A colcha de retalhos de Napoleão

A história de Napoleão é efusiva para o cinema. Há séries, há filmes, mas ainda assim grandes diretores parecem obcecados com a ascensão de um imigrante que se tornou Imperador da França, dominou o mundo e terminou seus dias exilado, derrotado. Stanley Kubrick nunca terminou seu roteiro, portanto quando Ridley Scott anunciou seu próprio projeto, me empolguei. Com Joaquin Phoenix no papel título, parecia um acerto garantido. Mas me enganei.

O longa que chegou aos cinemas no final de 2023 é longo demais, confuso demais e pior, errado demais tanto em fatos históricos como elenco, trilha sonora… A proposta seria focar na história de amor entre Napoleão Bonaparte e Josephine, uma das mais conhecidas da História, mas nem isso conseguiu. A começar pela escolha da atriz: iria ser Jodie Comer, passou para Vanessa Kirby, ambas muito mais jovens do que a verdadeira Josephine quando conheceu o general seis anos mais novo. Ambas na casa dos 30, aparentam sua juventude enquanto Joaquin, na faixa dos 40, está bem distante dos 26 anos de Bonaparte. Faz MUITA diferença na narrativa porque a obsessão dele por ela também tinha a ver com o domínio emocional que uma mulher vivida tinha sobre ele.

Estranhamente Ridley tem à disposição um bom elenco que é desfilado como figurantes, e não há uma explicação ou aprofundamento nas razões políticas ou estratégicas que fizeram de Napoleão o gênio militar admirado e estudado até hoje. O que resta é uma sequência de situações, hora de batalhas, hora do casal se desentendendo e mal nos acostumamos quem é quem ou quando as coisas acontecem. Confuso, vazio, sem conexão alguma com a platéia.

Diante dos erros históricos das batalhas falar da opção de sugerir que a história de amor entre o casal era tudo menos ‘amor’ é ousada, mas tampouco explorada. Vanessa Kirby está em estado perpétuo de torpor, silêncio, submissão, nojo e até medo, mas com tão poucas falas sua Josephine é uma esfinge. Nenhum homem a empolga, nenhuma situação parece abalá-la. O que acaba virando uma sugestão machista de uma mulher que usa o sexo como moeda e cujas cenas acumulam para colocá-la como uma devassa deliberadamente traindo o marido. Que nas cartas que sobreviveram aos dois, sabíamos que Napoleão era mais apaixonado, mas quando ela repete as palavras das cartas dela, soam estranhas que venham de uma mulher tão indiferente.

Há disputas entre especialistas quanto à verdadeira motivação de Josephine para se unir à Napoleão, portanto a sugestão do filme que a mostra como uma mulher prática, é uma opção justa e potencialmente interessante. Ela era efetivamente uma mulher prática e ousada, mesmo para a época. Seria muito mais interessante ter explorado essa vertente, eu concordo. Mas ela praticamente entrou muda e saiu calada. Infelizmente.

Fiquei arrasada com a escolha do roteiro. É um filme a ser esquecido rapidamente. A história dos dois merecia mais. Mais ainda, a de Josephine.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário