La Côte Basque: o templo e passarela dos ricos e famosos

La Côte Basque praticamente virou um código entre os VIPs e intelectuais para marcar a derrocada da vida do jornalista e escritor Truman Capote nos anos 1970s por ser o título do capítulo mais polêmico do autor em seu último livro. Mas é também o endereço de um dos mais renomados e históricos restaurantes de Nova York.

Capote, que reinventou o jornalismo com seu brilhante e espetacular À Sangue Frio, que imortalizou a superficialidade de fashionistas e alpinistas sociais em Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tyffany’s), e que trucidou a alma das socialites e “influencers” com seu livro Súplicas Atendidas (Answered Prayers), publicado postumamente, transformou o restaurante como cenário de uma arena de egos e fofocas, algo que apavorou as pessoas que ele descreveu tão precisamente em sua obra. A história dos bastidores de tudo isso é tema da série produzida por Ryan Murphy e dirigida por Gus Van Sant, Truman vs Os Cisnes, da StarPlus. O que também é fato é que o La Côte Basque foi por muitas décadas “o” lugar para ver e ser visto em Nova York, o templo dos ricos e famosos, e o cenário perfeito para o drama que apenas a mente mordaz de Capote conseguiria imortalizar.

O restaurante fechou as portas há 20 anos, mais precisamente em março de 2004, depois de 45 anos como referência em uma exigente cidade como Nova York. “As mãos se torcem. Os comensais choram. O Novo é amaldiçoado. A desgraça é inferida. A escuridão desce”, escreveu o New York Times quando o fim foi oficializado marcando o adeus de uma era. Sem surpresa, o local é tão marcante para a cidade que desde 2016 é o endereço do popular Le Benoit, do chef Alain Ducasse, que se espelhou no antecessor para ganhar novos clientes surfando na tradição e apresentando preços mais acessíveis. Será difícil alcançar a aura de glamour que o La Côte Basque despertava. 

O ‘original’ foi inaugurado no final dos anos 1950s por Henri Soulé, no endereço de 60 W 55th Street, em Upper East Manhattan, a meros quarteirões das casas e apartamentos dos mais ricos e famosos da época. Era em especial favorito de Jackie Kennedy Onassis, a mulher mais admirada e imitada dos Estados Unidos, para citar apenas uma das mais conhecidas frequentadoras. A fama do local era tanto por sua comida de french cuisine como pelas mesas estrategicamente e “elegantemente dispostas” com toalhas e arranjos de flores (que tinham um custo semanal estimado em mais de 5 mil dólares), assim como as paredes decoradas com imagens de “murais franceses à beira mar”. Pode-se facilmente estimar, atualizando os valores, que um jantar custaria uma média de 400 dólares (sem incluir o vinho). 

Henri Soulé ficou conhecido como”o Michelangelo dos restaurantes franceses na América”, também dono do Le Pavillon, e adorado pela elite americana de NYC. Dizem que foi ele que “inventou ” a estratégia e o termo de “Sibéria” para chamar as mesas ruins onde colocava os clientes menos populares. Com ele, o La Côte Basque rapidamente se tornou o local mais in da cidade e seria justamente lá também que Soulé morreria, por conta de um infarto fulminante, em 1966.

Tudo isso é resumido com genialidade por Truman Capote em seu livro, que eternizou o restaurante na literatura. Isso porque por conta da localização e exclusividade, o La Côte Basque era o local onde todas as ricas amigas do escritor se encontravam para almoçar, jantar e principalmente, fofocar. Foi lá também que , como veremos na série Capote Versus Os Cisnes, elas também planejaram a vingança pela traição dele: o cancelamento. (Pois é, não foram os millenials que inventaram essa vingança, mas sim os cisnes de Capote).

O capítulo La Côte Basque 1965 foi o terceiro do livro a ser publicado pela revista Esquire antes da da obra chegar ao público, e também o mais polêmico de todos. Nele, Capote cita disfarça sem sutileza os nomes de algumas pessoas facilmente identificáveis para desfilar julgamento e até maldade sobre suas amigas. Poderia se argumentar que ele foi sincero, mas recomendo a leitura da obra pois o estilo de texto dele é único e descreve o ambiente, o clima e as pessoas que frequentavam o local com uma precisão que nem uma fotografia conseguiria captar. Por isso mesmo foi tão dolorido para elas.

Com o nome do local sendo associado aos escândalos que Truman Capote divulgou, era de se esperar que passasse a ser evitado, mas não isso aconteceu (embora aposto que o escritor só tenha conseguido jantar na “Sibéria” depois disso). Em 1979, Jean-Jacques Rachou comprou o estabelecimento e manteve sua reputação como um dos melhores da cidade até que fechou as portas em 2004. Tendo sobrevivido à tanto, o que eventualmente decretou o fechar das portas do local foi mesmo a crise econômica dos Estados Unidos. Na época, a despedida do Le Côte Basque foi comparada a um “dinossauro morto”, abrindo lugar para novidades. 

Certamente a reconstituição de época do restaurante vai despertar nova curiosidade sobre o local. A popularidade de restaurantes como Daniel (que trabalhou no Le Côte Basque) ou outros mais acessíveis como Balthazar, Café Luxembourg e até mesmo Le Benoit ainda não chegam perto do que o original representou em seu tempo. “Acho que Nova York agora lamenta o desaparecimento da comida clássica”, disse Jean-Jacques Rachou, em uma entrevista perto da reinauguração do restaurante de Alain Ducasse. “Mas depende de como você interpreta e em que tipo de ambiente. Fiquei preso a clientes que não queriam estar na mesma sala com pessoas vestindo jeans,” ele disse. E os Cisnes o aplaudiriam.


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