Entregando a idade e flertando com o cancelamento, Bridgerton é uma espécie de Sabrina atualizada, com a mesma história sendo contada por formas diferentes.
Para quem é novo demais para entender a referência. Sabrina era uma coleção de romances populares de baixo custo, vendidos em bancas de jornal e que sempre eram histórias de amor, sexo e aventuras exóticas, livros que encontrávamos nas casas de nossas avós ou tias solteiras, que sempre tinham mulheres independentes, mas em busca de um príncipe encantado, em geral um homem complexo e tóxico transformado pelo amor. E os oito livros que servem de base para Bridgerton, escritos por Julia Quinn, são bem nessa linha.

Transformados em franquia pela Netflix, desde 2020 que a série Bridgerton vem engajando fãs ao redor do mundo. Fora das páginas, a série virou veículo de inclusão, divertidamente anacrônica e moderna, engajando jovens em histórias de um período pré-vitoriano de grandes histórias de amor. A terceira temporada chegou à sua conclusão focando na personagem mais interessante, Penelope Featherington, que passa por um desenvolvimento significativo ao longo da história e vira, oficialmente, uma Bridgerton.
Ao longo dos quatro episódios que faltavam para encerrar essa etapa, acompanhamos histórias de amor e, mais ainda, a de afirmação feminina. Honestamente, a arte de nos envolver com simplicidade nunca esteve tão obvia. Tudo é bobagem, mas viramos adolescentes e nos deixamos levar, torcendo, rindo e se emocionando. Bridgerton é um dos maiores acertos da plataforma. Vamos analisar.
A MVP da temporada: Penelope Featherington (Bridgerton)
Penelope Featherington é inicialmente apresentada como uma jovem tímida e subestimada da alta sociedade londrina. Uma jovem inteligente e observadora, mas que não se encaixa nos padrões convencionais de beleza da época, ela é a melhor amiga de Eloise Bridgerton e secretamente apaixonada por Colin Bridgerton, que também é seu amigo.
O que ninguém sabia no início é que o maior segredo de Penelope é que ela é, na verdade, a temida Lady Whistledown, a autora anônima das crônicas sociais que causam tanto alvoroço na alta sociedade e uma obsessão para a Rainha Charlotte. Esta revelação mostra um lado completamente diferente de Penelope, destacando sua inteligência, sagacidade e habilidade de influenciar os eventos sociais de maneiras significativas, mas um obstáculo para superar quando Eloise e Colin descobrem a verdade.

A atriz Nicola Coughan é perfeita no papel, já se destacava mesmo quando Penelope era apenas uma personagem coadjuvante e tomou o protagonismo com carisma e talento. É crível acompanhar o crescimento de Penelope em confiança, perceber os conflitos de aceitação e quando nos afastamos dela a temporada perde muito do clima. Digo isso porque parte da história de Francesca Bridgerton está na temporada e a gente só quer saber de Penelope e Colin.
Depois de “se fazer vista e desejada”, o que na época significava tentar encontrar um marido, ela conquista Colin e se torna uma Bridgerton, com o principal problema sendo o que fazer com Lady Whistledown.
Uma Rainha obcecada, um marido enciumado
Na série, a Rainha Charlotte está determinada em descobrir a identidade de Lady Whistledown porque, a publicação defofocas e revelações, representa uma força incontrolável e desconhecida que ameaça a ordem estabelecida e o controle da rainha sobre as informações. Afinal, Lady Whistledown tem o poder de influenciar a opinião pública e moldar a reputação das pessoas na sociedade, o que a rainha vê como uma ameaça à sua figura de autoridade.
Já Colin, tem uma reação mais contraditória. Um homem de palavra, ele está decidido a não perdoar Whistleblown, mas, mais do que isso, se vê enciumado de ser superado como potencial escritor por Penelope. Incrivelmente ele se vê capaz perdoar as palavras publicadas que causaram tanta dor, mas não o fato de que ela – como mulher – é melhor do que ele.

O acerto da série de colocar o que poderia ser “um detalhe” em uma história se o líder fosse um homem, mas, com alma e públicos femininos, a história passa a ser sobre a afirmação de Penelope como mulher, por e para as mulheres também. Todas refletem sobre sua falta de autonomia de uma forma ou outra e os homens mais sensíveis – Colin volta para o time – tentam compreender e ajudar. Foi a parte da história que ficou mais interessante, refletindo como as mais velhas lidaram e ainda contornam a realidade limitante e como a nova geração tenta (literalmente) reescrever as regras. Nem todas conseguem, mas a sororidade silenciosa é construída de forma inspiradora.
Um mega sucesso que ainda tem mais temporadas
De acordo com a Netflix, apenas no Reino Unido, Bridgerton (incluindo o spinoff Queen Charlotte), gerou mais de um quarto de bilhão de libras e também impulsionou a visitação às áreas citadas na história, como Bath e Bristol.
Como cada livro se dirige a um dos jovens Bridgertons, ainda temos outros a serem explorados na série. Como mencionamos, a história de Francesca apenas começou e faltam Eloise e Benedict também.
A estratégia orgulhosa da plataforma, que não quer dar o braço a torcer que lançar tudo de uma vez só não é uma boa ação e por isso agora divide em dois pacotes, tem prejudicado seu conteúdo. Isso porque não apenas fere o ritmo mas como a Hollywood Reporter avalia, “parece ter acidentalmente chamado a atenção para os pontos fracos do programa”. Sim, como já mencionei, Bridgerton é o Gossip Girl de época, muitas festas, vestidos perfeitos e poucas consequências. Voltando à definição da revista, é “tensão narrativa de alta tensão e reviravoltas que provocam suspiros. É basicamente a personificação do drama de época de “sem enredo, apenas vibrações””.
A principal despedida, paradoxalmente silenciosa, é que, com Penelope assumindo ser Lady Whistledown, demos adeus à Julie Andrews. Na nova versão, a autora será “uma voz para os que não têm voz”, e será a dela mesma. Sentiremos falta!
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
