Os 97 anos de Iuri Grigorovich

O ballet clássico russo rendeu ao mundo algumas das maiores lendas da Arte, mas, em termos criativos de “balés completos”, poucos foram tão significativos no século 20 como Iuri Grigorovich. O coreógrafo, que completa 97 anos em janeiro de 2024 ainda ativo, assina alguns das maiores obras da dança russa, entre Spartacus e Ivan o Terrível, para citar apenas dois de sua criação. Uma mente criativa, um temperamento que conquistou inimizades, Grigorovich comandou o Ballet Bolshoi por 30 anos, os mais poderosos e famosos deles, virando sem dúvida, uma lenda da dança.

Nascido em São Petersburgo, em 2 de janeiro de 1927, a dança está em seu DNA pois sua família já era ligada ao então Ballet Imperial (hoje Mairiinsky). Sem surpresa portanto, estudou na escola da companhia, para qual entrou com apenas 19 anos e dançou até os 35, quando já era considerado um coreógrafo promissor.

Enquanto esteve no palco, Grigorovich não era danseur noble, mas démi charactere, ou seja, se destacava em papéis mais teatrais e de danças típicas. Ainda no Mairiinsky, então Kirov, ele começou a fazer o que realmente gostava: criar balés. O primeiro foi em 1957, The Stone Flower, com música de Sergei Prokofiev e um grande sucesso. Em seguida, em 1961, criou The Legend of Love, outro sucesso. A dança russa tinha seu novo (e jovem) gênio.

Enquanto a continentes distantes George Balanchine explorava o que chamada de ballet sinfônico, Grigorovich se manteve fiel ao ballets librettos, mas suas obras tinham sempre uma vertente social e uma história de impacto político. The Stone Flower é baseado em contos populares dos Urais e foi considerada uma produção inovadora por inserir modernidade nos passos. Já The Legend of Love é baseado em um conto persa de Farhad e Shirin. Com os dois sucessos, o Bolshoi Ballet, que competia com o Kirov, em 1964 contratou Iuri Grigorivich como seu Diretor Artístico, uma cadeira que ele só viria a liberar (sob pressão) mais de 30 anos depois.

Apenas dois anos depois que chegou ao Bolshoi, o coreógrafo trabalhou com o casal Ekaterina Maximova e Vladimir Vasiliev, reestruturando o balé O Quebra Nozes como uma história de amor para eles. O sucesso foi tão grande que desde 1966 é essa a versão oficial da companhia quando monta o balé de Tchaikovsky. Mas seria com Spartacus, em 1967, que Grigorovich faria tamanho sucesso que o mundo passou a reverenciá-lo. Ele criou um balé sobre o confronto entre dois arqui-oponentes, um escravo rebelde e um guerreiro nobre, mais uma vez contando com o virtuosismo de Maximova e Vasiliev para alcançar o sucesso.

Entre os originais, que ainda incluem o genial Ivan o Terrível, 1975, Angara The Golden Age, em 1982, ele revisou os grandes como Raymonda, A Bela Adormecida, Giselle, Romeu e Julieta (fez sua versão em 1979), Don Quixote, La Bayadere e Le Corsaire, entre outros. Mas nenhum causou maior impacto do que sua versão de 1984 para O Lago Dos Cisnes, no qual alterou o fim trágico para um final feliz, provocando os conservadores que consideraram um sacrilégio.

A longevidade transformou a imagem de inovador e criativo os primeiros anos de Grigorovich em conservador e até lento, preferindo reinterpretar clássicos do criar novos, criando inimizades justamente com as estrelas que formou ao impedi-las de criar ou dançar em outros lugares. Sua figura passou a ser considerada ditatorial e não ajudava que escalasse sua segunda esposa, a linda Natalia Bessmertnova, para a maior parte de seus balés. Desgastes internos, mudanças políticas e mundiais levaram a Grigovorich sair do Bolshoi em 1995, mas foi chamado de volta em 2008, para ser o coreógrafo convidado. 

Tendo ficado viúvo em 2008, quando Bessmertnova faleceu, aos quase 97 anos Iuri Grigorovich ainda ensaia novos talentos e segue ativo. A três anos de seu centenário, ele ainda está escrevendo sua história, que é, unanimamente, lendária.


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