Charles III e um reinado marcado por desafios

Rei Charles III está com a Coroa há meros 9 meses e sua saúde está comprometida. O anúncio de que tem câncer, sem especificar mais do que isso, surpreendeu o mundo e súditos pois como Príncipe, ele passou mais da metade de sua vida à espera da decisão de sua mãe, a Rainha Elizabeth II se ela cumpriria a promessa de reinar até a morte ou não. Ela foi uma mulher de sua palavra e bateu o recorde no trono: nada menos do que 70 anos.

Não há expectativas matemáticas de que o reino de Charles, hoje com 76, consiga chegar perto de sua antecessora, mas a estimativa razoável de pelo menos 20 anos (todos Windsors são reconhecidamente longevos). Porém, quando em menos de um ano uma doença tão perigosa como câncer é tornada pública, pode mudar tudo. É apenas natural a especulação.


Se Charles III, cuja a espera como herdeiro foi a mais longa da História na Inglaterra, terá um dos reinos mais curtos é o que vem movimentando os especialistas e jornalistas nesse início de 2024. Em parte porque caberá à ele decidir, claro, uma vez que suas palavras ao se tornar Rei foram “me comprometo solenemente, durante todo o tempo que Deus me conceder, a defender os princípios constitucionais que estão no coração da nossa nação”. Ele foi levemente mais vago que sua mãe que prometeu “dedicar sua vida toda” à Coroa. “O tempo que Deus conceder” é uma referência à vida toda, mas tem uma abertura técnica para considerar abdicar se achar que for melhor para o Reino. Especialistas sugerem que também diferentemente de Elizabeth II, que nunca fez de Charles oficialmente regente, que ele possa fazer isso com seu filho, William, fazendo uma transição mais clara do que a que ele viveu com a Rainha. Será?

Desde que assumiu a Coroa, Charles III vem tentando arduamente a mudanças na Monarquia que esbarrava com o temperamento taurino de sua mãe, avessa à mudanças e apegada à tradição. Constância era a estratégia de Elizabeth II e algo que ele jurou preservar (“Nossos valores permaneceram e devem permanecer constantes”, disse no discurso), mas que também vem tentando ajustar.

Por exemplo, sob sua regência há menos membros oficiais da Família Real trabalhando, e ele tem sido mais transparente – falou da cirurgida da próstata, agora do câncer- ao mesmo tempo que mantém o mantra do “nunca reclame, nunca explique” estabelecido pela Rainha. Mas é justamente essa atitude mais admirada de Elizabeth II que não é popular entre Monarquia e a Geração Z, adepta das redes sociais, discursos inclusivos, opinar (passionalmente) sobre tudo e etc. Basicamente com o mantra invertido de ‘reclame sempre e explique tudo‘ que nem Charles ou William foram treinados para seguir.

Um dos princípios da Rainha que era moderno em seu tempo e agora praticamente uma obrigação é o que ela dizia: “precisava ser vista para acreditarem nela”. Para Charles, aparecer em público é uma realidade que ele aprecisava, mas sei herdeiro, William, tem hojeriza e trauma. Com o diagnóstico que vai forçar ao Rei evitar as aparições públicas, começa de sopetão a demanda para o Príncipe de Gales, que contava de ter mais tempo para ir se acostumando com a exposição. 

É fato que a imagem pública da Família Real tem sido justamente construída através de aparições em inaugurações de fitas, eventos de gala, cerimônias de investidura, assim como redes sociais, mas há todo o trabalho realizado atrás das paredes do castelo (reuniões com políticos, com o Primeiro Ministro, assinatura de documentos, etc) que demanda do tempo e saúde do Monarca. O que está sendo estabelecido é que William, a Princesa Anne, Príncipe Edward e Princesa Sofia, ao lado. da Rainha Camilla, incluirão mais compromissos públicos de Charles às agendas deles e enquanto o tratamento do câncer estiver sendo feito. Isso certamente significa o ano de 2024, que mal começou.

Os tempos têm sido duros para a Família Real, ninguém duvida e não entrarei em detalhes. As rusgas pessoais de seus filhos e noras, a sombra do fantasma de Diana acendido pela série The Crown, o escândalo envolvendo seu irmão, Andrew, são apenas algumas das complicações mais públicas.


Para piorar o cenário, William tem apostado na estratégia que funcionou para seu pai e Camilla, que passaram por 30 anos de imagem negativa para recuperarem a popularidade recentemente. Quem fica à frente dos holofotes para o marido é sua esposa, Catherine, que repentimanete saiu dos compromissos sociais e anunciou que passaria por um procedimento cirúrgico no abdomem e só voltaria a circular depois de abril. Um susto completamente inesperado diante de um dramalhão que colocou a princesa e seu sogro no olho do furacão na virada do ano, quando foram citados em um livro como racistas. Como alguns argumentam, o silêncio de ambos custou suas saúdes: dias depois da internação de Kate o próprio Rei passou por uma cirurgia na próstata. Dez dias depois, já em casa e aparecendo em eventos, avisou que foi diagnosticado um câncer. Como sabemos, é impossível não especular.

No primeiro ano como Rei, Charles participou de 425 compromissos reais, ficando apenas atrás de Anne que esteve em 457. Catherine era a que estava absorvendo muitos das aparições, mas William – que aparentemente quando mais jovem questionava seu destino – terá que abraçá-lo. Agora. Imediatamente. Já.

Especialistas se questionam se, entre as mudanças de reinados, reduzir essas aparições não seria o ideal, embora isso vá contra o hábito dos jovens que fazem de suas redes sociais reality shows particulares.

A ironia de tudo é que mesmo sob o fantasma da impopularidade plantada por Diana, Charles nunca se incomodou e sempre gostou de estar em público. Para Camilla e William, no entanto, é um pesadelo. Sem surpresa, o rompimento deles com Harry só dificultou ainda mais uma demanda dolorosa para eles, sendo que Camilla tem 30 anos de experiência para se apoiar. Camilla é popular e querida de uma geração que não conviveu com Diana e que mesmo doutrinada por The Crown, já teve acesso à uma imagem bem distinta da que seus pais e avós tiveram quando Diana revelava os bastidores de seu casamento infeliz. Para William, que foi treinado pessoalmente por Elizabeth II e se espelha nela, é mais desafiador.

Nos últimos anos, meio que para entendê-lo, o público em geral (não apenas os súditos) tentam decifrar o que move o futuro Rei, que causas ele se dedica, como ele é como líder. Charles sempre usou a bandeira do meio-ambiente mesmo quando ela estava longe de ser popular. Diana abraçou os doentes da AIDS. Camilla às sobreviventes de violência doméstica. Catherine defende as causas de saúde mental, especialmente com crianças. E William? As duas mais claras são a de seguir a vertente paterna sobre mudanças climáticas e a que aprendeu com sua mãe, combater a falta de moradia. Mas não é ainda diretamente associado a elas, sendo que se assumir mais compromissos reais, terá ainda menos tempo para se dedicar à qualquer causa específica. Seria bom ou ruim? A juventude o julgará, mas como qualquer atividade social esbarra com política – e a Realeza não pode interferir nesse campo – como equacionar as cobranças?

Se Harry tem uma vida muito pública, mesmo fora das funções de Príncipe, William é todo sobre sigilo. Não há fotos de seus filhos além das ocasiões públicas que são apresentados, não há notícias ou detalhes sobre Catherine. Se há algo no qual é totalmente ele mesmo é ser o oposto de seu pai, sua mãe e irmão, confortáveis com os flashes e entrevistas. Aparentemente, se ele puder, quando um dia for Rei, Catherine fará as honras e ele ficará restrito aos palácios e funções burocráticas. 

Obviamente é cedo demais para conjecturar sobre William como rei, ainda há o que avaliar como e qual será o legado de Charles III com a Coroa. Ao que parece, o câncer foi detectado cedo e o tratamento sugere ser o de radioterapia porque o Rei seguirá trabalhando, tudo que sugere que os previstos 10 a 15 anos no trono seguem como uma possibilidade plausível, talvez mesmo 20 anos.

Mas o carma dos Windsors é um tanto claro, com repetições muito próximas e constantes a começar pelo exemplo relativamente recente. O avô de Charles III, George VI, só foi Rei porque o irmão dele abdicou do título para se casar com uma americana divorciada. Mesmo assim, George VI reinou por apenas 15 anos porque um câncer no pulmão tirou sua vida. Elizabeth II, que esperava só ter que lidar com a sucessão pelo menos 20 anos, se tornou Rainha aos 25. E isso, assustadoramente, na mesma data de hoje, há 72 anos. Mesmo que muitos tentem comaparar William ao pai, é com a avó que claramente sua vida está ligada e espelhada. Pelo menos ele hoje já tem 41 anos e tem mais estrada que ela quando se viu jogada na função que mudou sua vida.


Nada define hoje que o reinado de Charles III venha a ser encurtado, nem a história de sua família ou previsões de Nostradamus. O que é indiscutível é que certamente já é um dos mais turbulentos dentro da Família Real.

Curiosamente para os que duvidaram dele (mais uma semente plantada por Diana), seu posicionamento firme, mas aberto, tem sido uma importante âncora em tempos tão conflitantes, particularmente dentro de seu próprio palácio. A lembrança de sua mortalidade assusta mais aos monarquistas do se esperaria há alguns anos. Até porque a conta histórica que chegou para Elizabeth II, está agora na mesa de Charles III e estamos sem saber como vai lidar com isso. Mesmo sumindo da cena pública por enquanto, ele continua sendo o soberano constitucional plenamente investido com todas as atividades de sempre. Seus representantes oficiais agora são Rainha Camilla e Príncipe William, depois de abril terá também Catherine. Estarão todos acompanhando a História sendo definida diante dos nossos olhos.


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