Em 12 de outubro 1972, um time de rúgbi uruguaio embarcou em um vôo para o Chile, onde participariam de uma competição. A alegria, a esperança e a juventude de quem estava no avião fretado acabaria com a queda da aeronave no coração dos Andes, em uma área isolada conhecida como Vale das Lágrimas. Dos 45 passageiros, 29 sobreviveram à queda e apenas 16 foram resgatados com vida.

Eles passaram cerca de 70 dias onde não havia esperança, comunicação, água, remédios ou comida. Para piorar, há 54 anos, nem havia tecnologia que pudesse ajudar o que tinha acontecido com o voo 571 da Força Aérea Uruguaia. Menos ainda, com os passageiros. E ainda assim, quando encontrados do dia 23 de dezembro de 1972, a história de sobrevivência se revelou ainda mais profunda. Ainda mais com a conclusão – e admissão – de recorreram a medidas extremas para continuar vivos, incluindo canibalismo. Obviamente uma história assim não deixaria de chegar ao cinema. A Sociedade da Neve é o filme espanhol que espera ter chances no Oscar 2024 e que entra na Netflix agora em janeiro de 2024, depois de passar umas semanas em cartaz nos cinemas.
Baseado no livro de mesmo nome, escrito por Pablo Vierci e dirigido por Juan Antonio Bayona (O Impossível), o longa resgata a incrível história que até hoje desperta curiosidade ao redor do mundo. Pablo cresceu em Montevidéu e conhecia os atletas, que morreram e os sobreviventes, mas esperou 36 anos para “dar voz aos que não conseguiram sair vivos”.
“Chegar a um acordo com todos os sobreviventes e familiares dos falecidos foi vital para este projeto e todos responderam de forma unânime e favorável à abordagem da história”, explicou o diretor. Os sobreviventes foram fundamentais e o seu entusiasmo alimentou o filme e a minha perspectiva”. Obviamente, a parte mais delicada foi a revelação de que, sem opção, os sobreviventes precisaram se alimentar dos corpos de seus companheiros mortos. “Estou muito interessado na natureza simbólica desse ato – a ideia de se entregar ao outro. No coração de A Sociedade da Neve está um espírito de colaboração e amizade que aparece espontaneamente à medida que os personagens principais enfrentam adversidades cada vez maiores”, seguiu Juan Antonio. “A entrega de si mesmo aos outros manifesta-se tanto espiritualmente – quando alguém caminha pelos outros ou cura as suas feridas – como fisicamente, com esses corpos dando permissão para serem comidos em a cara da morte. É um dispositivo tão extremo quanto místico e humanístico. Apesar de tratarem de temas sombrios, meus filmes são cheios de luz — falam da morte para enfatizar a vida”, resumiu.
E é verdade, a decisão de filmar a história foi tomada ainda em 2012, quando estava trabalhando em O Impossível e ele fez não apenas questão que o elenco conhecesse pessoalmente os sobreviventes ainda vivos como estivessem no local do acidente.


A Sociedade da Neve chega às telas 30 anos depois de Vivos, o filme de 1993 estrelado por Ethan Hawke, na época, 20 depois do acidente. Não fez sucesso, mas tem a recriação apavorante e perfeita do acidente. Juro, se você tem medo de voar, NÃO veja. Dirigido por Frank Marshall, o filme contou com a consultoria de Nando Parrado (um dos sobreviventes e o papel de Ethan Hawke) teria sido um dos primeiros papéis de um iniciante Brad Pitt, que fez teste para interpretar Roberto Canessa, mas foi muito mal na leitura. O papel ficou com Josh Hamilton. Uma das “vantagens” do novo filme da Netflix é justamente trazer atores desconhecidos do grande público.
O filme promete emocionar porque reforça a força humana contra o extraordinário. E tem o comprometimento pessoal do diretor, que convenceu a todos, inclusive os sobreviventes, que a história merecia uma nova apresentação, com uma carta escrita em 2011. “Ficamos todos fascinados pela ideia de que havia uma versão completamente nova, muito emocionante e muito profunda desse ponto de vista’, explica o autor do livro, Pablo Vierci. “Era um e-mail avassalador e emocionante onde explicava que havia usado o livro Sociedade da Neve para escrever O Impossível, que ainda não havia sido lançado, e nos contou o que achava necessário para contar a história do que aconteceu nos Andes”. E mais de 50 anos depois, chegou a hora.
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