Hollywood é fascinada por jornalistas: ou são heróis ou são vilões, mas sempre são vitais. The Morning Show vem ganhando prêmios e elogios, mas apenas a terceira temporada está com alguma qualidade. Sabe a série que ninguém sabe e que é excelente? As Garotas do Ônibus, da MAX, que estreou em março e que apenas a dois episódios do fim chegou ao meu radar. Onde eu estava? Onde você estava? Como essa série não está sendo comentada como deveria?
As Garotas do Ônibus tem tudo: saiu de um best seller, é inspirado em uma história real, tem drama, comédia, surpresas e um elenco feminino espetacular, essa sim é uma série sobre bastidores jornalísticos que vale acompanhar.

A origem: a repórter que acompanhou a campanha de Hillary Clinton
Amyz Chozick hoje é repórter do New York Times, mas, em 2008, estava no Wall Street Journal e foi designada para acompanhar a campanha presidencial de Hillary Clinton. Em 2016, já no NYT, seguiu a candidata novamente, o material, bem, não foi visto como isento pelos Republicanos. E ainda assim, conseguiu deixar os Democratas igualmente insatisfeitos. O que faria o trabalho dela estar certo, não é? Mas de alguma forma, ela se “sente responsável” pela derrota da candidata, e escreveu um best seller – Chasing Hillay – que aborda todos os bastidores da cobertura dos jornalísticos políticos.
Narrado na primeira pessoa, o livro é repleto de boas tiradas e histórias verídicas contadas com transparência suficientes para – adivinhou – chamar a atenção de Hollywood. Afinal, contém todos os elementos de uma boa história. Ainda mais porque coloca questões humanas além da política e sim, traz uma série deliciosa de se acompanhar.
Elenco afinado, viradas e surpresas
A série Garotas no Ônibus usa como base o livro de Amyz, mas passa longe de personagens reais, um certo alívio hoje em dia. Se leva bem menos a sério do que The Morning Show e isso, acreditem, faz TODA diferença. Como jornalista posso assegurar que os bastidores no ônibus são bem mais realistas do que o da redação da UBA. E as personagens também são mais críveis e empáticas.

Acompanhamos a cobertura da campanha presidencial feita por vários jornalistas, mas em particular quatro mulheres diferentes entre si de idade, filosofia e estilo, mas que se encaixam e formam um quarteto maravilhoso. Elas são Sadie McCarthy (Melissa Benoist), que cobre para um jornal impresso de Nova York; sua concorrente direta, mas sua amiga pessoal, a experiente Grace (Carla Gugino), a influencer Lola (Natasha Behnam) e a repórter de TV Kimberlyn (Christina Elmore).
Como é comum em coberturas intensas, apesar das diferenças, essas mulheres tão diferentes acabam criando um elo inspirador, sempre testado pela apuração e agilidade da notícia. Com elas sofremos com os dilemas comuns para mulheres ao redor do mundo: escolher carreira ou vida pessoal? como lidar com o machismo e o patriarcado? é possível ser isento em uma cobertura? é esperada neutralidade? O que pesa na narrativa: cabeça ou coração? Em 10 episódios tudo pode mudar de uma hora para a outra.
Tudo que falta em The Morning Show, está em As Garotas do Ônibus
The Morning Show conta com um grande elenco, mas, apesar das premiações, atuações nem tão inspiradas de Jennifer Aniston e Reese Witherspoon. O pior, no entanto, é tentar abraçar TODOS os temas e ainda ser didática, se transformando em uma série irregular. Começou com #metoo, passou para cancelamento e agora está na parte dos negócios. Essa flexibilidade de assuntos atrapalha no envolvimento do público com as personagens.

As Garotas do Ônibus tem um problema que é justamente o nome da série. Sim, o ônibus é o elemento que une as pontas, uma espécie de redação ambulante, mas que não nos diz nada, de verdade. Mas tirando isso, todas as personagens têm maior sentido e realismo do que sua competição.
O carisma de Melissa Benoist é inegável e sua Sadie seria o ater ego de Amyz, cuja admiração pela candidata Felicity Walker (Hettiene Park) reflete o que ela sentiu por Hilary quando cobria sua campanha. Seu envolvimento com Malcolm (Brandon Scott), secretário de imprensa de Walker, atrapalha sua credibilidade mas é sua conturbada vida pessoal que a cega para o verdadeiro perigo da campanha de Haydon Wells (Scott Foley), um protótipo de Trump que está ainda fora do radar das nossas jornalistas porque as quatro, como é comum para mulheres, têm que lidar com seus problemas pessoais em meio à culpa e cobranças, fazendo da reportagem de todas ficar ainda mais desafiadora.


É por causa de Sadia e sua obsessão por Hunter S. Thompson, que nos anos 1970s fez a cobertura da eleição presidencial para a Rolling Stone, coletando sua experiência no best-seller Os Garotos do Ônibus, uma leitura obrigatória para jornalistas. O livro de Thompson narra a cobertura da eleição presidencial americana de 1972, que elegeu Richard Nixon e seu texto, brilhante, traz um olhar fresco para o mundo da política.
Embora como Sadie, Melissa seja a principal, que rouba todas as cenas é a elegante, misteriosa e incrivelmente talentosa Carla Gugino que faz de Grace, a repórter premiada e experiente uma das melhores coisas de As Garotas do Ônibus.

Portanto fica a dica: As Garotas do Ônibus é uma das melhores séries de 2024. Faltam dois episódios, será que teremos uma segunda temporada?
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