix desde que a plataforma se transformou em Canal e Estúdio. The Crown é acertadamente um dos conteúdos de maior sucesso e premiação da plataforma, fazendo um paralelo frequentemente perigoso com as vidas de pessoas tão significativas na vida dos britânicos, quase todas, ainda vivas. Uma missão na qual o maior especialista da Dinastia Windsor, Peter Morgan, mostrou manter sua maestria ímpar. A série ajudou a dar à Rainha Elizabeth um carinho ainda extra não apenas dos súditos, mas do mundo, ao seu longo reinado, que alcançou a marca de 70 anos, um ano antes de sua morte, em 2022. Também trouxe nova lente para a personalidade do atual Rei Charles, manchada pelos anos de guerra de tabloides com sua ex-mulher, a Princesa Diana, da mesma forma que resgatou a atual Rainha Camilla das páginas de vilã da Disney. Tudo com bons contextos, algumas liberdades, mas, em geral, distanciamento e objetividade. Uma tarefa complexa para um súdito que ainda vive no país retratado.

Aliás, The Crown é uma aula de Peter Morgan sobre a alma britânica mais do que uma Rainha. Ele cobriu nada menos do 60 anos de História em 6 temporadas, traçando a evolução política e cultural de um país onde sua soberana se manteve firme por Guerras, revoluções culturais e momentos de puro drama. Claro que deixou de fora muitas histórias paralelas, muitas pessoas que queríamos entender melhor mas sua proposta, em sua simplicidade, é a genialidade da série.
Em cada episódio, Morgan fala de um sistema e seus conflitos em tempos atuais, onde “o que importa é a Coroa, não quem a porta”. Por isso a protagonista é Elizabeth, destacando Charles e nos apresentou importantes momentos de um jovem William. A Coroa é o peso deles na História, o resto não chega a ser irrelevante, mas perto disso. E podem simpatizar com um ou outro, mas a entrega nessa ótima foi perfeita do início ao fim. As opções teatrais mais claras nessa temporada (o fantasma de Diana e a Rainha falando com suas versões mais jovens) tem ligação com a fonte de The Crown, a peça The Audience que foi o começo de tudo. O que nos poupou, ainda bem, dos momentos clipados de flashbacks para refletir sobre a trajetória, um clichê que teria ficado cafona, sem dúvida.



Falarei mais em detalhes de episódios dessa temporada, mas ainda estou maturando os meus sentimentos sobre a conclusão da série. Desde o início a proposta era encerrar onde encerrou, e a Pandemia e a briga entre os príncipes (que coloca o drama entre Diana e Charles no chinelo) interferiu em muita coisa da narrativa e tempo de entrega, inclusive encerrando após a morte da Rainha que chegamos a brincar que era imortal. Não sabemos se sempre seria como foi, mas ter o último episódio com a Rainha planejando seu funeral, refletindo sobre seu reinado foi particularmente emocionante para quem viu o resultado disso tudo no seu funeral em 2022. Sorte do showrunner, eu diria.
A mesma sorte quase faltou quando decidiu encarar de frente a maior sombra de Elizabeth, sua nora, Diana Spencer. O carisma da princesa permanece inalterado mesmo 27 anos após sua trágica morte e sem surpresa despertou uma nova onda de defensores e acusadores de todos os lados. As atuações mágicas de Emma Corrin e Elizabeth Debicki contribuíram para que nos sentíssemos novamente vivendo os dias em que Diana dominava as revistas de todo o planeta e, por sua alma e pelo tempo, espero que encerremos a deixemos descansar numa paz que não teve em vida.


Um dos conflitos que The Crown martelou com exímia precisão foi a cruel realidade da monarquia com seus sobressalentes, seus reservas. Desde o pai da Rainha, à Margaret e Harry, o peso de viver no sistema onde não um propósito real é sufocante e triste. O episódio da morte de Margaret é de longe o mais emotivo e poético de toda série, com uma atuação estupefante de Leslie Manville. Magaret fez o que Harry se recusou: se manteve fiel à Coroa e à irmã, mas não teve um final feliz.
A imagem errônea que compramos por décadas, de que William e Harry eram inseparáveis e amigos, foi contextualizada com carinho para ambos os príncipes, mas se engana que acha que a fonte foi a biografia de 2023, Spare. Apaguei os posts sobre essa história e tentarei não voltar aos detalhes, mas o consultor de Morgan é o autor de Battle of Brothers, Robert Lacey, que já tinha colocado os detalhes confirmados por Harry ainda em 2020. Sem evitar essa transparência, The Crown foi ousada, correta e fechou sua passagem com nota máxima.
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