A vez de Vikings nos Estados Unidos

Quatro anos depois da conclusão de Vikings o elenco vem celebrando em suas redes sociais o novo fôlego que a série ganhou em 2024. É que – nos Estados Unidos – ela entrou para o acervo da Netflix, o que significa ser “descoberta” por uma nova geração que sem acesso ao History Channel não conhece ainda uma das melhores sagas da TV dos últimos anos. É mais do que hora!

Para nós, no Brasil, foi justamente o fato da Netflix ter todas as temporadas que popularizou a série e antes tarde do que nunca para os americanos alcançarem o resto do mundo. Afinal, inspirado em fatos reais, como o atual sucesso Xógun, Vikings mescla fatos com a imaginação e personagens incríveis.

A origem do projeto

Na cola do fenômeno que Game of Thrones já era em 2012, o History Channel embarcou em um projeto – associado à MGM – de investir em séries dramáticas de base histórica, uma iniciativa planejada pelas executivas Nancy Dubuc, na época GM do History, e de Roma Khanna, presidente do grupo de televisão da MGM Studios. Com isso, surgiu Vikings, uma coprodução internacional Irlanda-Canadá comandada por Michael Hirst, que já tinha o sucesso de Os Tudors e o filme Elizabeth, cobrindo bem o gênero de não ficção.

Na época, há 12 anos, foi considerada como iniciativa ousada do canal, até então com acervo de documentários e reality shows. Ao lançar a minissérie Hatfields & McCoys, sucesso de crítica e prêmios, estrelada por Kevin Costner e Bill Paxton, parecia que o caminho era o de eventualmente competir com os grandes, como HBO e FX. A série estreou em abril de 2013 e encerrou sua trajetória em 2020, com um número apaixonado de fãs ao redor do mundo.

Por que Vikings?

Desde a adaptação de Senhor dos Anéis para o cinema, na virada dos anos 2000, que drama medievais ganharam novo fôlego entre os consumidores. O investimento da HBO em Pilares da Terra (que não foi bem) e depois Game of Thrones (uma febre) são apenas dois exemplos. E a história dos lendários nórdicos dos tempos medievais, que invadiram e dominaram a Grã-Bretanha antes da unificação era simplesmente perfeito para o History Channel.

“As pessoas pensam que sabem sobre os Vikings – vemos referências a eles o tempo todo na nossa cultura popular, desde anúncios televisivos a equipas de futebol – mas a realidade é muito mais fascinante e complexa, mais vívida, visceral e poderosa do que a lenda popular, “disse Nancy Dubuc à Hollywood Reporter em 2012. “Vamos explorar os mistérios dos Vikings, as aventuras que eles viveram e as pessoas que os lideraram. E começaremos a compreender um passado que hoje faz parte do nosso DNA coletivo.”

Na verdade, soubemos anos depois, a proposta de Michael Hirst era a de contar a história do Rei Alfred, o primeiro da Inglaterra unificada, mas como ele lidou com os vikings, esbarrou com algumas figuras icônicas dos nórdicos cuja história não era tão conhecida, mas ainda mais fascinante. Personagens como Ragnar Lothbrok e seus filhos, ou como Lagherta e Rollo, que existiram e fazem parte do folclore nórdico. Dessa forma, Vikings tomou liberdades históricas mas ganhou formato de um drama familiar, narrando as façanhas de Ragnar Lothbrok e como foi um dos mais populares reis das tribos vikings.

Uma aposta que sempre foi para ser uma Saga

Na visão – correta – de Hirst, a saga dos Lohtbroks começa com Ragnar, o fazendeiro visionário e ousado que sai de Kattegat e ganha fama ao invadir a Inglaterra, depois a França e, eventualmente, se torna um rei escandinavo.

O papel encontrou no ator Travis Fimmell a perfeição para equilibrar carisma, sensibilidade e sagacidade para um papel frequentemente dúbio, mas adorado rapidamente pelos fãs de Vikings. Ainda mais fascinante que a ascensão de Ragnar é a sequência da história com seus filhos, que se aventuram também pela Escandinávia, Rússia de Kiev, Mediterrâneo e até América do Norte.



A vingança pela execução de Ragnar (desculpem o spoiler!) foi de extrema violência em solo inglês, liderada pelos herdeiros dele, mas, em seguida, a guerra civil entre os filhos – com Bjorn Ironside e Ivar, o Desossado em lados opostos – também colocou em cheque o domínio nórdico. Há maquinações políticas, conflitos religiosos, romances, traições, alianças e batalhas, tudo com forte base histórica. É simplesmente fascinante do início ao fim.

Michael Hirst usou como base para os roteiros os contos dos nórdicos da Escandinávia medieval, datados do século 13 e que são baseados na tradição oral, uma vez que só foram escritos cerca de 200 a 400 anos após os eventos que descrevem e por isso considerados parcialmente fictícios. Também encontrou informação crucial na Saxo Grammaticus Gesta Danorum, do século 12. Dessa forma, os registros verdadeiros do ataque viking a Lindisfarne, por exemplo, que são retratados no segundo episódio da primeira temporada, dão credibilidade à série.

A transformação de Travis em Ragnar

Antes de estrelar Vikings, Travis Fimmell era conhecido como modelo da Calvin Klein e astro de uma rapidamente cancelada versão atualizada de Tarzan e The Beast, entre outros títulos. Como Ragnar, ele conquistou o mundo e comprovou seu carisma para liderar um grande elenco.

Justamente por não ser uma estrela, Travis foi um dos últimos contratados e, como reza a lenda, a apenas uma semana do início das gravações. Michael Hirst gostou do teste do ator, que não fez grandes esforços para soar ou parecer um viking, e gravou sua parte na cozinha da fazenda de sua família no interior da Austrália. Com isso, ele bateu atores mais conhecidos justamente por escolher uma visão menos agressiva e clichê para o papel.

“Quando ele veio para a Irlanda e nós o escalamos, muitas pessoas ficaram apreensivas, mas ele é perfeito”, defendeu o showrunner.

Travis estrelou a série por quatro temporadas, saindo quando Ragnar é capturado e morto na Inglaterra, já em idade mais avançada. Para os fãs, Vikings perdeu muito com a sua saída, porém ela sempre foi planejada.

Além dele, outros destaques das primeiras temporadas foram Alexander Ludwig, Katheryn Winnick, Gabriel Byrne, Gustaf Skarsgard e Linus Roache.

Conflitos familiares e religiosos

Dois pilares narrativos foram marcantes em Vikings, o religioso e o familiar, com Ragnar navengando entre eles. Respeitoso das crenças espirituais pagãs e cristãs, na verdade o personagem é um cético de mente lógica e curiosa, algo que Travis Fimmell captou com brilhantismo.

A estratégia de invasão e espansão sempre teve como base a curiosidade de Ragnar, cuja astúcia é o motor emocional de toda saga. Ele sabe usar em seu benefício quando precisa apelar para fé e lendas, assim como observar seus oponentes.

Por outro lado, como toda saga, a inveja de seu irmão, Rollo, é um grande problema para Ragnar ao longo de toda série, mesmo com os dois se amando, eles frequentemente estão em lados opostos. O casamento com Lagherta, mãe de seu primogênito, Bjorn, também sucumbe às crenças religiosas e ele acaba se casando com uma mulher que não ama, mas que lhe dá seus filhos, que ele também sabia que teria por conta de profecias.

Dos seis filhos de Ragnar, apenas quatro chegam à idade avançada, sendo que Bjorn Ironside logo ganha fama heróica semelhante à seus pais. Dos filhos com Aslaug, Ubbe, Hvitserk e Ivan são também incríveis, em especial, claro, Ivan, que rouba a série nas duas últimas temporadas.

Ivan, conhecido como o Dessossado, é ainda mais lendário do que Ragnar, pois entrou para a História como sádico, inteligente e violento, assim como instável, narcisista e radical religioso. Brilhantemente interpretado quando adulto pelo iniciante Alex Høgh Andersen, ele nasceu com um defeito de nascença que inutilizou suas pernas e o deixou impotente. Sua astúcia militar é imbatível e ele é um antagonista popular, com camadas que nunca o deixam ser simples.



A origem do apelido não é unânime pois a tradução de “Ívarr beinlausi” poderia ser tanto como “Ivar sem pernas”, “desossado”, ou impotente. Biógrafos desconfiam que ele sofresse da condição esquelética conhecida como osteogênese imperfeita e Alex traz essa dor física constante para o drama de forma lendária.

Quando Ivar e Bjorn disputam quem vai suceder Ragnar a série parte para o lado da guerra civil entre irmãos, com viradas incríveis na narrativa até a verdadeira – e final – invasão na Inglaterra liderada por Ivar.

A chance da popularidade perdida

Um dos grandes problemas de Vikings foi justamente ter sido exibida ao mesmo tempo que Game of Thrones, mas em uma plataforma de menor alcance do que a HBO, portanto mesmo com atuações brilhantes, todo elenco foi virtualmente ignorado nas premiações da época.

A tardia chegada à Netflix americana vai claramente colaborar para o crescimento da base de fãs, mas será impossível recuperar o prestígio que merecia no período que estava em produção, infelizmente. Tanto Travis como Alex, incluindo Gustaf Skarsgard mereciam ter minimamente indicados ao Emmy (e até ganhado).

O sucesso na plataforma fora dos Estados Unidos era tão significativo que com o fim da produção do History Channel, a Netflix investiu no spin-off Vikings: Valhalla, que embora ótimo, não é tão bom quanto o original. Se a popularidade de Vikings crescer nos EUA, muita coisa pode mudar ainda para a produção atual. Para nós, resta maratonar as seis temporadas, ainda disponíveis na plataforma.


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