Na trilogia do autor Luke Jennings, Villanelle (Jodie Comer) é a assassina perfeita, identificada pela agente do MI6, Eve Polastri (Sandra Oh), cujas vidas passam a se cruzar em jogo de gato e rato. Na série de TV da BBC há algumas adaptações, mas, graças ao talento da showrunner Phoebe Waller Bridge e o carisma de Jodie Comer, a série Killing Eve virou um sucesso mundial. Com a chegada de todas as temporadas na Netflix, vale tentar decifrar a complexa, cruel e divertida assassina russa, que é uma das mais populares que passaram pela TV.

O que dizem os livros
Nas páginas de Jennings, incialmente Villanelle só é conhecida pelo seu nome código, sem sobrenome ou nome próprio. Órfã russa, é “salva” da pena de morte depois que é condenada por vingar brutalmente o assassinato de seu pai gangster. Com uma nova vida, ela é financiada pela organização Os Doze, que a contrata para uma série de assassinatos que adora realizar. Villanelle não sabe nada sobre eles ou se interessa, seu contato é através de Konstantin (Kim Bodnia), o homem que a salvou e a quem ela responde. Sociopata, Villanelle não tem consciência, culpa ou fraqueza.
No segundo livro, Não há Amanhã, Villanelle é avvisada que Eve Polastri descobriu que um oficial superior do MI5 é pago pelos Doze e ela está prestes a interrogá-lo. A missão de Villanelle é de matá-lo antes que fale.

No terceiro e último, Eve Polastri e Villanelle estão juntas e se refugiam no submundo de São Petersburgo. Mas os Doze estão atrás das duas, as arrastando para um pesadelo de conspiração e assassinato.
Assim como será na série de TV, Villanelle tem um passado sombrio e desde que foi identificada como uma psicopata e sociopata, muito nova, passou a ser “disputada” por diferentes organizações e pessoas, todas com o mesmo intuito de usar seu talento de matar para benefício próprio. Vaidosa, infantil, obcecada e apavorante, ela é uma das personagens mais originais dos últimos anos, perfeita para TV também.
A Villanelle da TV foi moldada pelas showrunners mais disputadas do mercado atual
Se foi um homem que idealizou Villanelle nas páginas, foram duas das mais inteligentes e disputadas roteiristas do momento que transformaram a personagem em algo icônico, especialmente por ter uma atriz ousada como Jodie Comer no papel. Na 1ª temporada Phoebe Waller Bridge – de Fleabag – assinou o texto, e, na segunda, isso ficou sob a responsabilidade de Emmerald Fennell, que emendaria o sucesso com Oscar de Melhor Roteiro por Bela Vingança e fez grande sucesso em 2023 com Saltburn. Destacar essa ligação dá perspectiva de como ambas foram cruciais para a ousadia da narrativa com três mulheres fortes e amorais.


O humor de Waller-Bridge é essencial na estreia, mas a temporada de Fennel é considerada a melhor das quatro, com surpresas e um tom maior de violência, que estariam refletidos em suas obras de cinema.
Jodie Comer ganhou o Emmy de Melhor Atriz, passando a ser uma estrela mundial e tanto Fiona Shaw como Sandra Oh também foram indicadas. Em particular Fiona, foram shows de interpretação. O mais importante de Killing Eve é que a história usa a sociopatia da personagem para explorar temas de identidade, sexualidade, moralidade e poder.
Quem é realmente Villanelle e qual é seu nome?
Livro e série mantiveram algumas coisas iguais e uma delas é o nome verdadeiro de Villanelle: Oxana Vorontsova. Na série, é uma órfã que sempre teve reputação violenta e que foi presa depois dque sua obsessão por uma professora de línguas mais velha e carinhosa chamada Anna (Susan Lynch) acabou em tragédia. As duas tiveram um caso, mas Anna se matou depois que Villanelle, em um ataque de ciúmes, castrou o marido de Anna para eliminar seu rival amoroso.
Cinco anos depois de ir para a prisão, Villanelle foi recrutada como assassina pela organização criminosa Os Doze, que a ajuda a escapar, fingir sua própria morte e emergir com uma nova identidade: Villanelle.

Ela escolheu seu nome código em homenagem a um perfume favorito da condessa du Barry, que foi guilhotinada em 1793 (e tema do filme que fez sucesso em Cannes em 2023), sendo que na série ela dá um vidro dele para Eve como sua ‘assinatura’.
Na época ainda era ousado que a melhor assassina do submundo do crime fosse uma mulher e é justamente Eve Polastri a primeira a identificar o perfil dela. Charmosa, com um humor único e uma precisão na hora de matar, Villanelle é a anti-heroína mais apavorante da ficção. Ela mata e maltrata qualquer um – criança ou velho – e seu prazer de matar (quase sexual) é arrepiante.
Villanelle gosta de infligir dor e ver as pessoas sofrendo, sua indiferença faz dela um monstro paradoxalmente empático. Ao conhecer e se apaixonar por Eve, Villanelle passa por uma longa jornada que flerta com a redenção, mas quando ela resgata seu passado vemos como sofreu profundos danos psicológicos e físicos desde a infância, praticamente não havia esperança para ela.

Como uma perigosa criança adulta, Villanelle se entedia rapidamente, buscando sempre desafios perigosos para incitar sua criatividade, exageradamente teatral. Órfã, carente e desequilibrada, nada parece nos preparar para decifrar quem ela realmente é. A única coisa que temos certeza é que as palavras culpa e arrependimento jamais fizeram parte de seu vocabulário.
Matando Eve
A obsessão de Villanelle por Eve Polastri pode ser mútua, mas é mais estranha do lado dela do que da agente que – em tese – quer prendê-la. Eve se revela um desafio para Villanelle porque não se submete à ela, resiste a atração e sempre a surpreende.
À medida que a série avança, o relacionamento das duas ganha dimensões psicológicas e emocionais mais cinzentas. Eve fica fascinada pela audácia, habilidade e senso de humor distorcido de Villanelle, mesmo reconhecendo o perigo que a assassina representa.

Já Villanelle admira a inteligência e determinação de Eve, assim como sua honestidade e vulnerabilidade. esse fascínio mútuo confunde os limites entre caçador e caça, fascínio e obsessão, amor e ódio. Uma dinâmica intrincada que é parte do segredo da série.
No final das contas, buscando em vão se reformar, é quando Eve e Villanelle se aceitam que tudo parece ir bem para elas, até serem traídas por Carolyn (Fiona Shaw).
Com apenas quatro temporadas, Villanelle certamente está no hall das personagens mais curiosas criadas pela ficção. Ainda bem que finalmente para um público maior também.
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