The New Look: a pressa pela 2ª temporada

Passamos 10 episódios acompanhando os doloridos bastidores criativos do universo da Guerra e como Christian Dior (Ben Mendelsohn) e Coco Chanel (Juliette Binoche) traçaram caminhos paralelos para sobreviver à Invasão nazista em Paris para salvar aqueles que mais amavam.

Mais do que moda, The New Look é uma história de sobrevivência e sua conclusão deixou uma sensação de pressa e inconclusão, que confirma a aposta de uma segunda temporada para “concluir” a história. Se a Apple TV Plus vai apostar em mais 10 episódios, ainda fica à espera da confirmação, mas, definitivamente, estamos longe da conclusão da história.

Chanel: vitórias amargas e derrotas pessoais

A série pode parecer ser sobre Dior e a criação do “novo look”, mas, a antagonista – Coco Chanel – ganhou um protagonismo que quase transformou em questionável o nome da série. A estilista francesa flertou com os inimigos alemães como alternativa extrema de sobrevivência, ela se justifica. O fato é que, por muitos anos, o envolvimento de Chanel com os nazistas era de conhecimento geral, mas, a extensão foi confirmada há poucos anos, os fãs que a defendiam julgavam até que boa parte fosse calúnia.

Graças à Binoche, a complexidade das decisões de Chanel ganharam outra perspectiva. Ela perde sua amiga, Elsa Lombardi (Emily Mortimer), que morre de overdose graças ao violento e assustador Spatz (Claes Bang), que chantageia ambas e que acaba por transformar todo esforço de Chanel em nada quando revela ao sobrinho dela a verdade.

A versão que coloca Elsa na Suíça com Chanel é fantasiosa, mas traz um lado mais humano à francesa. A relação das duas era controversa e complicada, mas também humanizou o sofrimento de duas mulheres jogadas em um universo masculino violento e controverso.

Terminamos com Chanel tendo sido denunciada pelo próprio sobrinho, após vencer a pior batalha contra seus sócios e ainda assim estar do lado derrotado moralmente. Nada de avançar no tempo para a cena do piloto, onde a estilista se opõe à Dior, rivalizando com o “new look” que abomina. Mesmo contando com a segunda temporada ficou “solto” e agora teremos que esperar para entender como ela vai se livrar da Justiça, mesmo com a mancha pública que ficou em seu legado.

Catherine: a reconciliação familiar

Outro problema de The New Look está na volta e recuperação de Catherine Dior (Maisie Williams) e como ela foi importante para o irmão mais velho na empreitada de criar a Maison Dior, o perfume Miss Dior e a revolução na Moda com as roupas inspiradas nas flores do jardim cuidado por ela.

Catherine é uma heroína da Resistência Francesa, tendo sobrevivido às atrocidades dos Campos de Concentração, tortura e traumas de Guerra, mas com uma atuação inconsistente de Maisie, infelizmente.

Faltou a conexão histórica de Catherine e Christian, mesmo que dita e forçada na série. Christian estava sob extrema pressão psicológica e material para sustentá-la e depois encontrá-la, mas sempre parece em dívida de desagradando à todos. A frieza com que Catherine o tratou antes e depois de sua prisão destoam fortemente do elo familiar que foi determinante para a carreira do revolucionário estilista. Uma pena.

Sim, Catherine encontrou consolo se dedicando às flores e a casa dos Diors no sul da França, assim como ficou mais fechada sobre o que realmente viveu no período de captura, mas Maisie alternando em forçar um sotaque francês falso e momentos de introspeção a deixaram em uma atuação linear que não contribui, como esperado, para o drama.

A participação de Catherine nos próximos 10 anos de Dior será mais nos bastidores, a oportunidade maior passou com um retorno fraco, o que lastimamos diante do enorme potencial que recontar sua história prometia.

O reencontro de Glenn Close e John Malkovich

Eu bem que pedi e antecipei e CLARO que a oportunidade de recolocar a dupla John Malkovich e Glenn Close em pelo menos uma cena juntos era imperdível. Depois de arrasarem há 36 anos como Valmont e Merteiul em Ligações Perigosas, como Lucien Lelong e a jornalista Carmel Snow , os dois voltam a ter química e dominar um bom diálogo que é vital para a conclusão da 1ª temporada.

Com um Pierre Balmain consistentemente apresentado como neurastênico, narcisista, invejoso e vaidoso, em contraste ao carinho que Dior recebia de Balenciaga e Lelong, restou à jornalista americana a “salvar” Dior da catástrofe. A equipe de costureiras “roubadas” das outras casas criou um impasse trabalhista e político, que apenas a pressão e amizade salvaram Dior do fracasso antes de sua revolução. É apressado, é inverossímel e não é justo para a virada mais importante de The New Look.

Lelong “poupa” Dior dando um tapa na mão (ele tem que devolver as costureiras e pagá-las para terminar os trabalhos das outras casas) e assim tudo fica às mil maravilhas, com Dior voltando às boas com os que se opuseram à ele, incluindo o insuportável Balmain. Malkovich está maravilhoso como o compreensivo e dedicado mentor de Christian Dior, passando a docilidade nem sempre frequente nos papéis do ator americano. Mas é sua cena com Glenn Close que dá o ponto alto ao episódio final da temporada.

Christian: o gênio sob pressão

A dependência de Christian Dior das leituras de Madame Delahaye (Darina Al Joundi), mostrada em alguns episódios desaparece justamente quando ele teria consultado ainda mais o tarô. Embora tenha poupado até o fim o desfile e os vestidos recriados para a série, The New Look deu ao ator Ben Mendelsohn um personagem complexo cuja pressão da vida pessoal e profissional vão custar sua saúde e encurtar sua vida drasticamente.

A versão editorializada de Dior na série – ele é bonzinho, sensível e generoso – são quase infantilizados no papel, mas graças ao talento do ator australiano, passa. Infelizmente longe de qualquer semelhança física com o verdadeiro estilista, o Dior de The New Look tampouco é honesto quanto à personalidade dele, mas entretém.

O suspense sobre o desfile lendário que revolucionou a maneira de vestir das mulheres não foi bem trabalhado: sacrificou a história que esticou demais, nem compensou o drama das horas que antecederam o evento. Visualmente deslumbrante, ficou claramente um momento de product placement, viajando no tempo desde 1947 até 2024, sem contexto ou necessidade. Outro derrape da conclusão apressada.

E o que vem por aí?

A intenção dos showrunners é de trazer na segunda temporada a história e a entrada de Yves-Saint Laurent na Maison Dior. Ele herdou a parte criativa da marca, ainda mais com a morte prematura de Christian Dior. A continuação ainda não foi anunciada, mas é mais do que necessária diante da conclusão em aberto. Será que costuram melhor na próxima fase? Tomara que sim!


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