Há alguns fatos em True Detective que são incontestáveis. A primeira temporada, com seus problemas que falarei em seguida, é a melhor de todas. Impactante, amarrada e bem atuada, nos deu esperança de uma super franquia na MAX (na época, HBO). As demais, bem, elas nos decepcionaram.
No décimo ano de seu lançamento, True Detective se vê em uma encruzilhada de ainda ter dificuldade de recuperar sua credibilidade, com os fãs entram em guerra nas redes sociais. As expectativas em torno de True Detective Terra Noturna eram quase ingratas e está dando o que falar.

Quando Woody Harrelson e Matthew McConaughey apareceram como dois detetives de personalidades opostas investigando um complicado crime no sul dos Estados Unidos, True Detective trouxe um padrão interessante que combinava uma narrativa não linear, intricada, com uma trilha sonora incrível e atuações de tirar o fôlego.
A segunda temporada, apenas um ano depois, pode ser resumida em uma única palavra: lixo. Se quiserem duas: lixo e constrangedora. Foi tão ruim que a plataforma aposentou a franquia por 5 anos, aparentando estar relutante em tentar algo novo com ela.
Em 2019, a terceira temporada foi apenas ok, mesmo com o elenco liderado pelo oscarizado Marheshala Ali como um homem perdendo a memória, mas obcecado por um crime que não solucionou. A trama foi arrastada e gerou piadas de que os dois True Detectives eram mais incompetentes do que “verdadeiros”. Resultado? Outros 5 anos de descanso.
Assim quando anunciaram que quarta temporada seria assinada e dirigida por Issa López sem nenhuma influência do criador, Nic Pizzolatto, houve surpresa. A interferência dele ficou lendária (e não de forma positiva) e a nova etapa era esperada em 2022, depois foi anunciada para 2023 e adiada para 2024. Os adiamentos poderiam sugerir insegurança com o que foi feito, mas na verdade teve também questões de greves e estratégias de programação para justificar o ‘atraso’.

Marcando a estreia da grande Jodie Foster na TV, é também uma temporada mais feminina: são duas detetives mulheres, equipe e produção também com mais mulheres. Tudo que gerou elogios inicialmente, mas também deixou armadilhas.
True Detective Terra Norturna começou com promessas, mas chegou ao fim dividindo o público, conseguindo a pior unanimidade do momento porque despertou a misoginia online. Isso mesmo, os ataques à showrunner, às atrizes e à série são tão violentos que assustam. Só para ter idéia, quando todos concordavam do desastre que foi a segunda temporada, agora as mesmas pessoas estão alegando que ela melhor. Afirmo com isenção: não é.
A agressividade significa que Issa López atingiu um nervo porque “ousou” invadir a terra dos machos de plantão e mostrar que dá conta do recado.
Vou ser transparente: não curti a conclusão de True Detective Terra Noturna. Estava com boas expectativas até a metade da temporada, mas saquei rapidamente como foram os dois crimes que uniam as detetives e só restava então descobrir como os cientistas morreram. Parecia que Issa López ia nos levar para uma narrativa de terror e sobrenatutal, sugeridas na primeira temporada e mais desenvolvidas na quarta. Mas ela escolheu outro caminho.
Ao longo da temporada, a showrunner nos sobrecarregou de citações de clássicos do cinema, de O Exorcista ao O Iluminado, usou crimes reais como base do mistério que acompanhamos e amarrou as histórias de forma que hoje sonhamos com o cross e a volta dos detetives originais em algum momento, tudo digno de muitos elogios. Mas os homens se ofenderam de alguma forma.


Há quem tenha reclamado da atuação de Kali Reis, mas eu gostei dela. E sempre amo Jodie Foster, não há o que dizer sobre sua performance. Quando o elenco era liderado por homens, as pessoas pegavam menos pesado. De novo: a maioria dos críticos é avassaladoramente masculina. Sigo Issa López no X e tiro meu chapéu para sua classe mesmo sob ataque. Ela é uma mulher forte e inspiradora. Sou fã.
Mas, por que os homens se ofenderam tanto com True Detective Terra Noturna? Há coisas muito mais sérias na trama dessa temporada do que a discussão de seitas pagãs da história original. Ela fala de crimes contra o meio-ambiente, fala da violência contra mulheres, dos assassinatos das mulheres indígenas e também fala de traumas, de depressão e de compaixão. Nada disso sequer passeou nas telas quando colocaram mulheres sendo abusadas sexualmente e homens tóxicos lideravam a investigação. A única detetive mulher antes de Liz Danvers (Jodie Foster) e Evangeline Navarro (Kali Reis), foi a complexa e sub utilizada Antigone “Ani” Bezzerides (Rachel McAdams), da 2ª temporada, frequentemente colocada em uma posição de coadjuvante quando era para ser a principal protagonista.

A atuação de Rachel McAdams foi massacrada quando a série foi ao ar em 2015, mesmo com a atriz indo completamente contra todas as personagens que tinha interpretado até então. Era uma prévia de Liz Danvers, e pelo visto a única forma que os homens aceitam uma detetive mulher é vê-la sendo uma mulher amarga, fechada, agressiva e problemática. Clichê!
Para piorar, muitos do ataques cibernéticos encontraram eco justamente com o autor da franquia, Nic Pizzolato, que deixou claro seu desgosto pelo que foi ao ar. Um homem cujas brigas nos bastidores ficaram lendárias negativamente mesmo quando o time era dominado por homens. É compreensível que, como autor, tenha ciúmes e reaja mal a outra pessoa seguindo com sua franquia, mas, em geral, por não se posicionar contra a misoginia e os ataques à Issa, ele acabou dando apoio indireto ao discurso de que “há muita mulher onde não precisa”.
Há algo estranho quando os homens se irritam de que mulheres se destaquem ou ganhem terreno onde antes não entravam. Aposto que já ouviu o “que bobagem” ou ” está chato, só falam de mulher e esquecem a história”. Não se engane: isso é machismo.
E como os machistas e trolls agem online? Se organizam para alterar os algoritmos. Isso mesmo, a onda de “bombardeio de más críticas” é a tática parece estar se dirigindo à qualidade, mas é na verdade usada para ressaltar que apenas homens conseguem entregar o esperado. Simples assim. Se você não está acompanhando a reação a Barbie e a esnobada da Academia ao filme, mesmo com os recordes de bilheteria, está na “Kenlandia”, cantando o “I’m Just Ken” com a seriedade errada. Desculpe se a verdade incomoda.

A tática da bombardear negativamente um produto é usada em redes sociais e sites que permitem a opinião do público. Filmes que tem inclusão de personagens do sexo feminino, LGBTQ+ ou não brancos são, geralmente, os mais rejeitados. Coincidência? A vítima da hora desse movimento é justamente True Detective Terra Noturna. Recomendo a leitura do artigo do El País sobre o assunto.
Diante disso tudo, a sororidade se aplica. Eu não gostei de True Detective Terra Noturna, queria uma conclusão menos confusa, apressada e insatisfatória, mas também estou até hoje tentando engolir Game of Thrones. Fins ruins acontecem, eles não são relacionados a gênero. E NADA que não coloque a quarta temporada como a melhor depois da de estreia, é correto. Vamos parar com preconceito e mau uso dos algoritmos. Já temos problemas suficientes com que a realidade atual.

As três detetives da franquia (sim, trago Ani para a roda porque ela tem sido frequentemente injustamente ignorada) são melhores que os seis homens outros juntos. São mais íntegras, mais empáticas e mais interessantes, é inaceitável que em 2024 ainda estejamos expostas à agressividade da masculinidade tóxica.
Ainda não há anúncio da MAX para uma quinta temporada, mas se Issa voltar, ou outra mulher ocupar seu espaço, fica o meu desejo que reúnam Liz Danvers e Ani Bezzerides. E que os trolls fiquem sofrendo em seu passado tóxico. Não voltaremos para ele. Ainda bem!
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Chocada, não sabia que era possível não gostar do final. Essa temporada foi ótima! E voto pra que vc assista de novo o final, ele encaixa bem demais na série toda.
Quanto às críticas masculina, zero surpresa. Como se ofendem com bons trabalhos femininos, que preguiça.
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Não é?
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