Uma poesia do “balé branco”: Les Sylphides

O impacto do balé La Sylphyde, com Marie Taglioni, que estreou em 1832, mudou a dança clássica para sempre. Claro que é a produção que marcou o uso da sapatilha de ponta pela primeira vez, mas, ainda mais do que isso, tranformou a mágica espiritual das sílfides em uma “tradição”. A partir do figurino etéreo da protagonista, surgiram os atos “brancos”, repetidos em O Lago dos CisnesLa BayadèreGiselle e vários outros. Mais ainda, La Sylphide foi tanto sucesso que inspirou uma peça de 40 minutos batizada como Les Sylphides, uma peça que até hoje está no repertório de várias companhias.

Na carona do sucesso, uma peça encomendada para abalar

Em anos pré George Balanchine, não era nada comum ter balés concerto, ou melhor, os balés “sem enredo”, que fossem dança pela dança. Havia sempre um argumento para ter pantomima e então dança, mas Les Sylphides quebrou o molde, se provando um grande sucesso.

Descrito como um “devaneio romântico”, onde um poeta dança com espíritos em busca de sua musa, Les Sylphides é composto por um conjunto de danças soltas, com cenário “simples” de um bosque iluminado pela lua. Em oito peças, vemos as combinações em grupo, em solo, em dupla e finalmente todos juntos. É visualmente perfeito.

A obra ficou conhecida no formato atual em 1909, como uma encomenda de Sergei Diaghlev para o Balles Russes, abertamente querendo criar um “novo” balé de impacto como La Sylphide, uma obra que na época já tinha 77 anos. Por isso encomendou a Michel Fokine para que apresentasse algo como parte da “Saison Russe” que veio a fazer tanto sucesso em Paris.

Fokine então lembrou de uma peça que tinha criado um ano antes, em São Petersburgo, que tinha batizado como Chopiniana, em homenagem às músicas de Frederic Chopin, que foram usadas pelo coreógrafo. Como não havia dança sem uma trama, como falamos, esse pequeno balé foi criado imaginando várias cenas da vida do próprio Chopin, incluindo a dança típica também comuns na época, no caso por incluir um casamento polonês, a dança típica do país em um salão de baile. Era o que Fokine poderia usar para trabalhar com curto tempo que tinha em mãos.

O balé essencialmente romântico

A modernidade dos Ballets Russes permitia a ousadia de Michel Fokine descartar não apenas as personagens öriginais”, mas também qualquer sugestão de enredo. Na revisão da obra o foco era evocar a essência do balé romântico, especialmente com a música de Chopin.

Como as peças musicais tinham sido escritas para piano, Fokine usou a partitura orquestrada por Alexander Glazunov, um trabalho que o maestro tinha trabalhado ainda em 1892, quando definiu a ordem de algumas peças e as montou como uma suíte puramente orquestral. Foi Glazunov que a entitulou como Chopiniana, Op. 46. O concerto antecipou o balé e o público russo ouviu a orquestração em dezembro de 1893, sob a regência de Nikolai Rimsky-Korsakov. Em 1909, Igor Stravinsky retocou as partituras, deixando apenas a valsa exatamente como Glazunov orquestrou.



A revisão do balé permitiu incluir um novo título, mais forte, escolhido como Les Sylphides, pegando carona sem nenhuma vergonha ou disfarce no balé de 1832. Os solistas principais da noite de estreia foram Vaslav Nijinsky, Tamara Karsavina, Anna Pavlova e Maria Baldina. O sucesso foi estrondoso. Pavlova estava toda de branco, como destacado no cartaz da temporada, com um longo tutu, desenhado por Léon Bakst e inspirado em uma litografia de Marie Taglioni. Depois da estreia, todas as bailarinas passaram a usar o mesmo modelo.

O balé já abre com o poeta cercado pelas sílfides que dançam na seguinte ordem: Todos juntos no prelúdio e no noturno. Em seguida a primeira valsa é dançada por uma solista, seguida pela mazurka que é de uma das primeiras bailarinas. A segunda mazurka é o solo do poeta e ele é seguido por outro prelúdio, que o solo de uma solista diferente. Vem então a valsa para o pas de deux, com a primeira bailarina e o poeta, fechando com todos juntos na grande valsa final.

Uma peça popular e usada para treinar bailarinos

A simplicidade da proposta de Les Sylphides, com passos e criatividade de Fokine e um cenário que não demanda muito, sem surpresa o balé ganhou popularidade imediata e é usado em muitas montagens de formatura e escolas de dança, assim como companhias profissionais.

Em geral a peça se mantém exatamente como apresentada em 1909, mas em 1972, Alexandra Danilova fez uma alteração para o New York City Ballet, incluindo reverter o nome do balé de volta para Chopiniana. Na visão de Danilova, a dança é mais simplificada, mas, ao contrário do balé original, o figurino descarta os longos tutus românticos que foram trocados por collants brancos e saias brancas simples, mais fiel à estética minimalista que George Balanchine estabeleceu como padrão para suas peças. Apenas o NYCB dança assim, todas as outras companhias mantém o romantismo dos espíritos da floresta. Uma tradição que – apesar dos 115 anos em 2024 – permanece atemporal e romântica.


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