O realismo de O Regime atrás das piadas

Se você sobreviveu à chefia tóxica e abusiva, a chanceler Elena Vernham (Kate Winslet) vai te dar gatilho imediatamente. Não ajuda o fato de que também nos incomoda ver um cenário pós pandêmico, um regime autoritário e conservador omitindo sua medidas violentas, uma líder insegura sendo alimentada por fontes opostas com o objetivos semelhantes. Talvez esses sentimentos tenham atrapalhado compreender a trama de O Regime e essa tenha essa a intenção da série da MAX.

Vendida como comédia, o primeiro episódio não desfilou nada risível, pesando na mão da ironia para nos alertar de todos os perigos na política e como regimes fortes são construídos. Graças ao talento da sempre grande Kate Winslet e a inteligência de Stephen Freas ficamos estarrecidos com a sequência visualmente deslumbrante de uma história sufocante.

Em um país fictício da Europa central, desembarcamos em um palácio sendo reformado por conta da paranóia e da saúde da chanceler Elena Vernham, uma líder que desperta pânico e piada de seus subordinados, que atendem a cada exigência dela, que não são poucas ou razoáveis.

Quem explica para nós e para Herbert Zubak (Matthias Schoenaerts) as regras internas impostas pela estranha chanceler, que redefine a palavra germofobia. Zubak mesmo é ‘famoso’ pelas razões erradas. Ele é um soldado que liderou a repressão violenta no país e que causou problemas diplomáticos e críticas internacionais, portanto uma figura impopular e apelidada de “carniceiro”. Como a ação partiu da iniciativa da própria chanceler, Zubak recebe um acesso único a ela, o que causa insegurança na equipe.

Com tantos comandos e uma chefe instável, é fácil para que Zubak tropece, como seus adversários abertamente desejam. O que eles não perceberam é que subestimaram o inimigo. Atento aos detalhes e rápido em estratégias, a virada do soldado é a grande diferença do futuro da nação. Já chegaremos lá.

Nem todas as informações foram contextualizadas, embora todas tenham sido disponibilizadas. A origem de Elena, sua ascensão meteórica ao Poder, os problemas econômicos da nação, os problemas de saúde, seu inimigo ideológico, a origem da desesperada preocupação de Elena com sua saúde, tudo está lá, agora temos que amarrar os pontos como Zubak fez.

A principal assessora administrativa de Elena é Agnes (Andrea Riseborough), cuja lealdade não está clara. Ela sabe que a chefe está paranóica, não concorda com a força bruta representada por Zubak, mas se desloca em ambos os lados tentando se manter invisível.

A economia do país e os problemas sociais giram em torno das minas de cobalto, uma riqueza que os Estados Unidos querem “ajudar” a explorar, mas que divide opiniões. Se ceder ao exterior, perde autonomia e apoio interno, mas se for contra, precisa abafar opiniões internas democráticas. Quem ainda não viveu isso se não for americano? Pois é, na América Latina crescemos e ainda lidamos com esse impasse.

Há quem vá reclamar que a personagem feminina insegura e déspota seja uma visão machista da liderança feminina, tal qual reclamam do final de Daenerys Targaryen em Game of Thrones, mas O Regime é mais sobre a solidão, o isolamento e os perigos que uma líder enfrenta tanto dando ouvidos às pessoas próximas com interesses pessoais como as pessoas que considera “do povo” e que também têm objetivos próprios. O fato de que Elena, que tende ao conservadorismo, faz as escolhas erradas quando decide sozinha (a troca do prato principal do jantar, criando um problema de servir carne para veganos é só um deles) está muito clara na sua entrada na festa para os americanos cantando If You Leave Me Now, da banda Chicago, fora do tom. Ela é inteligente, só está sufocada de medos e consciência das consequências de suas escolhas. Ela eliminou o espaço para sinceridade de tal forma que ficamos aqui a vendo ser manipulada, de um lado e do outro.

A decisão alimentada por um patriótico Zubak soa coerente com o absurdo que é mesmo o mercantilismo americano: Elena se recusa a aceitar o acordo nos termos que foram apresentados e que a deixe à mercê de estrangeiros. Essa virada é construída por Zubak, de forma tão brilhante que dá medo do que poderá fazer agora.

Como ele conseguiu? Estando atento. Quando ele derrapa nas regras e é afastado da chanceler, ele por sorte a salva de um atentado e agora tem sua confiança irrestrita. Ele alimenta sua paranoia e incentiva sua mão mais firme. O medo é real, mas ainda não conhecemos todos os jogadores. Se você sobreviveu aos gatilhos, está tão sem ar como a chanceler imaginando o que está por vir.


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