Estamos a um episódio do fim de Xógun e o heroísmo de Mariko(Anna Sawai) é mais do que explosivamente comprovado. Sim, os sacrifícios pela honra e a independência do Japão, na visão de Toronaga (Hiroyuki Sanada) valem todo sofrimento. Nós, ocidentais, representados por John Blackthorne (Cosmo Jarvis), temos outra visão e a conclusão do penúltimo episódio nos coloca em xeque com o herói da saga.
Xógun é uma história complexa de amor, vingança, conflitos religiosos, políticos e econômicos, é difícil entender as alianças que se formam e desfazem, a Igreja e os Portugueses no pano de fundo e diante disso tudo, Mariko tem uma trajetória triste, mesmo que grandiosa.

Chegamos à Osaka, onde Ishido (Takehiro Hira) deixa cada vez mais claro, embora insista em fingir que todos estão de acordo com as aparências, que é ele quem manda. Sua união com Ochiba (Fumi Nikaido) é disfarçada como lealdade, mas, a essa altura, estão todos meio de saco cheio do teatro. Poucos ainda se convencem que Toronaga se submeteu ao Conselho e menos ainda fingem comprar a motivação de Ishido. E as vidas são perdidas no meio do impasse.
É como as metáforas de Toronaga: as pessoas são previsíveis (incluindo ele). Portanto, ele antecipa com precisão que Yabushige (Tadanobu Asano) vai tentar mais uma vez ficar do lado vencedor, que parece ser o de Ishido. Blackthorne é indiferente a essa altura, portanto ele só pode contar com Mariko.
Parte do objetivo da missão dela, alinhada com Toronaga, é expor Ishido em sua mentira de que todos estão em Osaka com liberdade de sair. Ela demanda voltar para Edo com a mulher e nora de seu Senhor, e, claro, sangue é derramado pois a verdade é que Ishido tem todos como reféns. Ela diz isso em voz alta, mas força a mão para criar uma situação.

Ochiba fraqueja ao ver a amiga de infância e aqui há uma profundidade mal explorada nessa rivalidade entre elas. A família de Mariko morreu ao expor à de Ochiba, mas a mãe do herdeiro claramente admira e ama Mariko. Ela tenta veladamente convencer a “irmã de criação” a desistir de Toronaga, mas a honra está acima de tudo.
E aqui está uma das grandes falhas de Xógum para cultura ocidental. É virtualmente impossível, mesmo no século 21, entender o comprometimento inabalável da cultura japonesa com a questão de vida e morte, certo ou errado. A manipulação de Toronaga, a meu ver, é exatamente igual à de Ishido, apenas com uma bandeira mais romântica. Ele sacrifica, mesmo sofrendo, os mais próximos teoricamente por um ideal, mas, no final das contas, apenas ele é quem fica vivo.
Dito isso, ele mantém sua jogada e é Mariko quem dá o cheque-mate: qualquer alternativa possível expõe Ishido e favorece Toronaga. Se “prender” Mariko, é o déspota que finge não ser. Se a deixa ir, os outros “convidados” também poderão ir e ele perde o controle, da mesma forma, se atacar também cai a máscara. Portanto, Mariko exige que ele a deixe ir, mas Ishido recusa. Ela tenta à força, mas ele tem mais homens. Ela anuncia então que fará sepukku e – diferentemente de Toronaga, que a essa altura nem as mortes de seu general ou filho convencem os inimigos de que não esteja armando algo – a decisão dela choca todos. Afinal, há 14 anos ela implora para poder seguir o destino de sua família, mas não tem a permissão do marido. Como agora tem, o que a impede?

Todos, incluindo Ochiba, imploram à Mariko que desista, mas ela insiste. Blackthorne pede em nome do amor dos dois, mas nem isso a abala. Na hora H, ele se voluntaria a ajudá-la, mas ela é salva com o recado de que Ishido a deixará ir. Ela e Blackthorne passam a noite juntos, finalmente entregues ao que sentem um pelo outro. Mas faltam ainda 10 minutos de episódio. Nunca um bom sinal.
Previsivelmente, Ishido está armando algo e conta com o inseguro Yabushige como meio de contra-atacar. Prometendo salvá-lo do destino dos féis à Toronaga, o samurai abre a porta para a os homens de Ishido, que ocupam o palácio na calada. Em um rastro de mortes, eles estão atrás de Mariko, surpresa com o ataque. Ela e Blackthorne lutam, com um Yabushige ao mesmo tempo supreso e incerto de quem finalmente ajudar.

A tensão cresce e o grupo tem que se esconder em um cômodo de portas mais fortes, mas sem saída. Do lado de fora eles percebem que os homens de Ishido vão explodir a porta para entrar e atacá-los, por isso Blackthorne se desespera e pede ajuda à Yabushige, mas finalmente ele assume que não vai ajudar. Mariko, mesmo sem estar surpresa, faz uma decisão rápida, para desespero de Blackthorne: se coloca atrás da porta para salvar as outras pessoas. E na explosão que termina o episódio vemos que ela finalmente realizou seu sacrifício. Toronaga perde a última pessoa próxima de sua total confiança, não sabemos ainda como será a reação de Blackthorne.
A morte de Mariko, tentando ajudar Toronaga e sua família, é uma “surpresa” para quem não conhecia o livro ou a série, mas como já comentei, me pareceu queimar Toronaga para o grande público. A estratégia de surpresa, que ninguém realmente comprou, foi possível apenas com ele se preservando de ataque direto e usando seus amigos para morrerem por ele. A essa altura só quero que Blackthorne saia correndo do Japão. Mas não vai.
Mariko é a grande heroína de Xógun, mas seu sacrifício ficou “datado”. Perdê-la vai marcar muito a conclusão da série. Sentirei sua falta.
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