Sim, vamos começar com o elefante na sala: o que houve com Greta Gerwig? A diretora que parou o mundo em 2023 com a febre Barbie, quebrando recordes de bilheteria, transformando o rosa chiclete em fashion novamente e, enaltecida por jornalistas como gênio, era uma das vencedoras anunciadas no Golden Globes Awards 2024. No entanto, saiu de mãos (quase) abanando, numa rejeição dolorosa de acompanhar. Me senti como parte do reality show das Garotas Más e com Regina George como roteirista.
Barbie e Oppenheimer foram fenômenos em 2023, praticamente simultâneos em lançamento e despertando igual paixão entre os cinéfilos. Porém Barbie foi mais pois criou um movimento cultural mundial e o fato de que, no Golden Globes, Comédia e Drama são consideradas artes distintas, havia chance de ser uma noite Barbieheimer: os dois maiores com os maiores reconhecimentos. Ninguém esperava que entre os de TV tivéssemos outros vencedores do que Succession e The Bear, assim como Oppenheimer abocanhou (quase) todas as categorias de prestígio ao qual foi indicado, por que não Barbie? Mais ainda, por que não Greta Gerwig?

Greta escreveu e dirigiu um filme-panfleto que redefiniu uma boneca com mais de 60 anos como símbolo do patriarcado: um corpo feminino impossível, um racismo latente (a original era loira de olhos azuis) e um materialismo doentio: quem teve Barbie queria carro da Barbie, casa da Barbie, roupas e sapatos da Barbie para poder brincar com ela. E sim, um Ken como namorado de plantão. A diretora inverteu tudo isso com questionamentos atuais, situações inusitadas e tirou a vergonha de muitas mulheres e meninas de ainda gostarem da Barbie. Não curti o filme, no sentido que não tirou meu fôlego, mas é um feito que merecia o reconhecimento de seus pares mais ainda do que do público que fez de Barbie um filme histórico. Vou lançar a superstição: não chamem Ryan Gosling para o seu elenco. Depois de La, La Land, a rejeição à Barbie é a presença dele no grupo. O mascar chiclete enquanto ri da situação no palco está ficando frequente demais para tirar isso dos ombros dele.
Agora em nota mais séria. Se Barbie tivesse perdido para um roteirista homem ou um filme sobre e com homens, sabemos a resposta. O fato de que ele perdeu para uma mulher, a diretora francesa – Justine Triet – que escreveu uma comédia dramática sobre uma mulher que é obrigada a enfrentar a acusação de ter assassinado de seu marido, é complexo de criticar. Em outras palavras, os jornalistas que cobrem entretenimento não acharam especificamente que o trabalho de Greta foi o melhor de 2023. A criação providencial do Prêmio de Bilheteria foi a consolação da noite, mas é da produtora da obra, Margot Robbie, e Greta só conseguiu falar algumas poucas palavras na carona da atriz. Talvez depois de tanta rejeição, o palco fosse o último lugar onde quisesse estar…

As duas vitórias significativas de Anatomia de uma Queda, na semana em que os votos para o SAG e o Oscar ainda serão anunciados, pode mudar as preferências nas premiações, embora Greta Gerwig esteja assegurada entre todas festas como indicada. A expectativa de vitória, no entanto, foi reduzida dramaticamente depois dos Golden Globes. A resposta final será no SAG Awards.
O que não mudou em nada nas premiações é a eterna disputa de popularidade e Arte, nem sempre combinadas unanimamente em uma obra só. Aliás, em geral, parece que uma cancela a outra. Em especial, na visão dos jornalistas e críticos, os votantes dos Golden Globes. Não vi injustiça em nenhum dos vencedores da noite, mesmo errando em alguns palpites. Vou falar sobre a festa à parte.
Sobre Greta? Ela vai ficar bem. A resposta para quem a ignorou está nos bilhões que gerou com Barbie e o potencial que tem de ser novamente criativa no próximo trabalho. E que tenha aprendido a lição número 1 de casting… só avisando!
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