Falar de “surpresas” em The Gilded Age é para quem não lê livros ou pesquisa História. O paradoxo aqui é que a previsibilidade ainda é algo positivo porque Julian Fellowes constrói a trama romântica que nos faz implorar pelo clichê, adorando como ele nos entrega. Portanto, golpes, fortunas perdidas, corações partidos, chantagens ou romances, casamentos e heranças inesperadas fazem parte de um ciclo que comprova que para contar uma história pode contar com tudo e ainda ter qualidade. A série da HBO Max tem tudo isso, com uma estrutura emprestada de Downton Abbey, personagens e fatos históricos mesclados com propostas de revisitar histórias de amor. Há profundidade na simplicidade.

A segunda temporada acelerou em muitos passos a proposta inicial, mas embora até tenha parecido um tanto “rápida demais”, ninguém está aqui para evitar escapismo e ficar contabilizando realismo. Sem uma terceira temporada assegurada oficialmente – o aviso deve vir em breve – The Gilded Age fez o certo: fechou tramas em aberto e as que deixou sem conclusão são o suficiente para considerarmos mesmo se terminarem “inconclusivas”. Tenho certeza que teremos mais.
A Guerra das Óperas, inspirada nos fatos reais de 1883, foi o pano de fundo para o que estava acontecendo no palco, em especial, com a montagem de Fausto criando o paralelo da protagonista, Bertha Russell (Carrie Coon), uma anti-heroína que se despede por hora vendendo a alma – e a filha, Gladys (Taissa Farmiga) – para ter sua vitória material sobre uma sociedade materialista e fútil (como ela). Essa queda da máscara tira qualquer dúvida de que Bertha é antagonista, não a mocinha, nos forçando a reavaliar quem até hoje esteve em seu caminho. Sim, estamos falando de Enid Turner (Kelley Curran) que literalmente subiu de status no papel e na série.
Nos oito episódios exibidos em 2023, Bertha usou de chantagem para afastar a mulher que Larry (Harry Richardson) se apaixonou, Susan Blane (Laura Benanti) da vida do filho; subornou em várias oportunidades o volúvel Duque de Buckingham (Ben Lamb), literalmente vendendo Gladys sem que a filha sequer desconfia. Aliás, Gladys não perceber o que Bertha está fazendo é inverossímil dado que como filha e sufocada por ela, sem dúvida sacaria o que a mãe está armando para ela. A vingança contra Turner foi a mais próxima do que esperaríamos, mas como fez é que revela não apenas a habilidade de Bertha de dissimulação mas seu foco na vitória não importa o preço. Em oposição à isso, George (Morgan Spector) que na primeira temporada não se importou de levar seus inimigos à falência e suicídio tem se revelado mais empático, com estranhos e sua própria família. Considerando a base da história desenhada para os Russells – os Vanderbilts – veremos ainda a família se separando mais à frente e muitas lágrimas. Infelizmente.

No episódio final, Bertha descobre via Marian (Louisa Jacobson) que Warden McCallister (Nathan Lane) nunca foi um aliado, tendo sido o maior traidor ao tentar ajudar Caroline Astor (Donna Murphy) a assegurar que a Academia de Música (man)tivesse o prestígio e a vitória final da guerra das óperas. O preço é alto, mas ela fechou mais uma temporada “por cima”. E sim, foi ela que revelou o passado de Turner para a Sra. Astor. Vilã, meu povo. Estávamos sendo duros com a pobre Enid.
Do lado dos Van Rhijn, não houve alternativa: Oscar (Blake Ritson) perdeu tudo e o que sobra é apenas o suficiente para uma vida simples, longe do luxo e prestígio para o qual Agnes (Christine Baranski) sacrificou uma vida para evitar, incluindo um casamento sem amor. Com isso, Ada (Cynthia Nixon) e Marian, que dependiam dela, estão também à mercê do que sobrar. Ela considera que na verdade Marian nem será afetada pois se casará com um suspeitosamente ausente Dashiell Montgomery (David Furr), que já sabia que a jovem não tinha dinheiro e assim a sustentará. A perspectiva dá arrepios em Marian, mas ela está tentando seguir a orientação da tia. No entanto, quando não apenas o noivo traça para ela um destino de filhos e enteada, sem trabalhar ou fazer o que gosta, ela quase sufoca de desespero. A alternativa é se agarrar no fato de que ele, recém viúvo, ainda é apaixonado pela falecida esposa e “não seria certo” casar no momento. Fiquei com pena de Dashiell porque ele é um homem de seu tempo, um bom homem, tentando fazer o melhor por sua filha que é seguir em frente com a vida e ter uma boa companheira. Mas seu propósito em The Gilded Age era outro e ele foi alcançado.
Desde o início sabíamos que o casal da série é Marian e Larry, que se conheceram casualmente, se tornaram grandes amigos e confidentes sem perceberem que nasceram um para o outro. Marian se apaixonou pelo detestável Tom Raikes (Thomas Cocquerel) e Larry agora teve o romance com a viúva Susan Blane, também com o coração partido. Mas foi apenas quando Dashiell entrou no circuito que Larry começou a perceber que Marian era mais do que uma amiga potencial. O beijo dos dois, ainda acreditando que poderão se separar agora que ela acredita voltar a ser pobre, foi comemorado com fogos de artifício pelos fãs. Antes eu defendi que Bertha seria contrária ao casamento dos dois, mesmo que Marian tenha sido em mais de uma ocasião a pessoa que ajudou aos Russells a virar o jogo. Hoje já a vejo aceitando de bom grado o casal.

Antes de encerrarmos com as irmãs Ada e Agnes, vamos ao arco do Brooklyn, liderado por Peggy Scott (Renée Benton): com temas relevantes de inclusão, mostrando a segregação e racismo mesmo no Norte abolicionista, essa parte da série ganhou mais espaço e maior profundidade. E com o peso que não destoa do resto da história quase surda de privilégio branco. Ainda bem que nem avançaram o certamente condenável e infeliz romance de Peggy com Thomas Fortune (Sullivan Jones). Eu errei ao imaginá-lo viúvo, ele era um “homem de seu tempo”, traindo a mulher que está em casa com um bebê recém nascido. Peggy, um conselho: CORRA. Ainda bem que o fez. Numa terceira temporada, Julian Fellowes trará um candidato mais honesto e que não beba nas horas de trabalho.
Outro avanço da temporada de The Gilded Age foi criar times entre as equipes que atendem às famílias. Em uma sociedade capitalista, é normal que o maior número de empregados seja de imigrantes que se submetem ao serviço e que as relações entre patrões e empregados seja próxima como mostraram. As interações entre eles na casa e entre as casas ficou divertida, com romances, amizades e possíveis desenvolvimentos. Eu acho que Watson (Michael Cerveris) deveria aproveitar a “aposentadoria da vida de valete” abrindo uma agência de detetives e sua primeira missão deveria ser localizar Maud Beaton (Nicole Brydon Bloom). E tenho certeza que George terá trabalhos para ele também. E o romance entre Borden (Douglas Sills) e Sra. Bauer (Kristine Nielsen) também ficou muito fofo. Já Jack (Ben Ahlers), cuja parceria com Larry é promissora, será igualmente uma linda história para acompanhar.

Nos despedimos com um Oscar sem transparecer o arrependimento ou desespero que esperávamos para alguém que perdeu TUDO nas mãos de uma golpista, mas eu simpatizo com o peso colocado em seus ombros diante da obrigação de ele mesmo ter que fingir ser quem não é. A trama dele com Maud não acabou, tenho certeza. E nada melhor do que ver que o apressado casamento de Ada e Luke Forte (Robert Sean Leonard) tinha um motivo importante: inverter a dinâmica entre as irmãs Brook, empurrando Agnes para seu arco transformador. Seria difícil vê-la na pobreza depois de anos de domínio e arrogância, menosprezando a habilidade de Ada para decidir coisas importantes da vida. Uma gerente empática era o que aquela família precisava, tanto Oscar como Marian, ambos possíveis herdeiros da tia. Duvido que Agnes se adapte rapidamente ao novo papel de dependente de Ada, mas há sinais de que nem tudo é perdido, incluindo sua relação com Peggy e até suas conversas francas com Marian. Ou seja, PRECISAMOS DE MAIS TEMPORADAS! Pelo menos mais duas. Até lá, ficamos sonhando com mais The Gilded Age que merecidamente foi um dos grandes sucessos da HBO Max em 2023.
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