Milady é considerada por alguns a melhor criação literária de Alexandre Dumas. Por trás de sua agressividade e astúcia, o que a destaca dentro e fora do romance Os Três Mosqueteiros é que ela é uma personagem ricamente misteriosa. Obviamente, no cinema, ela é um papel perfeito para atrizes bonitas e que gostam de brincar de ser a antagonista.
No livro, ela é uma personagem que cresce e que ganha protagonismo, se tornando a principal antagonista – e personagem feminina – de uma trama masculina. Claro, se os homens são heróis, ela tem que ser a vilã, mas se lermos as entrelinhas, sua história de sobrevivência é trágica e desafiadora de um sistema opressor.

Quem é Milady?
Nos filmes, não aprofundamos na infância ou juventude de Milady, normalmente variando entre sua sinceridade e falsidade, até mesmo, conclusão, mas, no livro, a conhecemos e nos despedimos sem jamais ter certeza do que realmente é honesto sobre ela, até mesmo, seu nome.
Nas páginas de Dumas há várias dúvidas: ela é a esposa assassinada de Athos? Se sim, como sobreviveu ao enforcamento? Ela afirma ser inglesa, mas fala francês perfeitamente. De onde ela é? O que ela fez para ganhar aquela flor de lis? Qual é a sua ligação com o sequestro de Madame Bonacieux e com os esquemas do Cardeal em geral?
As questões que o autor brilhantemente vai colocando na primeira parte da história ele tenta responder na segunda, por isso há, normalmente, dois filmes para fechar a trama, sendo a segunda, como sabemos, dedicada à Milady. Há homens que reclamam que ao colocá-la como protagonista, a obra “perde” pois acham que o que interessa são os homens. Que engano, não é? Milady é infinitamente mais interessante e sim, o segredo da atemporalidade da obra de Alexandre Dumas.

Ao que parece, seu nome verdadeiro é Anne de Breuil, que é o nome que Athos tem como ser o dela, mas, no fundo, nem disso temos certeza. O que nos contam – lembremos que são narradores masculinos – Anne, com apenas 16 anos, estava em um convento se preparando para ser freira, mas teria “seduzido” um padre e fugido com ele, sendo que a partir daí aplicariam golpes para sobreviver.
Quando descobertos, teria sido “ela” que o “convenceu” a roubar os vasos sagrados da igreja para financiar uma nova vida longe dali, mas foram rapidamente detidos e presos. Em seguida, Anne teria seduzido o filho do carcereiro e escapado, deixando para trás seu primeiro amante que foi marcado por roubo.
Dumas, o noveleiro Alfa, inseriu um twist importante: o carrasco que teve que marcar o padre era justamente seu irmão, portanto ele culpa Milady por “desencaminhar seu irmão” e por isso jura vingança. Sozinho a localiza e a mara no ombro com o mesmo símbolo da flor de lis, o símbolo de uma criminosa condenada. O problema é que o ex-padre ainda a ama, e foge com ela para uma pequena cidade, onde se passam por um pároco e sua irmã.

É lá que Anne conhece Athos, o herdeiro das terras onde estão e ele se apaixona por ela. Mesmo com a oposição de sua família que não sabe nada do passado da noiva, ele se casa com ela e assim Anne passa a ser a Condessa de la Fère.
A união aparentemente era feliz até que um dia, quando caçava com o marido na floresta, Milady caiu do cavalo e desmaiou. Para que ela pudesse respirar, ele cortou suas roupas e só assim – estranho não?- é que ele vê a marca no seu ombro. Desesperado, mas “com um senso de fazer o que é certo”, Athos então a imediatamente a enforca em uma árvore. O padre foge antes de responder pelo golpe.
A partir daí, Athos passa a ser um homem fechado e sofrido, pois amava Anne, mas presume que sua esposa traiçoeira está morta por suas próprias mãos, sem saber que ela sobreviveu ao enforcamento e que ela e Milady são a mesma pessoa, que é a grande virada a história. E há o qui pro quo: como ele deixa o título de Conde de la Fère para ser Mosquesteiro, Anne comete o mesmo erro ao presumir que seu primeiro marido está morto. O reencontro dos dois é épico.
O mistério da sobrevivência e o poder de se reinventar
Dumas nunca esclarece como Anne conseguiu sobreviver ao enforcamento ou como chegou a ser recrutada por Richelieu, mas do momento em que “Anne morreu” ela reaparece na Inglaterra como Charlotte Backson, a Lady de Winter. Não menos golpista ou cruel, até mais.
Dominando um inglês sem sotaque, Anne se faz passar perfeitamente como britânica e em algum momento conhece e “seduz” o Barão Sheffield, o irmão mais novo de Lord de Winter. Ela rapidamente fica viúva, em questão de horas após o casamento, quando o marido morre violenta e misteriosamente, a deixando um filho pequeno, que é o único herdeiro de Lord de Winter. Obviamente, o irmão desconfia e jura vingança.
É como Milady de Winter que Anne/Charlotte cruza com D’Artagnan, virando uma obsessão para o espadachim. Há muitas reviravoltas de seduções e mentiras entre os dois, mas em determinado momento ela o torna o objeto de sua ira e jura matá-lo porque ele descobre que Milady é a esposa de Athos ao ver a marca da flor de lis no ombro dela. Com isso, ela claramente é responsável pelo sequestro da amada dele, Constance, e sem nenhuma sombra de dúvida é a autora de seu assassinato.

É justamente a decisão de matar D’Artagnan que leva a queda de Milady e sua morte. Ela faz um acordo com Richelieu de matar o Duque de Buckingham em troca de um perdão por todo seu passado e a execução do mosqueteiro. Athos a confronta, mas não consegue matá-la.
Mesclando a verdade com a ficção, Dumas coloca o verdadeiro John Felton como carcereiro de Milady quando ela é presa na Inglaterra. Sob sua influência, ele mata o duque (um evento histórico real), mas é abandonado por Milady e enforcado sozinho pelo crime. Eventualmente Milady é rastreada e capturada pelos Mosqueteiros. Ela os desafia até a morte ter alguma prova de seus crimes, mas em uma longa e complexa reviravolta, o carcereiro que a marcou está presente e pode testemunhar que como Anne, Milady tem roubado, mentido e assassinado há anos. Sua condenação à morte é imediata e é decapitada diante dos homens que tanto odiava.
Fascinante, mesmo que cruel
Milady é considerada a força motriz da história pelo poder que exerce sobre todos os personagens masculinos. Sem ela seria uma história sem graça de homens arrogantes e briguentos. A cada nova revelação sobre seu passado percebemos que é uma mulher diferente das outras, com poderes de persuasão inigualáveis.
Em geral, românticos gostam de colocar nos filmes que ela efetivamente amou Athos, mesmo que brevemente. No livro não há essa sugestão. Ao contrário, para ressaltar as virtudes de D’Artagnan e dos Mosqueteiros, ela é tudo de ruim em uma só pessoa, em especial, mulher. Afinal, o espadachim é ambicioso em um universo moral de ideais elevados, e suas “falhas” são justificadas de alguma forma. Ele seduz, assedia mulheres, mas é um jovem que o faz por ideais nacionalistas.
O fato de que estão prontos para morrer um pelo outro ou por seu rei reforça o pensamento de que preferem “a morte antes da desonra”, o que nunca inclui respeitar as mulheres. Faz parte do machismo da época, claro, mas que faz de Milady uma ousada representante feminina que desafia a hiprocrisia da sociedade da época.
Inspirada em duas mulheres reais e o segredo do sucesso
Há muito se especula que Alexandre Dumas se espelhou em duas mulheres verdadeiras para criar essa personagem icônica. Por conta do roubo dos brincos de diamante da Rainha Anne, da França, é aceito que a nobre inglesa, Lucy Hay, a Condessa de Carlisle é a base para a história de Milady. Embora a fonte tenha sido a versão contada por Marie de Rohan, duquesa de Luynes, que aparece no livro Os Três Mosqueteiros como amante de Aramis, pode-se considerar que ela mesma também tenha inspirado o escritor.

O fato é que 180 anos depois (o livro é de 1844), Os Três Mosqueteiros ainda é popular e Milady também. É uma obra ágil e divertida, representa um desenvolvimento importante na ficção histórica e popular, um best seller imediato que combina romance histórico e romance em uma única história, criando o gênero da “Ficção histórica”, tão em voga ainda em 2024.
Alexandre Dumas revolucionou o “romance histórico”, até então sempre marcado por ritmo lento, historicidade precisa e prosa arcaica, ao escrever deliberadamente em prosa moderna e coloquial. A trama fictícia era mais importante do que a história que a rodeava, com seus personagens nos conduzindo pela História real apenas como pano de fundo. Ela nos dá sentido de época e de lugar, mas só percebemos quando importa. Ele nunca se atrapalha, proporcionando ume scapismo fascinante.
Para os franceses pós- Revolução, um dos charmes é ter pessoas comuns liderando a aventura, criando uma identificação com eles. Para os especialistas, a maior conquista de Os Três Mosqueteiros não é a recriação perfeita da história, dos costumes ou do clima do período que pretende estudar, mas justamente a de um mundo de faz-de-conta extraordinariamente satisfatório e reconfortante.
Milady no cinema
Várias atrizes de peso deram vida à Milady no cinema e TV, com Eva Green sendo a mais recente e mais próxima do que está no livro, de alguma forma (ela é bilíngue, filha de ingleses e franceses portanto navega como Anne, com facilidade nos idiomas).

Antes dela, Rebecca DeMornay e Mila Jojovich tiveram boas atuações, mas, as mais famosas são as divas Lana Turner e Faye Dunaway.
Lana afirma em sua biografia que Milady foi seu papel mais divertido e amado, com uma atuação elogiada e um visual inesquecível (quase sempre abusando dos tons verdes que lembram o quadro de Lucy Hay. É a minha favorita de todas.

Já Faye Dunaway, hilária na versão icônica de Richard Lester dos anos 1970s, traz uma Milady que quase sempre está de branco, em contraste à escuridão de sua alma. Como escolher a melhor?
Em tempos atuais seria fascinante saber mais das motivações de Anne de Breiul e como seu compromisso pela independência e autonomia em uma sociedade machista a colocou no lado criminoso. Será que um dia a teremos efetivamente revelada?
Dumas matou Milady em 1844, mas na sequência da história, publicada em 1845, chamada de Vinte Anos Depois, é o filho de Milady com o Lorde de Winter, Mordaunt, agora com 23 anos, que assume o papel de um dos principais antagonistas. Ele é descrito “tão perverso e enganador como a sua mãe”, e quer vingar sua morte. Consegue efetivamente matar alguns dos envolvidos e se envolve na Guerra Civil Inglesa e comete regicídio, executando o rei Charles I, apesar dos esforços de d’Artagnan e dos três ex-mosqueteiros para evitar o crime.
Em mais uma série de reviravoltas, Mordaunt eventualmente é pego “pelos heróis. Athos, ainda apaixonado por Anne, hesita a matá-lo, mas quando é enganado por ele, acaba efetivamente acabando com sua vida. Pobre Anne, nem seus herdeiros foram bem vistos na literatura. Vale resgatá-la!
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