Na semana de estreia de Xógun, seria impossível não resgatar as histórias das mulheres nessa saga que há quase 50 anos encanta o mundo. O livro de 1975, chegou à TV em uma premiadíssima série em 1980, mas igualmente, problemática.
Dividida em seis episódios e estrelada por Richard Chamberlain, foi uma febre mundial, trazendo o exotismo do oriente, aventura e uma base histórica para um drama fascinante de conflitos religiosos, políticos e culturais. Não seria errado resumir a série como a mescla de Game of Thrones e Vikings japonesa, sem elementos mágicos. Portanto, a refilmagem 44 anos depois é nada menos do que uma grande oportunidade de resgatar um fenômeno.
O livro de James Clavell, quejá tinha renome em Hollywood graças seus roteiros em filmes como O Homem-Mosca (The Fly), Fugindo do Inferno (The Great Escape)e Ao Mestre Com Carinho (To Sir, With Love), surgiu da mais improvável e corriqueira situação. Ele estava estudando com sua filha, Michaela (produtora da série de 2024), quando viu uma frase no seu livro: “em 1600, um inglês foi ao Japão e se tornou um samurai”. Imediatamente se debruçou para desenvolver essa história – verdadeira – e fascinante. Assim nascia Xógun, sua obra mais famosa.
Obviamente era uma história voltada para o público masculino, até porque a cultura japonesa, ainda mais em 1600, não era, como podemos dizer, fácil para as mulheres. O que não significa que elas eram fracas! Em Xógun, veremos algumas delas interferindo no destino de grandes senhores e samurais. Aliás, elas mesmas são lutadoras! E sim, você vai se cansar das referências de Xógun como o “Game of Thrones japonês”, mas são inevitáveis. Mais ainda porque, de alguma forma, elas “ajudam” a decifrar mais rápido quem é quem dentro de uma cultura tão complexa como a japonesa em tempos feudais.
Em um universo sufocante masculino, quatro mulheres terão destaque e estou aqui para – evitar o máximo possível spoilers – e ajudar a decifrar as mulheres de Xógun.
TODA MARIKO: Sansa e Arya Stark em uma só pessoa
Do trio de papéis principais da série (incluindo aqui os dois homens), é a atriz Anna Sawai que tem o maior desafio de todo elenco. Isso porque em 1980, o incrível papel de Toda Mariko rendeu à atriz Yoko Shimada o Globo de Ouro de Melhor Atriz, o primeiro de uma atriz asiática nos Estados Unidos, além de ter sido indicada ao Emmy.

Se no ano passado tivemos Michele Yeoh quebrando a principal barreira no Oscar – a Categoria de Melhor Atriz – ainda há um longo caminho para outras estrelas para se firmarem em Hollywood. Só para perceber, o hiato de mais 40 anos entre a vitória de Yoko até Michele é significativo.
Além disso, no Xógun original, Yoko Shimada ganhou destaque também por ser a única atriz que falava alguma coisa de inglês. Sua vitória no Globo de Ouro trouxe grande prestígio no exterior, mas ne tanto no Japão, onde a repercussão da crítica foi negativa graças à visão estereotipada da história. Só para imaginar, embora seja inspirada em um período histórico real do Japão, John Blackthorne (Richard Camberlain em 1980, Cosmo Jarvis em 2024) conduzia a trama.
De olho no momento e corrigindo o passado, a nova versão de Xógun dá protagonismo aos japoneses e, a própria Mariko, será ainda mais ativa do que a versão anterior mostrou. Ou seja, uma grande oportunidade para Anna, que é neozelandesa de nascimento e criada no Japão. Para os mais atentos, vale lembrar que ela esteve no elenco de Velozes e Furiosos 9, em 2021, além de participar em Monarch e Pachinko, séries da Apple TV Plus. Como Mariko 2.4 certamente ganhará mais espaço no mercado americano.

A misteriosa Mariko é, de fato, fascinante e astuta, como os episódios iniciais já deixaram claro e é a principal personagem feminina da saga. Quando a encontramos, ela já faz parte da facção que apoia Toranaga Toshi (Hiroyuki Sanada), o principal candidato à posição de xógun. Mesmo cercado de grandes guerreiros, ela é uma das pessoas de maior confiança dele, logo entendemos a razão.
A chave da sagacidade de Mariko é o fato de que há 14 anos ela é considerada “filha de um traidor” (entendeu a referência às irmãs Starks?) e na cultura da época, não apenas ele, como toda sua família, deveria cometer seppuku (harakiri). Ficar vivo é a pior punição pois tem que conviver com a vergonha de seu sangue. Complexo, mas a regra se aplicava a todos sem distinção de gêneros. E Mariko, como sabemos, não morreu com seus parentes.
A ver se Xógun vai dimensionar em maiores detalhes por que seu pai, o general Akechi Jinsai, assassinou o ditador Goroda. Mariko já estava casada com Toda Buntaro (Shin’nosuke Abe), o filho do principal general de Toranaga, Toda Hiromatsu (Tokuma Nishioka), um samurai de temperamento forte, machista e abusivo, mas fiel ao Mestre dele. Mulheres modernas não compram o que está no livro, que diz que Buntaro é apaixonado pela esposa, mas violentava e batia em Mariko porque podia. Sem surpresa ela o odeia. A ver como os abusos serão retratados em 2024.
Voltando à Mariko: quando sua família foi punida, ela foi exilada por oito anos no norte do Japão, onde estudou latim, português e se converteu ao catolicismo. Como samurai, ela é uma exímia lutadora, e junta as habilidades de combate e estratégia. Em outras palavras: nossa Lagherta (de Vikings).
Ao longo da história sua fidelidade à Toranaga será testada, assim como suas convicções quando ela e Blackthorne se apaixonarem. Sua participação é vital para o xogunato, e, infelizmente, sei que prometi evitar spoilers, mas preparem-se: sua trajetória é emocionante. Sua inteligência, altruísmo e sua força, poderiam facilmente colocá-la em um papel estereotipado, mas Mariko sempre surpreende. E um detalhe a mais: Mariko é inspirada em uma mulher real, Hosokawa Gracia, uma japonesa convertida ao cristianismo, depois que seu pai assassinou um inimigo. A “verdadeira” Mariko jamais conheceu o “verdadeiro”John Blackthorne, o navegador William Adams, ela faleceu no mesmo ano em que ele desembarcou no Japão. Mas pra isso que existe ficção, não é?
OCHIBA NO KATA: uma Cersei Lannister?
A personagem Ochiba No Kata (Fumi Nikaido) tem mais camadas de cinza e está em uma posição aparentemente tão oprimida como a de todas as mulheres no Japão feudal. Ela é a mãe do herdeiro, Yaemon, e ex-consorte do Taiko, fundador do Conselho de Regentes.
O livro diz que ela sempre foi apaixonada por Toranaga e por isso, quando há a oportunidade, ela é dada em casamento a ele. Ochiba fará tudo que estiver ao seu alcance para ver seu marido vitorioso, mas sua lealdade reside apenas nela mesma e em seu filho, e ela fará de tudo para mantê-lo seguro. Cernei Lannister vem à mente? Que surpresa…
Mas sabe qual é o principal “problema” de Ochibo? É que o maior rival de Toranaga, Ishido Kazunari (Takehiro Hira), é apaixonado por ela. Isso contribuiu para sua inveja e ódio do companheiro de Conselho e aqui está possivelmente sua principal motivação para tentar destruir Toragana. Em um momento, Ochibo terá de fazer uma escolha e certamente ela determinará o destino de Xógun.
Assim como Mariko, Ochiba é inspirada em uma figura que existiu no período: Yodo-dono. Uma mulher cominteresse político e que foi crucial na à última resistência ao xogunato de seu marido.

USAMI FUJI: Uma Aliada Importante
A atriz Moeka Hoshi é também dançarina japonesa e conhecida no cinema e TV japonesas. Em Xógun, ela é Usami Fuji, viúva de Uragi, que no primeiro episódio insulta Kazunari e por isso comete seppuku e mata seu filho com ela também. Fuji, como Mariko, não tem autonomia para escolher com quem se casar e será “dada” por Toronaga à Blackthorne, como sua consorte.
Ela e Mariko, portanto, foram um triângulo amoroso com o protagonista estrangeiro, e há algo extremamente trágico em tudo isso. É complexo para nós ocidentais modernos, e Xógun explora muito isso, entender a honra no harakiri. Para Fuji, sua vida deveria ser encerrada com o marido e filho, por isso ela pede, e é aceito, que ela possa seguir o procedimento em seis meses. O que será um momento impossível para nós, desculpe o spoiler.
Para surpresa mútua dos envolvidos, Fuji e Blackthorne vivem bem juntos e ela se prova corajosa em batalhas. No entanto, quando a amizade começa a ser possivelmente amor, é quando ela tem que escolher entre a honra do que pediu ou manchar sua memória ficando viva. Pelo menos é assim no livro, mas devemos nos preparar para ver como a série vai mostrar.
Em geral, Fuji representa o papel da “esposa obediente e leal”, virtudes valorizadas na sociedade japonesa feudal, mas é com resiliência e astúcia que não apenas sobrevive, mas até prospera em um ambiente cruel.

KIKU: a gueixa que desperta paixões
Kiku (Yuka Kouri) é outra personagem feminina importante em Xógun. Uma cortesã bonita e talentosa (uma artista de alta classe especializada nas artes tradicionais japonesas) é explorada comercialmente e emocionalmente por homens e mulheres, representando o papel oprimido das mulheres naquele período, especialmente se não fossem nobres.
Quando um dos filhos de Toranaga se apaixona perdidamente por ela, ele a “compra” para acabar com a “distração” de seu filho. No entanto, ele mesmo desiste dela e a presenteia à Blackthorne. É nessa hora, em conjunto com o que testemunha com as outras personagens, que o navegador britânico vai sendo apresentado à Arte e estrutura social da época. Ele também se encantará por Kiku, mas o amor dos dois terá barreiras culturais intransponíveis, uma vez porque ela é cortesã e ele estrangeiros, não podem ficar juntos. Para Yuka Kouri, que está no elenco de Tokyo Vice (Max) e Invasion (Apple TV+), é mais um papel de destaque no ocidente.
A representação feminina
É complexo nos dias de hoje contar uma história onde as mulheres são usadas como mercadorias ou peças políticas, mas, assim como em Game of Thrones, isso não significa que não têm poder ou protagonismo.
De certa forma essas quatro mulheres representam algo que sempre mereceu destaque, o fato de que são elas que conseguem fazer pender a balança de poder para um lado ou para o outro, usando inteligência e influência. Kiku, Mariko, Fujiko e Ochiba são, portanto, significativas na narrativa, superando as restrições sociais impostas a elas. São sobreviventes em tempos áridos para as mulheres. Para o público feminino pode ser uma inspiração entender e acompanhá-las quebrando barreiras em Xógun. Eu, pelo menos, não vou perder um episódio.
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