Vikings: Valhalla estreou na Netflix, durante a pandemia, com a missão de animar os apaixonados fãs de Vikings e conquistar novos fãs. Ficou no meio do caminho, exatamente como sua conclusão apressada, quase abrupta, que nos faz nos despedir dos “novos” heróis no meio de uma grande aventura. A sensação foi de que a série acabou sem avisar aos roteiristas, meio que desligando a luz no meio de uma batalha ou de um discurso, um final estranho e inconclusivo. Infelizmente.

As diferenças e escolhas de Vikings:Valhalla
Vikings: Valhalla se passa cerca de 200 anos depois de Vikings, mas traz personagens fascinantes, casa um podendo ter sua própria série. Sim, ainda mais do que o original! Todos os principais são mesmo personagens históricos, de Freydis à Emma, com algumas liberdades artísticas, mas ainda com um potencial dramático ímpar… mas mal aproveitado.
Uma das qualidades da série de Michael Hirst foi saber eleger seu protagonista. Vikings seguia Ragnar Lothbrok e seus filhos, com outros lendários nomes como os de Rollo, Harald ou Ecbert sendo seus coadjuvantes. Já Jeb Stuart elegeu um trio – Harald, Freydis e Leif – como líderes, mas traçou a aventura de Canute – o primeiro Rei viking da Inglaterra – à parte. Isso deixou a história mais fraca e confusa.
Claro que se a escolha fosse seguir Canute o deixaria muito vulnerável às comparações com Ragnar, por isso a série da Netflix estabeleceu uma relação fictícia do último rei viking, Harald Hardrad com os irmãos Leif e Freydís, que trouxe jovialidade e energia para a história, mas igualmente colocou seu fundamento principal no único fato não histórico de uma aventura incrível.


Não seria errado, portanto, dizer que foi Harald Hardrad o grande protagonista, afinal Vikings:Valhalla mostra sua jornada até ao trono e sua transformação de um jovem ambicioso em um rei endurecido e firme na cena final. Poderoso? Sim, mas ainda assim, paradoxalmente, frustrante.
A razão para esse problema está justamente em “editar” a narrativa. Parte da narrativa foi colocar o conflito dos vikings convertidos em cristãos e os que ainda defendem a antiga fé pagã. Dessa forma, personagens que têm nomes como “Magnus Magnâmico” ou o santo viking, Olaf Harraldsson como os vilões da série. E vilões sem grandes dimensões, são apenas violentos e sedentos por sangue e poder, bem clichê, algo que Vikings evitava ao máximo.
Um acerto da série foi estabelecer o vínculo romântico entre Freydís e Harald, criando uma linda história de amor entre pessoas visões opostas (ele, cristão e ela pagã), que foi potencialmente emocionante, mesmo encarando duas temporadas afastados apenas para reencontrarem brevemente nos minutos finais. Não estou dizendo que precisava de grandes gestos (mesmo que salvar Freydís esteja no meu livro de gestos gigantescos), mas como a conclusão foi inconclusiva, afetou essa escolha.

Uma temporada acelerada
Em apenas oito episódios tivemos que dar uma senhora acelerada na trama, mas deixando tudo mais confuso.
Canute enfrenta problemas com a Igreja Católica, corrupta e suspeita de sua conversão, mas o potencial desse drama fica resolvido tão inesperadamente como apresentado. Em seguida ele tem que resolver sua sucessão, o que é ainda mais problemática porque tem filhos do primeiro casamento e enteados também, além de seus filhos com Emma.
Esse potencial que seria incrível é desenhado com irmãos, meio-irmãos e primos sonhando com o trono, fazendo alianças e se traindo de uma maneira tão complexa que perdemos facilmente quem é quem.
Como uma maçã podre estraga as demais, Magnus, filho de Olaf, aparece do nada querendo tudo: vingança e poder. E consegue, aparentemente.
Emma e Godwin terminam como começaram: num jogo de xadrez mortal onde nenhum dos dois se priva de golpes baixos para atacar o outro. Canute morre nomeando Emma sua sucessora, mas sabemos que House of the Dragon se inspirou em fatos medievais: os homens preferem queimar tudo à deixar uma mulher no trono, especialmente com Godwin por ali. Mais sobre eles abaixo.


Freydís volta para casa apenas para descobrir que seu pai é o pior homem do mundo, que rouba, ataque e conspira contra ela e pior, que sequestra seu filho, Harald, para tê-la submissa. Não consegue porque ela escapa para Kattegat e manda seu namorado encontrar a criança. Stigr encontra Harald, mas está aparentemente mortalmente ferido, não fica claro se será salvo.
Em Kattegat, Freydis reencontra a Rainha Ælfgifu, cujos anos longe a adocicou. Está de boa com Freydís e até com Emma! Mas Ælfgifu é assassinada por Magnus, que também mata seu filho e toma a coroa da Noruega para ele. De quebra, captura Freydís para vingar a morte de seu pai, Olaf.
Kattegat tinha que ser o cenário final e todos vão para lá: Leif, atrás de Freydís e Harald porque depois de 15 anos rodando o mundo percebeu que chegou a hora de ser efetivamente Rei da Noruega. Ele consegue fugir de sua prisão em Constantinopla, rompe com a Imperatriz Zoe, mata seus captores e rapidamente reencontra Leif chegando na Noruega. Lá, se coroa rei, aceita dividir a posição com o sobrinho, Magnus e até diz que concorda “queimar” Freydís. Claro que é armação, ele prende o sobrinho e liberta Freydís, deixando ela e Leif partirem para a América.
Viram o quanto o final ficou estranho? Sim, a série acaba assim.

O que faltou contar?
Ao terminar Vikings: Valhalla com as mudanças nos reinos da Noruega, Dinamarca e Inglaterra a série encerra literalmente uma ou duas temporadas antes do tempo. Para quem sabe da História real é frustrante demais. “Perdemos” a luta aberta entre a Rainha Emma e Godwin, incluindo as violentas ações de ambos, a tortura de Emma ter que andar sobre chamas para provar sua inocência moral, as mortes violentas dos filhos da rainha sob o comando dele, como Godwin coloca seu filho como rei e como William, o conquistador, passa a ser o conquistador. As rotas para tudo isso foram sugeridas nos últimos episódios, mas ficaram no ar.
Isso disperdiçou um excelente trabalho do ator David Oakes como o mais perigoso dos antagonistas, sempre escapando do obvio e se colocando como um estrategista eficaz. Laura Berlin, cuja beleza é inegável, segurou bem os embates entre eles, mas é David que merece mais elogios.

Então, vamos esclarecer algumas coisas que ficaram de fora:
- Magnus morre “inesperadamente” no primeiro ano de co-reinado com Harald. A série acelerou o processo assumindo o óbvio jamais lacrado por historiadores de que o norueguês se livrou do sobrinho para ficar com a Coroa.
- Harald jamais domina a Dinamarca, mesmo tentando. Em seguida, volta seus olhos para o trono britânico, mas morre em uma batalha na Inglaterra sem conseguir a Coroa inglesa, mas sendo o último rei viking na Noruega.

- Com Harthacnut reinando a Dinamarca, Godwin vence Emma habilmente. Ele apoia Harold Harefoot na Inglaterra e quando os primogênitos da rainha invadem o país, ele ajuda a capturar Alfred e o entrega à Harold, que o cega cruelmente, levando à morte.
O reinado de Harthacnut também não dura muitos anos e assim a Coroa dinamarquesa acaba indo para o caçula de Emma, e último filho sobrevivente de Æthelred, Edward, o Confessor, que se casa com a filha de Godwin, Edith.
Sob a influência de Godwin e Edith, Edward primeiro bane sua mãe da Corte e depois acredita nas acusações de relações dela com o Bispo de Winchester e como teste de sua inocência, a obrigada a publicamente se submeter ao “julgamento por fogo”, que a forçava a andar descalça em cima de nove pontos de ferro derretido.
Depois de superar a prova, Edward aceita Emma de volta e se volta contra Godwin que depois de um ano de exílio restaura à força sua posição no Condado de Wessex, mas morrendo de uma doença desconhecida de forma repentina.
Ainda assim, seu filho sobe ao trono após a morte do Rei Edward, em 1066. Ou seja, Godwin é pai de um Rei da Inglaterra. Infelizmente um que teve um reino breve pois William invade a Inglaterra e fica conhecido como o Conquistador, o primeiro rei normando, encerrando os conflitos com os vikings para sempre.

- Leif e Freydís se estabelecem no novo continente, hoje a América do Norte.
Ou seja, faltava “pouco” para que Vikings: Valhalla completasse a saga. Nesse aspecto, Vikings foi completo. “Perdeu” seu herói na quarta temporada, quando Ragnar morre, mas seus filhos seguraram as duas temporadas seguintes e vimos a guerra civil entre eles, assim como Alfred, o Grande, foi criado e foi o primeiro rei de uma Inglaterra unificada a “vencer” os vikings. Aqui ficamos com um canto de “Hardrada, Hardrada, Hardrada” brega e infantil para “fechar” a trama. Alguém culpa a nossa frustração?
O lado positivo
Como fã apaixonada de Game of Thrones, me diverti na última temporada de ir identificando os locais onde foram gravadas várias sequências de Vikings:Valhalla porque como as equipes são as mesmas, foi fácil reparar as escolhas repetidas.
Essa conexão vai além de visual, há um potencial de vermos um dia atores “saírem de Kattegat” para “chegarem em Westeros”. Em especial com House of the Dragon ainda em andamento e os spin-offs em desenvolvimento.
Peter Claffey, que estará em O Cavaleiro dos Sete Reinos, faz uma ponta em Vikings:Valhalla. Eu sou defensora de Leo Sutter como Aegon I na série A Conquista de Aegon quando ela sair do papel, o aceitaria também como um Cregan Stark mais velho na temporada final de House of the Dragon.
Igualmente vejo potencial para Laura Berlin, David Oakes, Frida Gustavsson e Sam Corlett em papéis de destaque na dinastia dos Targaryens. E vocês?
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