Reescrever história para amenizar os problemas ou ajudar às novas gerações a navegar na História praticamente se tornou um novo segmento, levando “puristas” ao Inferno e trazendo algumas boas novidades, como Bridgerton. Aliás, a bridgertização das obras já foi alvo de minhas críticas, porque embora funcione em algumas adaptações, o risco de derrapar sempre é maior. Infelizmente a ultra aguardada série My Lady Jane entra nessa lacuna.
Como ela mesma avisa na abertura, a “verdadeira” Jane Grey, que foi Rainha por 9 dias e foi degolada por traição é considerada “chata”, portanto a Lady Jane da autoras Cynthia Hand, Brodi Ashton e Jodi Meadows embarca sem pudor na fantasia e até absurdo, mantendo uma linha quase apagada com os fatos verdadeiros. E o problema é: nem é divertido.

O que My Lady Jane difere da “verdadeira” Jane?
My Lady Jane que oferece uma versão fortemente “reimaginada” e humorística da história de Lady Jane Grey, que na vida real foi rainha da Inglaterra por apenas nove dias em 1553. Jane, que era bisneta do rei Henrique VII, foi proclamada rainha após a morte de seu primo, o rei Eduardo VI, há 470 anos. Mas logo depois que ela assumiu o trono, o apoio à meia-irmã de Eduardo, Mary (a futura rainha Mary I), cresceu, e Jane foi jogada na Torre de Londres, condenada por traição e executada em fevereiro de 1954. Mesmo sem ter tido a menor culpa de ter sido coroada ou ascendido ao trono.


A curta vida da nobre inglesa sempre foi contada “como se deve”: uma história triste de uma jovem vítima de seu tempo, do Patriarcado e sua Fé. No entanto, o trio de autoras decidiu dar a ela um mundo mágico e diferente e para não deixar dúvidas que não quer ser como os outros, incorpora elementos fantásticos, como a existência de pessoas que podem se transformar em animais, conhecidas como “Eðians” e mais ainda, dá a ela um destino significativamente diferente e muito mais otimista do que na vida real, cheio de humor e reviravoltas.
Algumas coisas mantém como conta a História, ela foi colocada na sucessão por idéia de seu sogro e foi forçada a se casar com Guilford Dudley, também executado na vida real, por quem aparentemente apesar de tudo, aprendeu a amar no curto tempo que tiveram de vida e casamento. As autoras tomam liberdades criativas com os personagens, dando-lhes personalidades e papéis que servem à narrativa ficcional e humorística. Por exemplo, Guildford Dudley é retratado de maneira muito mais simpática e romântica, algo que a série manteve.

As primas Elizabeth I e Mary I são antagonistas e as motivações políticas e religiosas complexas que levaram Jane ao trono – que eram reflexo das tensões da época – aqui são simplificados e modificadas para se adequarem à trama fantástica e divertida do livro, mantendo o tom humorístico, repleto de diálogos espirituosos e situações cômicas, o que contrasta fortemente com a natureza trágica da história verdadeira de Jane.
A série: expectativas frustradas
Sim, a My Lady Jane é praticamente o oposto da verdadeira Jane Grey. Afinal para as autoras a meta era fazer uma homenagem à Robin Hood: Prince of Thieves, também com Buffy the Vampire Slayer e sobretudo, o cult The Princess Bride. Mas mesmo na literatura isso era inovador, na TV? Menos ainda. Vimos o Orgulho e Preconceito Zumbis há anos, My Lady Jane parece uma cópia oportunista.
A novata Emily Bader é quem lidera como Lady Jane Grey e, mesmo bonita ágil, não tem o carisma para segurar uma produção confusa como essa. Nem posso dizer que é uma pena, é apenas um erro. Por outro lado, estou claramente fora da faixa etária para a qual o conteúdo foi criado. Se o efeito for oposto, me ignore. Mas se gosta de História, mesmo quando modernizada, me ouça.

É apreciável é que as autoras tenham sido compelidas a tentar imaginar um destino diferente para a trágica Jane (e se divertirem com isso), porque ela é um dos símbolos de crueldade e injustiça da História, mas como todos vêm comparando, A Rainha Serpente fez o mesmo com inteligência superior e maior inovação.
Parte do lado positivo de recontar as histórias das Rainhas Inglesas ou Francesas ou Espanholas com uma perspectiva feminina atualizada é inegável, boa parte do que sabemos dessas figuras reais veio de uma perspectiva masculina que precisou ser reescrita múltiplas vezes. A diferença está em saber fazer a virada. Samantha Morton como Catarina de Médici está impagável, cruel e manipuladora, quebrando a quarta parede e nos dando um relato na 1ª pessoa cheia de ironia. Julianne Moore como Mary Villiers em Mary e George também foi “moderna” e ao mesmo tempo dentro de seu tempo. Vou além, The Great fez um grande trabalho em brincar com a juventude de Catarina, a Grande, com grandes três temporadas e atuações de Elle Fanning e Nicholas Hoult. E não precisaram trazer mágica (literalmente) para isso.

Claro que ter pessoas transformadas em animais e outros seres ajuda a distanciar qualquer compromisso com a verdade, mas da mesma forma se é essa a história, por que ser Lady Jane Grey? A justificativa foi tentar recontar o conflito religioso de forma lúdica, mas nem isso é suficiente. Para Amazon Prime, que vende livros e séries, certamente valeu o investimento. Eu, particularmente, sugiro esperar pela série da MGM Plus, que está para voltar em algumas semanas na sua segunda temporada. A magia dela é bem mais interessante.
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