A série sueco-dinamarquesa The Bridge estreou em 2011 deu início ao movimento nórdico noir que sacudiu as TVs mundiais. O conceito de usar coproduções, um cenário gelado e soturno e policiais de diferentes países trabalhando juntos para solucionar um crime – o corpo é encontrado bem na fronteira, o que legalmente força a investigação conjunta – serviu como uma luva para países europeus. A série foi regravada/adaptada em vários países, incluindo uma versão britânica/francesa, a The Tunnel. Portanto, quando a Austria e a Alemanha vieram com Der Pass (Pagan Peak) em 2018, já era um tanto batido sugerir forças tarefas e detetives (como sempre, um homem e uma mulher) batendo a cabeça para chegar ao assassino. No entanto, Der Pass conseguiu furar a barreira mais uma vez e é uma das séries mais bem construídas dos últimos anos, uma que chegou ao resto do mundo tanto pela Amazon Prime Video (resto da Europa) como na América via HBO Max. É imperdível.
Vou discutir abertamente todas as temporadas em detalhes, ou seja, spoilers. Sugiro evitar ler ANTES de ver porque é tão raro que a gente tenha conteúdo instigante sem que seja depurado em detalhes em todos os lugares que não temos mais surpresas. De Pass é todo sobre surpresas e é gostoso descobri-las como os roteiristas querem. Volte aqui depois. Eu maratonei as três temporadas em dias, aposto que fará o mesmo. Dito isso, vamos à análise.

A fórmula: quando não linearidade é bem usada
Quem lê Miscelana sabe que uma das coisas me mais reclamo nos últimos tempo é o uso do roteiro não-linear para contar uma história. Der Pass usa a fórmula, mas com firmeza e propósito. Quando costura, muda nossa perspectiva dos fatos, sem ter inventado nada para nos confundir excessivamente. Mesmo quando percebemos que há três linhas do tempo em todas temporadas, elas são construídas de forma que ajudam a montar o quebra-cabeça, mas o controle está nas mãos dos roteiristas. Sempre.
A citação de The Bridge – que meio que deixou uma parte meio cínica e receosa de acompanhar Der Pass – é apenas isso, uma leve inspiração.
A história (as três temporadas são amarradas) começa quando um cadáver é encontrado na fronteira entre a Áustria e Alemanha e os detetives Ellie (Julia Jentsch) e Gedeon (Nicholas Ofczarek) se conhecem. Eles não poderiam ser mais opostos em gênero e grau: ela doce, idealista e positiva enquanto ele é cínico, grosseiro e corrupto. No entanto ambos são detalhistas e obcecados, rapidamente e estranhamente se entendem, com longos silêncios e o objetivo comum de identificar e prender um serial killer que usa lendas pagãs e rituais satânicos como cobertura de seus crimes cada vez mais violentos.

Os segredos de ambos de alguma forma os unem também, pois outra coisa que Gedeon e Ellie têm em comum é não julgar ninguém. Ela tem um caso com o chefe casado e ele é drogado, convivendo com um trauma (que só será revelado na terceira temporada). Outra coisa que os une é que quando um suspeito é preso, eles sabem que é a pessoa errada e tentam em vão seguir na busca pelo assassino, sem conseguir. O problema é que o serial killer – Gregor- se apaixona pela policial e a vida de Ellie corre sério risco. É Gedeon que a salva, pois ele identifica e prende Gregor, mas apenas depois que o vilão tinha tomado veneno e servido a bebida para Ellie. Gedeon a leva para o hospital e a colega sobrevive, mas em seguida ele mesmo é vítima de uma emboscada. Bandidos para quem ele tinha trabalhado mandam matá-lo como vingança e Gedeon é baleado em um encruzamento, aparentemente morrendo sem ajuda.
Personagens bem construídos sem maneirismos exagerados
Há elementos interessantes que foram evitados em Der Pass. Primeiro não há romance entre os protagonistas e quando há fricção entre eles é plausível pois já entendemos suas personalidades contrastantes. Também é plausível a química entre eles, que é uma intimidade crescente de carinho, admiração, confiança e amor, mas um amor fraternal e nunca distraidamente romântico.
Enquanto Gedeon é nojento – gordo, sem banho, bêbado e drogado, mancando e fumante – Ellie é uma mulher bonita sem forçar sua feminilidade, com pouca vaidade e tampouco abandonada. É crível. A jornada de ambos é oposta, como esperávamos: Gedeon recupera fé e motivação para viver e Ellie vai endurecendo, ficando mais cínica, perdendo sua graça. Seu vermelho e cabelos soltos da abertura vão sendo trocados por cinza e cabelo preso (e até curto na segunda temporada), ela nunca mais volta a ser aquela que conhecemos, algo que Gedeon a alerta desde o início que aconteceria. Ele sabe que ‘aquela’ Ellie existe, mas não a força a voltar. É um carinho interessante de entender o processo de dor, de trauma e de dificuldade de lidar com o luto.

Por isso, quando eles se reencontram na segunda temporada esse arco ainda está em andamento. Um ano depois da prisão e morte de Gregor, Ellie está uma mulher sofrendo de transtorno de estresse pós–traumático (TEPT) mas ainda trabalhando. Gedeon foi salvo e operado, mas ainda tem uma bala em sua cabeça que apenas poucos profissionais ousariam ou poderiam operá-lo. Mesmo colocando sua vida em risco, ele volta ao trabalho pois mais uma vez crimes que unem Austria e Alemanha dependem de uma força-tarefa. De novo crimes ritualísticos estão sendo a fachada de algo mais sinistro, mas Gedeon e Ellie não conseguem reavivar a parceria anterior pois ela está muito debilitada emocionalmente. É a detetive júnior Yela, que tem Ellie como mentora e Gedeon como conselheiro que mantém o vínculo dos dois.
Obviamente há um outro serial killer que tortura, estupra e revive suas vítimas antes de matá-las, usando rituais folclóricos para confundir, mas o problema aqui é que agora o (s) culpado (s) são de uma família ultra poderosa na região. Nem políticos ou policiais são imunes à pressão e corrupção e aqui teremos nossa dupla seguindo lados opostos de forma surpreendente, quando Gedeon, que tinha mudado por causa de Ellie, decide voltar à sua pior versão quando se vende para que a bala de sua cabeça seja operada e retirada, acobertando o verdadeiro criminoso. Dá um frio na espinha e um aperto no coração o confronto dos amigos que viram inimigos, que terão mais uma oportunidade para se enfrentarem na terceira e última temporada.
As temporadas se conectam, os destinos se cruzam
Vou confessar: a primeira temporada é ótima, a segunda é eletrizante, mas a terceira, embora conclusiva, é arrastada. A essa altura, mais uma onda de crimes ritualísticos e satanistas é quase uma piada, já estamos mais do que acostumados com a fórmula das temporadas anteriores e ficamos com a sensação de perder tempo com o jeito que as peças do quebra-cabeça são distribuídas. O que segura é nossa curiosidade sobre a relação entre Ellie e Gedeon, nenhuma das violentas e absurdas mortes fazem sentido ou despertam excessiva curiosidade.
Se passaram seis meses desde que romperam e Ellie segue obstinada a provar que Gedeon ajudou ao assassino de Yela escapar da Justiça. Como Salzburgo parece ser o centro satanista do mundo, mais uma vez eles têm que trabalhar juntos para identificar outro serial killer, porém dessa vez nem as mortes ou as vítimas parecem ter alguma conexão. Não ajuda que Ellie esteja mais obstinada com Gedeon do que o assassino e que Gedeon esteja mal de saúde (no lugar da bala surgiu um aneurisma) e empenhado em uma vingança pessoal que o levou de volta às drogas.

O relacionamento turbulento entre os dois é a fonte de todo suspense. Descobrimos que Gedeon ficou nesse espiral autodestrutivo porque foi abusado sexualmente quando criança e que passou a vida tentando capturar o pintor pedófilo que destruiu sua vida e de muitas crianças. Quando Ellie entende que esse trauma irrecuperável é o que destruiu a alma de seu ex-amigo, se sensibiliza. Igualmente ela descobre que Yela e Gedeon foram mais do que amigos, portanto a dor dele de ter traído a ex-amante é maior do que Ellie poderia ter antecipado. A partir daí, ela o ajuda, sem julgamentos, sem pensar duas vezes. Mas tarde demais.
Porque são gênios, Ellie e Gedeon conseguem decifrar os crimes, mas não conseguem conectar a mente mandante – um homem que vive nas florestas e manipula pessoas vulneráveis para matar por ele – ao motivo dos crimes. Quando está perto, Gedeon colapsa e é levado para o hospital. Lutando contra a morte, ele finalmente descobre a razão e o método que provocou a onda de mortes, mas é tarde demais. Tanto o criminoso desaparece como Gedeon morre, nos braços de uma Ellie desconsolada.
Um final aberto para alguns, mas definitivamente emocionante
Ellie termina a série de novo cinza, cínica e emotiva. Ela elimina todas as provas contra Gedeon, para evitar que a verdade venha à tona. A cena final, dos dois dançando ao som do cantor Wolfgang Ambros, o favorito de Gedeon, é um soco no estômago para nos fazer efetivamente chorar.
Ellie sai do hospital chorando, após os médicos tentarem reavivar Gedeon. Se livra das armas e do pendrive que acabariam com a carreira do amigo e volta para um café onde o encontra limpo, sorridente e feliz. Está tocando a canção I Drah Zua, que confirma o pior: é uma despedida.
A canção fala do jogo da vida, das consequências de cada escolha e termina com o cantor se despedindo, que sua parceira encontrará outra pessoa para uma nova partida. Nesse trecho, vemos Ellie perder o sorriso, a segurar as lágrimas. Ela nunca mudou de roupa enquanto Gedeon está todo arrumado – não há sutileza ou dúvida na mensagem – nem os roteiristas nos avisam da passagem do tempo. Infelizmente Gedeon está morto. Mas está em paz, está leve e é o que a doce Ellie quis manter ao preservar sua memória. Com defeitos ou não, ele era um detetive genial. E a vida sem ele, mesmo sujo, irritante ou bêbado, não será mais a mesma.

Eu evitei a discutir os crimes ou as investigações porque a alma de De Pass era justamente como Ellie e Gedeon se transformam diante da violência e incoerência da vida. A série não reinventa o gênero noir, drama ou até suspense, mas é inteligente, intrigante e envolvente, provando que não é preciso inventar a roda, mas saber fazê-la girar. Um grande conteúdo que vale cada segundo. Ellie e Gedeon estão no panteon dos grandes. Inesquecíveis.
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