Anthony Minghella nos apresentou um Tom Ripley (Matt Damon) apaixonado por ópera no filme de 1999, O Talentoso Ripley. Mas, na adaptação de Steven Zaillain do livro de Patricia Highsmith para Netflix, o misterioso psicopata (Andrew Scott) é obcecado por Caravaggio, influenciado por Dickie Greenleaf (Johnny Flynn), que elogia e recomenda estudar o pintor.
A série Ripley vai além e traça paralelos entre os dois, algo paradoxalmente interessante e ofensivo, por mais que a história do genial pintor seja marcada por tintas de muita violência. É tão ‘forçado’ que na conclusão, coloca os dois – Ripley e Caravaggio – vivendo dramas ‘semelhantes’. Será que seria possível mesmo comparar um psicopata à um atormentado artista?
Quem foi Caravaggio
Michelangelo Merisi, que ficou conhecido como Caravaggio, o nome da pequena vila onde nasceu em 1571, foi um pintor italiano considerado o mais revolucionário artista do estilo Barroco, parte pela expressividade de suas obras, pelo inigualável uso de luz e sombra e violência das imagens.
Suas obras estão em museus e Igrejas, com imagens de pessoas comuns, bem diferentes do que se esperaria na época. Órfão de pai desde os 11 anos, com apenas 13 foi para Milão e trabalhou com grandes nomes como Simone Petrazano e Ticiano. Seu trabalho individual ganhou destaque a partir de 1592, quando foi para Roma.

Não era apenas a pintura que rapidamente seria associada ao nome de Caravaggio: seu caráter violento e tempestuoso o colocariam em brigas e escândalos sangrentos ao logo de sua vida. Afinal, ele era notório frequentador do submundo de Roma, encontrando seus buscava modelos entre músicos, vendedores de rua, ciganas e prostitutas.
Caravaggio esteve envolvido em várias brigas, duelos, processos e ataques durante sua vida, um inconsequente eternamente endividado e frequentemente descrito como embriagado. Seus rompantes de violência são icônicos. Ele castrou e matou Ranuccio Tommasoni em uma briga, que o levou a uma sentença de morte por homicídio e por isso teve que fugir para Nápoles, onde se estabeleceu como um dos maiores pintores de sua geração. Ele teve o perdão papal em 1607.
Dois anos depois, voltando à Nápoles, se envolveu em novo violento confronto onde seu rosto foi desfigurado e circularam rumores de sua morte, sque realmente só aconteceu no ano seguinte, depois de uma forte febre quando estava à caminho de Roma. Tinha 38 anos.
Embora por muitos anos as circunstâncias dessa morte terem sido incertas, com algumas sugestões de que foi assassinado ou envenenado por chumbo, em 2018 foram feitos testes com o seu DNA e confirmaram que morreu de septicemia por conta de um corte de espada ocorrido um mês antes. Documentos do Vaticano, divulgados em 2002, sustenta a versão mais popular que o corte foi feito em um atentado, a pedido da rica família Tomassoni, como vingança pelo assassinato de Ranuccio. O corpo do pintor permaneceu em local desconhecido por séculos até serem identificados em 1956, no cemitério em San Sebastiano.
A obsessão de Ripley pelo pintor atormentado
Em Ripley, vemos que Tom não é ainda muito culto e que só passa a se interessar realmente por pintura ao conhecer Dickie Greenleaf. Sim, ele sabia do valor monetário de um Picasso autêntico, mas só escuta sobre Caravaggio quando Dickie conta sua história, elogia sua Arte e sugere que visite as Igrejas e Museus para ver os quadros de perto, algo que rapidamente Tom Ripley decide fazer.

Como é rapidamente explicitado na série, uma das “assinaturas” do pintor era o realismo violento de seus quadros, com sangue e cabeças cortadas em muitas imagens, mas també se destaca o uso magistral de luz e sombra, que exploravam uma dramaticidade profunda. A fotografia preto e branco de Ripley é o uso declarado de ressaltar justamente o uso da luz em imagens lindíssimas. Outra característica usada como paralelo no roteiro e na imagem é o estilo do “tenebrismo” criado por Caravaggio: na cena principal, personagens ficavame um primeiro plano e sob um foco de luz que os destacavam de um fundo muito escuro. Exatamente como é a alma de Ripley e como ele age, na escuridão, adorando objetos e luxo, tomando para si – com violência – o que quer materialmente.
A história de Caravaggio, com seus rompantes violentos, encanta o psicopata que segue indiretamente seu roteiro pela Itália. Roma, Nápole e Sicília estão na série por várias razões e uma dela é por conta da obsessão de Ripley de conhecer e ver as obras do pintor. Ao longo da história, até o episódio final que abre com uma reprodução do assassinato de Tomassoni com uma imagem de Caravaggio mesclando com a de Tom Ripley, o diretor Steven Zailain insiste no paralelo, embora o pintor desequilibrado emocionalmente não pode em nada ser comparado à frieza psicopata da personagem de Patricia Highsmith. Quer dizer, na minha opinião!
Os quadros que têm impacto em Ripley
Mesmo sendo Caravaggio o maior destaque em Ripley, há outros quadro que ajudam na narrativa. Em Nova York, Tom Ripley observa o quadro Augustus John, de Sir William Orpen, como um reflexo de sua admiração por Dickie. A pintura está na vitrine de uma loja de antiguidades e chama a atenção do psicopata, nos sinalizando o que está por vir, com os símbolos de riqueza que tanto o encantam. Quando conhece Dickie, Tom se encanta com sua classe e seus maneirismos, passando a copiá-lo em segredo.
Claro temos o quadro Guitarrista, de Pablo Picasso, uma obra-prima cubista que também interessa a Tom. Ele está ao seu alcance, na parede de uma casa tão isolada e de portas abertas, um descuido que meio que surpreende o psicopata. Imediatamente vemos que Ripley quer o quadro que deixa claro a oportunidade financeira que essa viagem proporciona a ele. Quando começa sua saga, Tom guarda a pintura em Roma, mas não sabemos o que vai fazer com ela. Um segredo para o último minuto da série. Para alguns, o cubismo de Picasso é a metáfora de como Tom lida com a realidade: com originalidade em peças que não parecem se completar, mas formam a obra total.

Apenas com Dickie e na Itália que Caravaggio entra no circuito, mas de forma definitiva. O primeiro quardo do pintor que impacta Ripley é As Sete Obras de Misericórdia, que Dickie o leva para conhecer em Nápoles. Quando ouve a trajetória violenta e trágica do pintor é apenas a confirmação do que se apaixona: violência, escuridão e beleza. O quadro tem como tema atos de bondade humana, mas Caravaggio inseriu expressões de pânico e tensão, ressaltando a batalha moral de todos os homens, mais ainda, de Tom Ripley.
Outro quadro que impacta o psicopata é O Martírio de São Mateus, que vê na Capela Contarelli, em San Luigi die Francesci. Há duas outras, mas ele se encanta com imagem que mostra Cristo convocando o discípulo, retratando o foco de uma longa jornada de sacrifícios. Especialistas discutem qual das imagens Caravaggio considerou ser São Mateus: o homem barbado que está apontando para si mesmo ou o menino com a cabeça baixa na ponta da mesa? Uma ambigüidade que Ripley compreende melhor que outros.
Claro que um dos quadros mais famosos do pintor não poderia ficar de fora e vemos David com a cabeça de Golias, um dos últimos pintados por Caravaggio e que reflete sobre morte e destino. Curiosamente, o artista preferiu colocar seu autoretrato na cabeça cortada do Gigante, com medo e agressividade mesclados em seu olhar. Há em David, que pode ser um Ripley pensando em Dickie, um olhar de tristeza e desgosto, como se tivesse pena de Golias. Será mesmo? Como estudiosos alegam que David é uma versão mais jovem de Caravaggio, podemos ver que ele reconhece que suas ações passadas o condenaram à morte e que é triste por isso.

O quadro que é visto em uma viagem à Palermo, na Sicília, o Natividade com São Francisco e São Lourenço, é uma dica na série de que Ripley está pronto para mais uma reinvenção, agora como Richard Fanshaw. A cena bíblica que mostra o nascimento de Jesus é o tema do quadro e aqui uma outra curiosidade. O que está público é uma réplica. O original foi roubado em 1969 e nunca foi recuperado. Quem roubou? A aposta maior é a Máfia. Outra pintura conhecida, A Crucificação de São Pedro é a que mostra o paralelo entre Tom e Caravaggio, reforçando a visão de Zaillian que os crimes de Ripley são como obras de arte. Já dei minha opinião sobre isso, e a imagem mostra São Pedro sendo morto pelos romanos, insistitindo que não era digno de morrer como Jesus e por isso sua cruz está de cabeça para baixo. Uma imagem que é complexa diante de tudo que Ripley fez e ainda está fazendo.
Por fim, Madonna e criança com Santa Ana é a imagem do triunfo do bem sobre o mal, o que é justamente o oposto em Ripley. O psicopata está representado pela serpente no quadro, mas como foge com dinheiro e o Picasso, como traçar um final feliz? Eu não concordo com subjetividade aqui, é um final muito trágico.
Um futuro de tintas fortes
Se houver uma segunda temporada, em Londres, acredito que o gosto de Ripley vai evoluir. No entanto, aí sim, a vitória é nossa, de ficarmos mais cultos, mesmo que tortuosamente. O quadro pintado na primeira temporada é fiel à obra original, é sublimamente fotografado e interpretado e sim, nos deixa querendo saber mais. Vamos acompanhar?

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