A ousada Mlle Parisot provocou conservadores britânicos e virou uma lenda

A dança clássica nasceu dos salões de baile da Corte Francesa, mas foi evoluindo até o formato original ao longo dos anos. Foi apenas após a Revolução Francesa de 1789, que, para ter maior liberdade de movimento, as bailarinas abandonaram saias pesadas com cestos e os espartilhos, optando por vestidos flutuantes de estilo grego, que enfatizavam o corpo. Um pouco além da conta, os conservadores julgavam, em especial, a Igreja. Sem surpresa, por muito tempo, dançarinas eram comparadas à prostitutas e os passos que faziam nos palcos, um escândalo. Uma delas virou lenda, a Mademoiselle Parisot, como ficou conhecida.

Nascida na França, sua origem é um tanto polêmica. Alguns registros a colocam como filha de um escultor, outros, um jornalista, Pierre-Germain Pariseau, que foi guilhotinado durante o o período de terror da revolução por ser confundido com um apoiador monarquista. Seja como for, ela estreou nos palcos como bailarina e cantora de ópera aos 14 anos, mas, aos 19, se mudou para Londres onde suas apresentações rapidamente viraram o assunto da cidade.

Nos livros, ficou registrado que a voz de Rose Parisot era linda, mas o que a tornou lendária eram sua magreza, não usual naqueles tempos, mas que obviamente a faziam ser mais leve em seus movimentos. Seus trajes transparentes, com saias consideradas curtas para a época eram chamados por alguns de ‘vulgares’ mais ainda porque como os figurinos seguiam os modelos gregos, o tecido cor da pele era leve e frequentemente a alça caía e espunha seus seios nus durante a apresentação. Outro detalhe que distinguia Mlle Parisot das demais era sua virtuosidade pois levantava as pernas “mais alto que as outras”, ou seja, em vez de apreciar a Arte, o homens tratavam os balés como apresnetação de cabaré, ficando mais próximos do palco para ver o que ela revelava levantando as pernas tão acima do esperado.

A bailarina se apresentava no King’s Theatre e seu equilíbrio foi descrito como “positivamente mágico, pois sua pessoa era quase horizontal enquanto girava como um pivô na ponta do pé”. Pelas gravuras da época, podemos deduzir que o passo assinatura dela é um incomum para mulheres e visto com maior frequência nas variações masculinas, a Pirouette à la Seconde. O passo demanda uma perna levantada enquanto gira em um ângulo de 90 graus (ou mais alto), terminando com um passé. Sua apresentação de 1796 no balé Le Triomphe de l’Amour criou “um rebuliço” segundo os jornais. Logo ela era uma estrela em toda Europa.

Com a fama, chamou a atenção de alguns antagonistas. Embora dançasse frequentemente com Rose e Charles Didelot, que levariam o balé para a Rússia, era Parisot a mais citada e registrada em gravuras. Em 1798, Shute Barrington, bispo de Durham, denunciou um vestido que ela usou enquanto dançava como “indecente” e seus movimentos como “imorais”. No registro com Parlamento, no qual a questão foi tratada como uma ameaça dos bons costumes plantada com malícia pelos franceses na Inglaterra, ele argumentou que “os governantes franceses, embora desesperados em causar-nos qualquer impressão através do uso da força das armas, tentaram uma guerra mais sutil e alarmante, esforçando-se por reforçar a influência do seu exemplo, a fim de manchar e minar a moral dos nossos ingênuos jovens”. Segundo o bispo, “Eles [os franceses] enviaram entre nós várias dançarinas que, seduzidas pelas atitudes mais indecentes e pelas mais desenfreadas exibições teatrais, conseguiram, mas com muita eficácia, afrouxar e corromper os sentimentos morais do povo”.

Pois é. E ele emplacou a proibição das apresentações depois da meia-noite, o que significava que as danças – como passou a acontecer – eram interrompidas no meio ou canceladas, com os gerentes dos teatros precisando baixar as cortinas no horário afim de evitarem multas e fechamento do estabelecimento. Caricaturas do Bispo e de seu apoiador, o Duque de Queensberry, ficaram eternizadas por artitas como James Gilray, Isaac Cruikshank e Robert Newton, onde aparecem na primeira fila do teatro olhando por baixo da saia de Parisot.

Outra consequência imediata foi que a cor dos trajes dos dançarinos, até então rosa claro ou cor da pele, foram trocados para um branco menos provocante. Mas foi a censura do horário que provocou a reação da platéia. Não que Parisot se sentisse ameaçada pois em 1799 “surpreendeu” os fãs quando se vestiu com roupas masculinas para interpretar Lindor em uma produção de The Agreeable Surprise e sua “dança do xale”, em 1805, parte do balé La belle Laitiere, levou o público à loucura quando cortado no meio. Sengundo a administração, a cortina desceu porque era quase meia-noite e Parisot não teve tempo de concluir a dança. Causando fúria entre os pagantes que “jogaram todas as cadeiras dos camarotes no fosso, rasgaram os bancos, destruíram os lustres, pularam na orquestra, quebraram o piano forte e quebraram todos os instrumentos dos pobres intérpretes inofensivos” como resposta, foi um motim que gerou notícia. E não trouxe popularidade ao bispo.

Apenas dois anos depois, Mademoiselle Parisot se aposentou quando se casou com “um eminente florista-trabalhador”da Golden Square e passou a ser conhecida como Sra. Hughes. A essa altura, ela já era oficialmente milionária. Depois de algum tempo voltou para a França, acompanhada pelo marido. Acreditam que tenha falecido em 1845.

Sua história é fascinante, assim como sua contribuição para o que hoje vemos ser tão comum na dança clássica. Só o fato de que seu passo mais famoso é um dos mais complexos tecnicamente diz muito sobre ela no palco. Uma lenda cuja história nem a Igreja conseguiu apagar.


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