Os 115 anos de Carmen Miranda

Carmen Miranda tinha apenas 46 anos quando faleceu em agosto de 1955, em Hollywood. Seu corpo sem vida foi encontrado no corredor de sua casa em Beverly Hills, vítima de um ataque cardíaco, segundo o laudo médico.

Brasileiros têm um misto de rejeição e orgulho dela, que foi a maior estrela latina internacional em seu tempo, e, até hoje, é uma das imagens mais famosas do país que adotou como seu: o Brasil.

Nascida há 115 anos, em Portugal, Maria do Carmo Miranda da Cunha veio com a família para o Brasil com apenas um ano de vida, portanto, é brasileira. Foi no Rio de Janeiro que cresceu, adorando ópera (por isso o apelido de “Carmen”) e trabalhando inicialmente como chapeleira, na Lapa, centro da cidade.

O apelido “Carmen” e uma portuguesa criada no Brasil

Cantar era sua vocação, dizem que “cantava o tempo todo”, e sonhava com os palcos desde sempre. Em 1928, com apenas 18 anos, já tocava na Rádio Roquete Pinto, gravando o samba Não Vá Sim’bora, e os  sucessos Dona BalbinaTriste Jandaia, Barucuntum e Iaiá Ioiô. Mas foi com a clássica Taí que virou estrela, vendendo nada menos do que 35 mil cópias em 1930. Imediatamente passou a ser “a maior cantora do Brasil”.

Os anos 1930s marcaram a Era de Ouro do Rádio e Carmen Miranda era uma de suas maiores estrelas. Era uma questão de minutos que ela chegasse aos cinemas, cujos musicais também viviam seu auge. Gigante nas telas e nos rádios, diminuta em sua estatura real, ganhou o apelido de “Pequena Notável” e estava pronta para conquistar o mundo.

O visual de “baiana”, que viria ser a assinatura de Carmen, assim como seu fantasma, surgiu no filme brasileiro de 1939: Banana da Terra, onde canta uma de suas canções assinatura, O que é que a Baiana Tem, já acompanhada pela banda Banda da Lua. 

Foi o período no qual a política americana do Estado Novo queria abraçar a América do Sul, e Carmen (ao lado de Zé Carioca, da Disney), foi a personagem perfeita para a propaganda e obviamente, Hollywood.

Como Carmen Miranda passou a ser a ‘baiana’ com bananas e frutas na cabeça

Foi Lee Schubert, que dominava a Broadway, que viu Carmen Miranda nos palcos brasileiros e percebeu que ali tinha um potencial que o mundo precisava descobrir. Só demorou um pouquinho mais porque ela insistia que o grupo Bando da Lua estivesse sempre com ela. Pouco antes da Segunda Guerra Munial “começar”, em 1939 – também o melhor ano do cinema americano – Carmen desembarcava em Los Angeles (para não voltar mais).

O exotismo das roupas dos gestos, da voz e das canções de Carmen foi uma paixão imediata nos Estados Unidos, mas uma vergonha para o Brasil. Uma baiana com salto plataforma (para compensar a altura), com frutas na cabeça, muitas pulseiras e colares, briguenta e de sotaque forte não era nem de longe a imagem que se esperava dela. Com Carmen, o Brasil virou essa imagem caricata e estereotipada que mesmo mais de 80 anos, persiste.

Sim, Carmen teve ‘essa’ força, mas esse carma. Quando voltou para uma apresentação em 1940, já encontrou uma platéia fria e irritada, que a consideravam ‘americanizada’, o que virou uma canção dela (Disseram que voltei Americanizada). A essa altura, Carmen Miranda já era uma lenda de Hollywood.

Primeiro a Broadway, depois Hollywood

Schubert primeiro levou Carmen para Broadway, onde virou febre. Em 1940, assinoucom a 20th Century-Fox e basicamente repetiu a apresentação dos musicais dos palcos em seu primeiro filme, Serenata Tropical (Down Argentina Way), que igualmente foi sucesso nas bilheterias americanas.

Serenata Tropical foi o primeiro da série de filmes do período propagandista, que na verdade irritou mais do que agradou o público latino. O nome original, Abaixo os Argentinos, não tinha um argentino falando castelhanho e muitos retratados como preguiçosos, aproveitadores ou desonestos. Pior ainda, era uma brasileira, cantando em português, que era a estrela. A lista de problemas é longa, mas, como rendeu milhões, a memória do sucesso é que permanece.

Foram poucos anos (seis) de sucesso, mas definitivos. Apareceu em 14 filmes, oito deles como estrela e sendo reconhecida como Brazilian Bombshell. Em poucos anos, em 1941, Carmen Miranda foi a primeira latino-americana a ser convidada a colocar suas mãos e pegadas no cimento na frente do Grauman’s Chinese Theatre.

Quando terminou o anos 1945, a pequena cantora já estava entre as mulheres bem pagas do mundo, ganhando mais de 200 mil dólares por ano. Mas o declínio estava virando a esquina.

Tempos difíceis, polêmica e morte

Quando a Fox colocou Carmen Miranda em filmes em preto-e-branco, sua estrela sentiu. Sua presença foi sendo reduzida, nomes mesmos tipos de papéis e a novidade passou. E assim como subiu em Hollywood, caiu rapidamente. Carmen queria desafios, papéis diferentes do que vinha fazendo, mas não conseguiu.

A música, no entanto, ainda a tinha como estrel, fazendo tours e gravando discos. Como muitos artistas de seu tempo, ela usava barbitúricos constantemente para ter energia, mas imaginava ser controlado. Uma vez em Hollywood, passou a ser dependente.

Quando voltou ao Brasil, 14 anos depois de ter ido para os Estados Unidos, já estava com a vida pessoal e a carreira no cinema aos frangalhos. Tentou abandonar os remédios, mas sem muito sucesso, afinal emendou a viagem com uma turnê de seis semanas de shows initerruptos. Quando chegou em Los Angeles, discutia com a CBS de ter seu próprio programa semanal - o The Carmen Miranda Show – nos moldes de I Love Lucy. O teste era a participação em um episódio do programa de Jimmy Durante, que acabou sendo sua última apresentação.

Nos ensaios manifestou cansaço e falta de ar, mas achou que era fatiga. Quando subiu para o seu quarto, às três da manhã, estava feliz com os planos para o futuro. Mas, aos 46 anos, não conseguiu. Se preparando para dormir, aparentemente teve um ataque cardíaco. Ela não tinha histórico de problemas cardíacos e só sinalizava estar com uma breve bronquite. Seja como for, não sobreviveu.

Sessenta mil pessoas compareceram ao seu velório no Rio, em 1955 e cerca de meio milhão de pessoas, algumas vezes cantando seus suvessos. acompanharam o enterro. Ainda é uma das maiores manifestações públicas da história da cidade até hoje. Seu museu, no entanto, inaugurado em 1976 no Aterro do Flamengo, é quase esquecido.

Muitos associam a queda de sua popularidade ao casamento com David Sebastian, um produtor que passou representá-la, mas que fez maus negócios e contratos, além de agredi-la fisicamente e ter problemas com álcool. As tentativas frustradas de ser mãe também contribuíram para depressão e incertezas pessoais e profissionais. 

No ano de seu 115º aniversário fica a homenagem atrasada à estrela. E a torcida que sua biografia, de alguma forma, ganhe espaço e forma para recuperarmos uma narrativa: a de uma pequena mulher de um metro e meio de altura, que, pelo bem e pelo mal, é até hoje um ícone cultural. Algo certamente, notável.


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