Nunca uma personagem sofreu tanto como Sue em Raised by Wolves

Fazer parte do clube de órfãos da série Raised by Wolves te faz estar em um círculo não tão pequeno, porque é mundial, mas de um gosto bizarro. A série produzida por Ridley Scott (que dirigiu o piloto) redefiniu qualquer menção de “pensar fora da caixa”. Era tão estranha – e ainda assim profunda – que gerou um culto a ela como os antagonistas que adoram o Deus Sol, os Mitraicos. Nem preciso lembrar que estou entre eles.

A série ficou apenas dois anos no ar, os dois anos de isolamento nos quais discutir o fim do planeta era ainda mais sombrio. Escrita por Aaron Guzikowski, a história girava em torno de uma premissa que parece simples, mas que é o oposto.

Uma trama simples, mas complexa

Em um futuro distópico não muito distante, a Terra foi destruída na violenta guerra entre dois grupos: os teocráticos Mitraicos e os ateus tecnocráticos. Os dois grupos tentam colonizar o único planeta onde é possível ter vida humana, o Kepler-22b e tudo nos leva a crer que a intolerância mútua viaja no tempo e no espaço de forma inalterada. Para piorar, coisas estranhas (uma frase que é quase eufemismo em Raised by Wolves) sugerem que Kepler-22b é mais hostil e perigoso do que aparenta, e a divisão só enfraquece a chance de todos de sobreviver.

Cheia de segredos e reviravoltas, a primeira temporada é contada com alguns flashbacks que mudam o rumo da história toda hora. Primeiro conhecemos dois andróides, Mother (Amanda Collin) e Father (Abubakar Salim), que chegam em Kepler-22b com nove embriões humanos, que foram enviados para crescerem sem Fé e são a esperança dos humanos. Mother é a líder, Father a obedece, mas há perdas e ameaças que nos fazem chorar e torcer por eles, embora tenha algo estranho no ar.

A chegada de uma “arca” de colonos mitraicos perturba a paz do casal. Fanáticos religiosos, eles já chegam mandando porque na Terra foram os ‘vencedores’ e querem manter a dinâmica em Keppler-22b. No grupo conhecemos Marcus Drusus (Travis Fimmel ) e sua esposa, Sue (Niamh Algar), que logo descobrimos serem farsantes ateus que roubaram a identidade de outras pessoas para poder fugir da Terra.

Era de se imaginar que Marcus e Sue fossem se alinhar com Mother e Father, mas eles odeiam andróides e Mother é uma Necromante reprogramada e Marcus só odeia uma coisa mais do que Sol, e são os andróides. Para piorar, Mother sequestra o filho do casal (já falo mais sobre Paul) e isso força a mão dos dois de irem resgatar a criança.

O que faz tudo desandar é que, ao ouvir vozes, Marcus repentinamente se converte e passa a agir como um déspota, forçando a Sue a salvar Mother e fugir com Paul. Todos querem ir para área menos árida do novo Planeta, onde há uma colônia humana, e terminamos a temporada com Paul descobrindo que Sue e Marcus mataram seus pais e Marcus – isolado – ganha poderes.

Ciência ou Fé: perigosos quando inspiram fanatismo

O interessante de Raised by Wolves é jogar a Fé e o Ateísmo em antagonistas iguais, com muitos elementos religiosos mesclados com SciFi. O derrape é que a imaginação é tão liberada que temos cenas bizarras que só fazem sentido para quem acompanha a trama. Quer tentar?

Mother engravida e dá a luz a uma serpente pela boca, sendo que a serpente (Número 7) voa e ataca as pessoas. As vozes vindas do além transformam Marcus em um fanático perigoso e há seres que saem de um mar ácido atrás de bebês humanos. Uma pessoa vira árvore e uma menina andróide se revela uma serial killer. Terminamos com a ressuscitação de uma andróide antiga, a Grandmother, que engana a Mother e Father, enquanto Marcus é sequestrado e crucificado de cabeça para baixo, se despedindo de nós levitando. Se assustou? Aposto que sim.

Mesmo com isso tudo, Raised by Wolves era interessante. Ter sido cancelada antes de concluir tantas pontas soltas foi uma lástima. Até porquê as transformações estavam começando e a parceria forçada entre Mother e Marcus iam provocar uma reviravolta interessante.

Sue teve o destino mais traumático de toda série

Os protagonistas de Raised By Wolves são Marcus e Mother, líderes práticos, perigosos e eficazes, mas sempre de lados opostos (mesmo que com os mesmos objetivos). Antes mesmo da conversão do soldado para a fé que ele tanto rejeitava, ele tinha horror à tecnologia representada por Mother. Father e Sue eram mais empáticos, as personagens que suavizavam o conflito. Sendo que Sue, rapidamente ficou nossa favorita.

Como vimos no flashback da primeira temporada, Mary (Sienna Guillory) e Caleb (Jack Hawkins) são dois soldados ateus que estão buscando uma forma de fugir da Terra inabitável. Para conseguirem entrar na Arca que vai para Keppler 22-b, eles caçam, matam e roubam as identidades de Marcus (Travis Fimmel) e Sue (Niamh Algar), incluindo seus rostos.

O plano de Marcus e Sue é de se separar dos Mitraicos assim que chegarem ao novo planeta, mas, para surpresa de ambos, eles têm um filho: Paul (Felix Jamieson) e agora terão que inclusive enganar a criança para não serem mortos. A entrada da criança muda a dinâmica e o objetivo do casal, de forma inimaginável.

A doçura de Sue, a família que sempre quis

O pânico de lidar com Paul esbarra também no trauma do passado de Sue: ela tentou ter filhos de Marcus, mas perdeu todos e passou a acreditar não ter habilidade materna. Ela tem medo de se afeiçoar a criança, especialmente porque Paul agora é órfão graças aos dois, mas o menino era praticamente ignorado pelos pais biológicos e se envolve com os dois falsários de forma que rapidamente eles não estão mais mentindo em se sentirem verdadeiramente uma família.

O fanatismo religioso de Paul incomoda aos dois, que planejam contar a verdade quando todos estiverem em local seguro. Como no caminho esbarram com Mother e Paul é sequestrado, a verdade é adiada e o que já era difícil ganha maior complexidade.

Sue, que é médica, portanto tem o respeito de todos porque precisam dela, vive apavorada de ser desmascarada, mas sua fixação no filho coloca tudo a perder. Marcus sugere deixar Paul para trás, uma vez que sabe que o menino não os perdoará por terem matado seus pais, mas Sue não aceita e é na missão de resgate que o destino deles fica definitivamente preso ao de Mother.

Ao ouvir vozes, Marcus passa a acreditar que é o Messias e o casamento dele e de Sue se desgasta rapidamente. Os dois disputam o filho, mas ela consegue escapar com ele uma vez que faz a parceria com Mother.

Ao descobrir a verdade, Paul se volta contra Sue e busca Marcus, agora um homem com a mesma fé que ele. Mas o amor materno será fatal para ela.

A amizade inesperada com Mother

Entre os humanos adultos, Sue é a única empática e, embora desconfiada dos andróides, se conecta com Mother justamente pelo amor que sentem pela prole.

Quando Paul é atacado e infectado, Sue se desespera porque a ciência não encontra alternativa para salvar a criança. É quando em lágrimas, chora e reza. Sue se oferece no lugar de Paul e milagrosamente ele melhora. A dívida será coletada inesperadamente.

Mother é literalmente programada para proteger e amar as crianças, mas ela e Sue encontram nessa ‘condição’ o campo comum onde elas priorizam conhecimento, Ciência e tecnologia, mas apenas para cuidar de seus filhos. Sue sofre para convencer Paul de seu amor, mas quando ele acorda e pede para reencontrarem o exilado (e perigoso) Marcus, ela cede. O erro que custará caro.

A árvore do conhecimento

Graças a uma caixa que acidentalmente acaba nas mãos de Sue, ela passa a ser a personagem de destino mais trágico de toda a série. Por conta de Sol ou das forças de Keppler22-b, a médica cai em uma armadilha e … é transformada em uma árvore.

“Ela negociou com Sol para… ela queria proteger Paul a todo custo – ‘não machucá-lo. O que você quiser, apenas não machuque Paul”, Niahm comentou em uma entrevista. “Ela foi sacrificada para salvar Paul”, completou.

O choque ficará ainda maior em breve, mas aqui um comentário sobre a sensível interpretação de Niamh Algar de uma personagem cujo arco a transformou em uma líder corajosa, mas também no papel que ela mais queria e a deixava insegura: o de mãe. Esse amor incondicional por um filho que nem era seu é emocionante e faz seu destino ainda mais triste.

Quando descobrimos em off o que aconteceu com Sue até virar a árvore, é apavorante. “Aaron [Guzikowski] escreveu que ela estava cavando como um cachorro [risos]”, ela lembrou, explicando as dificuldades físicas de uma cena angustiante. “Se você realmente pausar o episódio quando ela estiver realmente cavando, você verá sangue escorrendo pelo meu braço. Eu realmente fui em frente. Eu tive bolhas e cortes. Então, sim, houve comprometimento total – realmente indo em frente. Eu senti que Eu estava cavando para salvar minha vida,” lembrou.

Nós – Marcus e Paul – esperávamos que houvesse volta para Sue, mas não. Em uma tentativa desesperada, antecipando o que viria ainda acontecer, ela pede ao filho e marido que a queimem, sim que coloquem fogo na árvore mas eles hesitam porque é queimá-la viva. Quando percebem que ela será engolida pela serpente, tentam atender, mas é tarde. Sue é morta pela Número Sete.

Com o cancelamento, o sacrifício foi em vão

A morte inesperada de Sue foi um dos momentos mais bizarros de toda série. Até traumático. Mas foi uma transformação de uma assassina que pagou de alguma forma com sua vida pelo que fez com a verdadeira Sue e com Paul. Também foi o preço de ter abraçado uma fé que condenava de todo coração.

A consequência tardia do sacrifício vão de Sue foi a de trazer Marcus de volta ao “normal” e tirar o fanatismo de Paul. Os dois entenderam, como nós, que foi um sacrifício exagerado. Sem nem mesmo uma terceira temporada para amarrar todas as pontas, ficamos com um final trágico para Paul: órfão duas vezes. Assim como nós!


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