The Jinx – Parte 2: O ego nas histórias de True Crime

Muitas pessoas têm, o que eu considero, um complexo de Hercule Poirot, o detetive belga criado por Agatha Christie que era extremamente inteligente, portanto solucionava crimes que a polícia sozinha não conseguiria. Vaidoso, ele é ainda hoje um mito. De alguma forma, jornalistas investigativos querem ter o momento aha e ser a pessoa mais esperta do ambiente, sendo que muitos conseguem. Aprecio muito. O documentário The Jinx, de Andrew Jarecki é um dos mais bem sucedidos e incríveis casos de documentaristas estudando um caso (existem inúmeros canais do youtube tentando a mesma coisa) e diferente de muitos, solucionaram um crime considerado frio por décadas. Incrível! Prêmios, Justiça e História. Vemos agora uma segunda temporada. Por que?

O filme com Ryan Gosling foi a semente

Não há como definir como a misteriosa e trágica vida do milionário Robert Durst sem incluir a palavra “fascinante”, embora seja o oposto de positiva. Sua família é uma das mais ricas de Nova York, dona de um império imobiliário e é assustador a teia de mortes e desaparecimentos de pessoas ao redor de Robert, ou “Bob”, como ele costumava se apresentar.

O primeiro mistério na vida dele girava em torno das circunstâncias da morte de sua mãe, quando ainda era criança e ela “caiu” ou se jogou do telhado de sua casa e ele teria testemunhado sua morte. Já adulto, virou notícia quando sua esposa, Kathleen McCormack, “desapareceu” em 1982 e até hoje nenhuma evidência de sua morte (obvia, 42 anos depois) foi encontrada. Aqui está a semente de The Jinx, que se traduz como “má sorte” e que era o que ele teria alegado tentar evitar se recusando a ter filhos com ela.

Anos depois do sumiço de Kathie, Robert Durst esteve envolvido em mais dois crimes: um do qual surpreendentemente foi absolvido apesar de ter feito a vítima em pedaços, e o assassinato de sua melhor amiga, Susan Berman, que eventualmente o levou à prisão (onde morreu em 2022) e que foi o crime que o documentário solucionou depois de 14 anos. O diretor, Andrew Jarecki, obcecado com a história, em 2010 fez o filme Entre Segredos e Mentiras (All Good Things), com Ryan Gosling e Kristen Durnst, que não foi um mega sucesso, mas que foi visto por Robert Durst. Mais ainda, foi apreciado por ele.

No filme, Jarecki tem o cuidado de não mostrar como ele teria matado Kathie, mas “explica” a estranha personalidade dele como uma consequência de uma infância marcada por abusos psicológicos de seu pai e Durst apreciou a vertente, buscando contato com o diretor para elogiá-lo. Assim nasceu, estranhamente, The Jinx.

A consequência do documentário da HBO

Exibido em seis episódios em 2015, The Jinx é fascinante porque conta com os depoimentos de Durst e os viciados em mistério, embarcaram com a equipe nessa oportunidade bizarra de tentar solucionar uma vez por todas as mortes ainda não solucionadas dessas duas mulheres. A reviravolta foi eletrizante.

No meio das gravações, onde Robert Durst se sentiu confortável para falar de tudo, Jarecki e sua equipe esbarram em uma evidência ainda desconhecida pela polícia e que ligava, sem sombra de dúvida, o milionário à morte de Susan Berman, No filme, ele manda matá-la e escapa, no documentário fica evidente que ele a matou pessoalmente.

Recomendo assistir The Jinx para ver os detalhes porque os prêmios que o documentário viria a ganhar, incluindo um Emmy, são justificados. A narrativa é bem construída, e, no último episódio, Durst confessa não apenas ter matado Susan, mas Kathie também, tendo esquecido que estava com o microfone ligado e falado alto para si mesmo: “Matei todos”. É arrepiante.

Como é mostrado no documentário, a equipe tem que finalizar o trabalho mas também confrontar Durst e submeter as provas à polícia. Ele foi preso em Nova Orleans, levado para Califórnia, julgado e condenado (pelo crime de Susan Berman), mas morreu em 2022 como consequência da COVID-19, antes de cumprir parte da pena. Tinha 78 anos.

Com isso tudo, o pico de audiência que o documentário teve, seu prestígio e agora fama de ter conseguido solucionar dois dos crimes mais estranhos ao redor de um suspeito trouxe para The Jinx uma referência de excelência, que já vou endereçar em um minuto. O fato é que as gravações não pararam com a prisão de Robert Durst, afinal teria que ir até a sua condenação e agora, quase dez anos depois, a MAX exibe The Jinx – Parte 2, que vai concluir a parte investigativa do crime.

O que ficou de fora? O que é preciso saber de The Jinx?

Há uma delicadeza sobre The Jinx que merece um alerta que é a mesma armadilha de toda matéria jornalística ou documentários: não há isenção. E quando falamos de “narrativa” ela nos conduz a uma conclusão, esbarrando com frequência com manipulação. É por isso que jurados têm que estar isolados e são questionados antes para ver se já tem alguma opinião formada antes do julgamento. A Justiça no mundo ideal, escuta os dois lados e diante de evidências proporciona uma resposta que não pode lidar com dúvidas.

Não tenho dúvida da culpa e participação de Robert Durst em todos os crimes nos quais seu nome esteve envolvido e acho o trabalho de Andrew Jarecki incrível. O que é importante saber é que a gravação da confissão foi pesadamente editada e o que ouvimos no episódio final tem um impacto conduzido/manipulado na nossa conclusão.

A confissão na íntegra é mais confusa, ele se pergunta o que está fazendo (de falar com os documentaristas) e entre as palavras soltas, a frase “O que fiz, claro que matei todos” nunca foi dita assim. Editada para clareza? Pode ser. Mas editada da mesma maneira.

Outra coisa que ficou de fora foi o questionamento de quando o FBI foi alertado porque é um tanto estranho que Robert Durst tenha sido preso dias antes da exibição do episódio final. Eu trabalhei com jornalistas investigativos quando estava na TV e acompanhei esse dilema mais de uma vez: “perder” o “furo” ou ganhar tempo, ajudar a polícia e ainda ter a notícia. Não entro nos méritos desse conflito porque não sou e nunca fui investigativa. Mas por ter essa experiência entendo onde está o campo cinzento entre jornalismo puro e obstrução da Justiça.

Sabemos que o jornalismo tem esse papel investigativo e incômodo diante da verdade. The Jinx teve esse papel. A segunda parte que começou a ser exibida certamente endereçará em algum momento essa polêmica.

Onde o Ego interfere

The Jinx – Parte 2 começou com uma armadilha natural de fascínio próprio com o que alcançou. É uma egolatria que só tem espelho no próprio ego inflado de Robert Durst. Mas ainda acredito na virada dos documentaristas.

O material que conseguiram (gravações do próprio assassino conversando com o FBI ou amigos), é tão rico que é eletrizante. O problema aqui é que sabemos como a história acabou, ainda que não tenha solucionado o desaparecimento de Kathie satisfatoriamente. Será que vão revelar algo inédito?

Vou acompanhar, claro. Afinal, já sabemos quem fez, estamos aguardando Poirot nos dizer como.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário