Há uma ironia obvia em torno da fadiga dos super-heróis quando lembramos da derrota deles para Thanos e a frase dele, calmamente explicando que a morte deles (e dos humanos) era inevitável. A metáfora é perfeita demais para ignorar quando se trata da indústria do entretenimento. E parece que – na onda de reality é a nova ficção – estávamos vivendo na pele o que estava nas telas. Não é?
Vejamos, Hollywood estava sendo “salva” pelas franquias de super heróis que bombavam nas bilheterias, vendiam bonecos, fantasias, livros, gibis e movimentaram fãs nos quatro cantos do planeta. Eles se multiplicaram e tínhamos um plano de seis fases, que cobriam décadas. Imbatíveis, mesmo com diretores e atores mais focados em Arte reclamando.
E aí veio o blip, ou melhor, a pandemia. Num estalar de dedos, as pessoas se isolaram, sofreram e se reinventaram. O consumo das plataformas dos estúdios foi estratosférico diante do vazio e da impossibilidade de circulação. O mundo era definitivamente dos heróis. Até que, em outro aparente estalar de dedos tudo mudou. Estamos na onda que chamam de “fadiga” do tema e os dedos agoram se apontam para todos os lados: seria inevitável?
Cansamos ou mudamos?
Os números não mentem, os heróis não andam lucrativos, ou melhor, não tanto como antes e em Hollywood, em geral, é tudo ou nada. Os reativos que estavam de fora celebram “o fim”, os fãs estão sem tempo para ficar fazendo avaliação existencial e os criadores estão tentando entender o que houve. Hoje a discussão – na Variety – traz justamente os irmãos diretores Joe e Anthony Russo, até ontem os “heróis” da fase de ouro, hoje defensores do passado recente. ” Estamos em um período de transição e as pessoas ainda não sabem como receberão as histórias daqui para frente ou que tipo de histórias vão querer,” Joe Russo disse à revista.
E é isso, as “ondas” que dominam o consumo demandam sempre os pioneiros, gera muito retorno para os que seguem e depois fica na marola de quem entrou tarde demais. Os super-heróis impactaram os filmes por nada menos do que 20 anos, entregando qualidade artística, inovação e diversão. Sim, repito: qualidade artística. Há temas interessantes, boas interpretações e inovações em meio aos clichês esperados. Quem pode ignorar WandaVision e as primeiras temporadas de Loki?


A tal “fadiga” está longe do que poderíamos chamar de fracasso. Como a Forbes mesmo menciona, estamos falando de quase dois bilhões de dólares quando se une as bilheterias dos dois melhores desempenhos em 2023, com um de quase meio bilhão justamente com o filme que “deu errado”. O único que todos admitem ter sido ruim e mal é As Marvels, mas nem gosto de entrar no campo pois na maior parte o que se alega “contra” o filme ou é xenófobo, homofóbico ou misógino, quando não combina os três.
Não, como sabemos que há o meme, Thanos estava certo, frequentemente comprovamos a teoria dele que não merecemos o que temos na Terra. Daí nossos “heróis” entrarem em campo para contextualizar o momento. Sim, estamos na transição para a nova onda, seja ela qual for. É, desculpem, inevitável.
É só olhar para trás e ver como os gêneros que “deram certo” mantiveram sua hegemonia para render para os estúdios: os filmes bíblicos dos anos 1950s, o cinema catástrofe dos anos 1970s, os sci-fi galáticos dos anos 1980s e no final dos anos 1990s, nossos super-heróis. Trilogias eram o máximo por um tempo, agora são “franquias” que nos sequestram para determinado universo onde somo bombardeados de conteúdo periférico. É só escolher.
O fato é que tanto true-crime como biografias, que sempre agradaram, estão ainda no auge, mas também serão eventualmente substituídas por algo e seja com a ajuda do algoritmo ou a indução dos números, a bola de cristal ainda não determinou “o que vem por aí”. E é o que Joe Russo comenta na entrevista da Variety.
Ele e o irmão assinaram os maiores sucessos de bilheteria da Marvel e garantem que o gênero não cansou. O que estamos testemunhando é a evolução.
“Há uma grande divisão geracional sobre como você consome mídia”, ele disse. “Tem uma geração que está acostumada a ir ao cinema em determinada data para ver alguma coisa, mas isso está envelhecendo. Enquanto isso, a nova geração diz “Eu quero agora,”, e depois passa para a próxima coisa, que processa enquanto faz outras duas coisas ao mesmo tempo. E então acho que todos, inclusive a Marvel, estão vivenciando essa transição. E acho que é provavelmente isso que está em jogo, mais do que qualquer outra coisa,” comentou.
Onde memes e gifs respondem pelo resultado
Um dos desafios mais incômodos de grandes estúdios e plataformas é a falta de controle de como seu material sobreviverá uma vez que chega ao mercado. Sim, há como “influenciar” youtubers e tiktokers que são os “influencers” para direcionar o que se almeja, mas, efetivamente, até surgirem os memes e os gifs e ganhar uma vida em rede social mundial, não é sucesso. E eles são expontâneos, a única coisa que se pode rezar é que eles proliferem como Gremlins se forem alimentados e molhados.
Se há uma coisa que a juventude atual desafia as gerações anteriores é justamente uma resistência à tudo que seja obviamente conduzido. O controle é deles. Sempre. E é o que Joe Russo também comenta: tudo tem 100 caracteres ou menos – ou vídeos de 10 segundos nas redes sociais que você navega”, diz. E é verdade: na deficiência de atenção crônica, tudo tem que ser comunicado em duas frases ou palavras e ser irônico. Não há como combater a cultura binária com respostas inexatas.
Isso impacta no formato também. Cineastas que apostam em Arte não conseguem entregar filmes menores do que 2h30, e, em geral, tem insistido em três horas. Dar certo com essa prepotência não é descartado, mesmo com o argumento de que se tem qualidade as pessoas respondem. A questão é: precisa ser tão longo ou tão curto?
“Acho que o formato de duas horas, a estrutura necessária para fazer um filme, já tem mais de um século e tudo sempre transita. Então, há algo acontecendo de novo e essa forma é repetitiva. Mas é difícil reinventar essa forma e penso que esta próxima geração está à procura de formas de contar as suas próprias histórias que sirvam o seu próprio tipo de TDAH coletivo,” comenta o diretor.
Claro que os irmãos Russo não ousam sugerir que eles têm a nova fórmula em mãos. Ninguém tem. Talvez Thanos?
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