Nicole Kidman é imbatível

Dizem que 50% da carreira de um ator bem sucedido não tem a ver com sua habilidade técnica, mas com sua percepção e escolha do material que vai trabalhar. E de fato, se observar as carreiras dos poucos que não derrapam, veremos que a consistência do trabalho está no conteúdo que permite uma grande atuação. Em um mundo no qual vivemos perguntando e sugerindo quem seria ‘a nova Meryl Streep‘ já temos há anos a nossa resposta: Nicole Kidman. A série Expatriadas, da Amazon Prime Video, é apenas mais um veículo onde a atriz mais uma vez nos mostra a razão de ser a melhor atriz em atividade em Hollywood no momento. Está poderosa.

Expatriadas é a adaptação do livro de 2016 com o mesmo título, escrito por Janice Y.K, e é um drama daqueles que nos deixa desconfortável 100% do tempo. Seguimos as histórias de três americanas morando em Hong Kong e os conflitos que movem suas vidas longe de casa. É mais uma série que aposta na não-linearidade para contar a história (eu até bocejo ao ressaltar o detalhe), mas aqui o propósito é o tradicional, em especial em relação à Margaret (Nicole Kidman), uma arquiteta que está emocionalmente quebrada enquanto mantém uma fachada de segura, que tem uma relação dolorida com os filhos e com o marido, Clarke (Brian Tee). A família deixou Nova York pela China graças ao trabalho dele e, com isso, Margaret fica frustrada pois atrapalhou sua carreira, Um terrível acidente altera a vida deles para sempre, levando Margaret à um sofrimento velado e distante de todos. Tem algo a ver com uma criança chamada ‘Gus’, que só é explicado no segundo episódio, revirando nossa alma.

Desculpem o SPOILER, mas como estou focando na atuação de Nicole, é preciso. Gus, obviamente, é (ou foi) o filho de Margaret e Clarke e o elo entre as três mulheres. Como Hilary (Sarayu Blue) a vizinha, que também tem uma relação tensa com Margaret. Hilary e seu marido, David (Jack Huston), tem um casamento fracassado, mas ainda não sabemos toda extensão do problema. E temos a narradora da série, Mercy (Ji-young Yoo), a americana de origem coreana que hoje trabalha como catering, que tem um trauma sério que a impede de seguir em frente com sua vida. Claro que tem a ver com Gus. Vou evitar dar ‘o que’ acontece para não estragar 100% a virada da história.

Nicole não apenas está estonteante em mais um papel de mulher privilegiada sofrida como é a produtora da série. Ela comprou os direitos do livro antes mesmo de roubar a cena em Big Little Lies e trouxe a sensível diretora Lulu Wang para dar a coesão necessária para uma história tão dolorosa. A pandemia da COVID-19 foi um obstáculo ainda maior para a produção que tinha que rodar cenas na cidade Chinesa, em especial despertando reações raivosas quando a atriz e vários membros da equipe obtiveram uma isenção das regras de quarentena que se aplicavam a todos os demais na chegada a Hong Kong. Se não fosse assim, nem em 2025 estaríamos vendo Expatriadas.

A série faz críticas sociais e políticas, mas o foco principal é o drama da dor, mostrando quem causa e quem sente de igual forma, sem colocá-los em posições antagônicas. Há críticos que reclamam da insensibilidade cultural de ter uma trama rodada em Hong Kong quando poderia ser “em qualquer outro lugar”, mas não importa. O fato é que a história quer justamente colocar a questão de que pessoas que vivem em outro país e cidade, mesmo com privilégios, não estão conectados localmente e tampouco podem voltar para casa sem estarem diferentes. É um limbo e aí sim é importante que seja o mais “exótico” possível, mesmo que ‘fácil’, para ressaltar a desconexão. E ainda assim o que fez notícia é que Expatriadas foi censurada em Hong Kong por mostrar cenas dos protestos de 2014 onde a população demandava a volta da democracia (desde 2000, a cidade que era dos ingleses foi ‘devolvida’ à China).

Não fosse mais uma vez o domínio de Nicole Kidman em fazer papéis de mulheres lidando com luto e trauma, Expatriadas teria menos impacto dramático. Sua entrega ao turbilhão de culpas e arrependimentos que Margaret sofre ecoam com o público com a empatia que apenas a australiana consegue despertar. Nicole não tem receio de personagens desagradáveis, complexos e falhos. O abalo emocional inimaginável que a personagem enfrenta me fez lembrar que ela estava igualmente maravilhosa no filme Lion, um espelho de Expatriadas de alguma forma. Vocês entenderão depois de ver os episódios. O mais importante é ver como Nicole está criando um universo de mulheres em reconstrução emocional, uma viagem desconfortável de autoconhecimento, mas também, de esperança e honestidade. É mais uma indicação certa ao Emmy.


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